PARTE II: REVOLUÇÃO BRASILEIRA E CLASSES DOMINANTES NO
1.14 EMPRESARIADO INDUSTRIAL E DESENVOLVIMENTO
A Cadeira I de Sociologia da USP executou diversos projetos, entre eles: A
empresa industrial em São Paulo realizado no âmbito do CESIT com financiamento do
governo do Estado de Carvalho Pinto, através da FAPESP e da FIESP. Deste projeto coletivo participaram, entre professores, pesquisadores e colaboradores, cerca de 20 pessoas. Do material empírico reunido resultaram diversas teses, as quais merecem um estudo a parte. Dentre elas, porém, analisamos a tese de livre-docência de Fernando Henrique Cardoso59Empresário Industrial e desenvolvimento, publicada em 1964, uma vez que trata
diretamente a questão sociológica e política discutida naquele momento, a ação econômica e política dos empresários industriais no desenvolvimento nacional.
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Fernando Henrique Cardoso (1931-) nasceu no Rio de Janeiro ―integrado às elites brasileiras‖, pois é filho e neto de generais, conforme Reis (2007). Muda-se ainda criança com sua família para São Paulo, onde teve excelente formação educacional. Ascendeu na carreira acadêmica na USP, licenciou-se em 1952, tornou-se mestre em 1953, doutor em 1961, livre-docente pela Cadeira de Sociologia I, em 1963,titulando-se professor catedrático em ciência política em 1968. Porém, aposentou-se forçosamente no final de 1968 com o Ato Institucional número 5. Cf. Rodrigues (2009). Em sua formação acadêmica, desde o mestrado FHC teve Florestan Fernandes como tutor, portanto FHC é ―cobra-criada‖. Ao contrário de seu tutor, cuja trajetória sempre se manteve fiel e compromissada com a emancipação dos ―de baixo‖, FHC sempre se conservou fiel aos ―de cima‖, tornando-se, ao longo de sua trajetória, um intelectual orgânico da burguesia paulista e teórico do ―subcapitalismo‖ mais premiado nos EUA.
O projeto empresa industrial em São Paulo foi escrito majoritariamente por Florestan Fernandes com um trecho de Fernando Henrique Cardoso e colaboração de Octávio Ianni. Pretendia fazer o ―levantamento da situação global das empresas industriais‖ através do estudo detalhado das ―empresas representativas‖ (FERNANDES, 1976, p.342). Segundo Fernandes (1976), o momento histórico era de transição da ―velha‖ para a nova ―indústria‖. O processo abrupto de modernização ocorrido nos anos 1950 projetava novas empresas de tecnologia industrial mais avançada, impondo um divisor de águas com as velhas organizações industriais, empresas familiares, regidas por técnicas patrimonialistas.
Para Fernandes (1976) também a burguesia industrial era impactada pelas feições particulares do surto industrial brasileiro, distinto de outras experiências históricas no processo de elaboração e diferenciação do capitalismo na sociedade brasileira. Assim o projeto objetivava entender o processo em três níveis analíticos distintos: no âmbito da organização da unidade investigada, a empresa industrial; no nível das relações recíprocas dessas com o contexto social circundante; e na dimensão mais abstrata da contribuição da empresa industrial para a integração da ordem social competitiva na sociedade brasileira.
A primeira tese resultante do projeto A empresa industrial em São Paulo é a tese de livre-docência de Sociologia (FFCL/USP) de Fernando Henrique Cardoso, apresentada em 1963 e publicada, pela primeira vez, em 1964. Cardoso (1964) problematiza a criação de novas condições para a ação econômica, procurando entender as possibilidades de expansão do capitalismo industrial no Brasil no modo pelo qual os principais agentes do processo, os empresários, aproveitavam as possibilidades existentes e agiam nas circunstâncias dadas.
Com esta tese, Cardoso (1964) não usa o conceito de revolução brasileira, em vez disso pretendia desconstruir a tese da revolução brasileira e a tática da esquerda trabalhista e comunista em torno de uma frente única entre a burguesia nacional e as classes trabalhadoras. Desde então, o autor se colocava contra o varguismo, as teses dos isebianos e dos pcbistas em torno desta aliança, cuja expressão máxima era o governo de João Goulart. Não obstante, conforme visto na primeira parte, a crítica de FHC não é pioneira, um raio em céu azul, pois diversos outros textos já tinham sido publicados antes dele, questionando a orientação do PCB.
Para Cardoso, segundo Rodrigues (2009) atribuir papel revolucionário à burguesia nacional equivalia a confundir a história brasileira com a europeia, um equívoco. Não havia nenhuma burguesia nacional, como pretendia Sodré (1958, 1964). Para Cardoso (1964) a burguesia brasileira era recente, heterogênea e desorganizada. A mentalidade dos empresários era marcada pelas condições de atraso da sociedade. A burguesia não tinha nenhum projeto de
hegemonia e tampouco de revolução nacional e democrática. A maior aspiração da burguesia brasileira era participar da ―prosperidade ocidental‖, ao lado dos EUA. Não existe no Brasil e nos países subdesenvolvidos o vínculo necessário entre empreendedores industriais e desenvolvimento econômico.
Segundo Cardoso (1964) os capitães de indústria, tipo ideal ligado aos primeiros empreendedores, não se impuseram ao domínio das oligarquias, mas tiveram de se adaptar. Até a década de 1950, os quadros de ação empresarial eram acanhados. ―A partir de padrões tradicionais e irracionais de comportamento econômico empresarial, criaram-se as condições para a acumulação de capital e para a decantação de formas de experiência industrial que se transformaram em ação empresarial moderna‖ (CARDOSO, 1964, p.82). O capital estrangeiro, em vez de inimigo, contribuiu para diferenciar o setor manufatureiro e dinamizar a ação empresarial no Brasil no plano da concorrência global.
Conforme Cardoso (1964) a industrialização brasileira não foi impulsionada pela burguesia nacional, mas foram técnicos das classes médias os ideólogos desenvolvimentistas. Apesar disso, os movimentos populares e nacionalistas não tinham meios de conduzir o processo, cuja direção estava com ―[...] as camadas dominantes tradicionais e as forças internacionais que tinham interesse em continuar a dominar a economia do país lutaram, transfiguraram-se, aliaram-se aos novos grupos ascendentes, mas preservaram parte do antigo poder‖ (CARDOSO, 1964, p.89). A particularidade do processo de industrialização brasileiro consiste na ―aliança entre burguesia industrial e os grupos agrários e financeiros tradicionais, que, por sua vez, exprimem a dominação imperialista e o subdesenvolvimento‖ (CARDOSO, 1964, p.90).
Assim, a história dos empreendedores clássicos nas economias capitalistas desenvolvidas não se repetiria no contexto periférico. Sobretudo com o advento do capital monopolista na economia brasileira, no qual as corporações passam a ter domínio de posições-chave na sociedade. Mudam as condições de produção de lucro, as formas de gestão, de organização e de homens requeridos.
Portanto, para Cardoso (1964), a burguesia brasileira não é propulsora nem do desenvolvimento nem da modernização, pois estava presa às estruturas internas de dominação, ligadas às condições sociais internas, e às estruturas externas dominação em razão do capital monopolista internacional. Desde então, Cardoso (1964) acreditava no destino histórico do ―subcapitalismo‖, pois a burguesia brasileira não tinha vocação hegemônica e o socialismo colocava em risco os privilégios desta classe, solução não palatável. Logo, os empresários industriais brasileiros não se tornariam líderes políticos nem a classe seria capaz
de intervir na política econômica. Ao contrário, a conciliação com o imperialismo seria o fundamento da práxis da burguesia brasileira.
Mais recentemente, Paulo Miceli (1992) e Barbara Weinstein (2000) refutam as teses de FHC acerca da incapacidade política da burguesia industrial. Em vez de uma classe sem consciência e fraca, esses autores mostram exatamente o contrário.
Paulo Miceli (1992) apresenta o "projeto industrialista" da burguesia paulista, a qual aproveitou o bonde da economia cafeeira para se tornar classe dominante. Esse projeto voltou-se para a "constituição dos fatores básicos e indispensáveis a formação da sociedade industrial". Fatores que envolvem desde a infraestrutura necessária, construída através do Estado, até mecanismos de controle social e hegemonia sobre os corações e mentes dos trabalhadores. Um conjunto de ideias e de novos valores, como a valorização do trabalho, da disciplina, da higiene, da vida dos trabalhadores fora da fábrica, acompanharam simultaneamente a criação de indústrias no Brasil. A partir delas, os empresários promoveram, 'concentrando vontades e poderes, a completa reestruturação do país na primeira metade do século XX.
Barbara Weinstein (2000) mostra o modo pelo qual a ação política da burguesia industrial fora decisiva para a manutenção da "paz social" no Brasil antes de 1964. Roberto Simonsen e a burguesia industrial tinham "mentalidade modernizadora," inspirada no taylorismo e fordismo. Não havia uma burguesia "atrasada" ou incapaz de empreendimentos políticos no Brasil.
Weistein (2000) pondera as iniciativas e visões de mundo do empresariado paulista que, segundo ela, exerceu um papel bastante expressivo entre 1920 e 1964 na política brasileira, ao contrário, do que defende o conceito de "populismo". Apesar disso, inspirada em Edward Thompson, a autora mostra que houve resistência dos trabalhadores e o empresariado não teve êxito completo em seus planos de disciplinar a força de trabalho. Os trabalhadores reagiram ao projeto industrialista, não aceitando as imposições do patronato, não se comportando como vítimas passivas da situação. A busca do lucro e do controle social foi acompanhada de resistência e da atuação questionadora dos trabalhadores. Weinstein (2000) defende que o conflito de classes não existia na sua forma clássica no Brasil, como supõe a historiografia do populismo.
PARTE III: MODELO CRÍTICO DE FLORESTAN FERNANDES (1954-1964),