• Nenhum resultado encontrado

Independentemente das diferentes formas e estratégias através das quais os indivíduos procuram reproduzir os valores da “masculinidade hegemónica”, (quase) todas elas tendem a estar associadas a vivências paradoxais de potência e carência/vulnerabilidade, bem como, em muitos casos, a situações manifestamente detrimentais para a integridade física e psiquíca dos próprios e até mesmo de terceiros. Como destaca (Paniagua, 1999), a masculinidade é uma condição paradoxal, que tranquiliza e inquieta, marcada por uma dialéctica permanente entre o reconhecimento do privilégio e a sua impugnação. Tranquiliza porque suscita o orgulho corporativo masculino; inquieta na medida em que tem de ser permanentemente provada/actualizada, configurando, desse modo, um pesado e exigente encargo social, raramente concretizável, e um factor de ansiedade e angústia. Trata-se de um encargo de que o homem, sob o risco de ver maculada a identidade de género, procura dar conta

e provar que está à altura, sabendo de antemão que isso lhe permitirá assegurar determinados beneficios simbólicos, nomeadamente o poder de afirmação junto dos seus pares. Recusar-se a assumir e a provar que está à altura dos desafios subjacentes a este encargo valer-lhe-á, no mínimo, a atribuição de rótulos feminilizantes e/ou desqualificantes da sua condição masculina. Na iniciação a estas “obrigações de género”, os indivíduos mais velhos assumem-se como os modeladores/correctores dos mais jovens, situação bem patente nos processos de socialização sexual (Welzer-Lang, 2001; Kimmel, 1997), em particular nos que ocorrem em contextos prostitucionais.

Sujeito aos permanentes desafios e provas de masculinidade, o homem torna-se então refém das expectativas sociais exageradas e irreais, dificilmente alcançáveis, em torno do poder e domínio que devem caracterizar a sua identidade (Kaufman, 1995; Kimmel, 1997). O “ideal impossível de virilidade” constitui, assim, “o princípio de uma imensa vulnerabilidade” (Bourdieu, 1999: 43). É caso para se dizer que “os homens também são vítimas da dominação masculina” (Almeida, 1995: 243): vítimas da pressão e da exigência criadas pelas ilusões sobre as “competências” masculinas (illusio viril) e da vigilância/monitorização (Heise, 1997) a que estão permanentemente sujeitos. Esta situação aparentemente contraditória, em que os dominantes também são dominados, é designada por Bourdieu (1999) de “paradoxo da masculinidade”.

A vontade de corresponder aos requisitos ideológicas da masculinidade é de tal forma intensa e prioritária que, frequentemente, os indivíduos incorrem em comportamentos em que tudo, inclusive a sua própria segurança, parece submeter-se à obstinação em provar a sua competência viril. É também neste sentido que nos referimos à masculinidade como princípio de vulnerabilidade. No caso particular da prostituição, uma das manifestações mais recorrentes e problemáticas desta vulnerabilidade (decorrente do quadro de valores de género dominantes) diz respeito à frequente negligência masculina em matéria de prevenção das DST:

“[…] a vulnerabilidade masculina às DST/Aids se constrói a partir da socialização dos homens para um estilo de vida auto-destrutivo, em que o risco não é visto como algo a ser evitado e prevenido, mas enfrentado e superado; e em que o sexo deve ser buscado à revelia do risco e jamais recusado. Some-se a isso a crença de que o cuidado consigo e com o outro são valores, em nossa sociedade, associados ao feminino: homem que é homem nem adoece” (Diniz, 2001: 4).

Com efeito, os modelos de socialização masculina com maior expressão social comportam todo um conjunto de crenças e “para-mitologias” indutoras de atitudes e comportamentos que representam sérias ameaças para os próprios e para terceiros (Craib, 1987; Nolasco, 1993; Keijzer, 1997). Em relação às DST, a crença na invulnerabilidade masculina e a “necessidade”, socialmente fomentada, de assunção do risco e de afronta do perigo como sinais de masculinidade, constituem dois dos principais obstáculos à instauração de uma “cultura de auto-cuidado” e de prevenção (Lagunes, 1998). O risco poderá então ser considerado um elemento central do modelo da “masculinidade hegemónica” (Schutter, s.d.: 4), pois a sua assunção é, de um modo geral, valorizada e tomada como um indicador inequívoco de bravura e virilidade.

Na pesquisa que desenvolveram junto de clientes da prostituição, Faugier, Hayes e Butterworth (1992) identificam a necessidade de exposição aos riscos (sanitários, risco de se ser descoberto pela esposa ou namorada, entre outros) como uma dimensão determinante na procura do sexo comercial. Isto ficar-se-á a dever à eroticização do afrontamento do risco como fonte de excitação e a um sentimento viril de self- empowerment: 16

“[...] the behaviour of western men who have been exposed to extensive public health campaigns around AIDS and yet still offer to pay prostitutes extra for unprotected sex needs, I think, to be understood at least in part through reference to the eroticization of risk. For such men it is clearly not enough to play an internal game of risk with fantasized dangers. To experience excitement and a subsequent sense of triumph and mastery, these men need to pit themselves against real world dangers […]” (O’Connell-Davidson, 1998: 155).

No entender de Medeiros (1999), a resistência à utilização do preservativo estará ainda relacionada com o facto de os homens o construírem simbolicamente como redutor da expressão da sua virilidade e do seu domínio sobre as mulheres, ou seja, como uma barreira que impedindo a deposição do fluxo de esperma na mulher, a subtrai à “carga” do poder masculino.

16 A sujeição deliberada ao risco em diversos contextos da vida quotidiana, nomeadamente nos tempos

de lazer, é ainda interpretada por F. B. Ribeiro (2003) como um “escape” para as rotinas do quotidiano, ou seja, uma forma de transgressão e excitação que proporciona momentos de evasão dos indivíduos face aos constrangimentos impostos pelos mecanismos de controlo social e de auto- domínio. Para um aprofundamento desta leitura dos comportamentos de risco, vejam-se, entre outros, Elias (1992) e Rojek (1995).

A possibilidade de ocorrência de sexo desprotegido, será, em princípio, tanto maior quanto mais intensamente se manifestar a estrutura ideológica de género que assegura a “dominação masculina” (Bourdieu, 1999). Tal situação contribui decisivamente para inviabilizar uma democracia sexual efectiva, na qual a mulher possa afirmar-se como dona e senhora da sua própria sexualidade, incluindo o exercício da sua capacidade de reivindicação de práticas sexuais seguras. Como destaca Parker (s.d.: 2), as mulheres, sujeitas ao que designa por “sistema do machismo”, “[...] exercem pouco ou nenhum direito, no que diz respeito à expressão sexual masculina, ao passo que os homens exercem poder quase absoluto no controle do comportamento sexual das mulheres”, daí que se tenha vindo a assistir à “[…] crescente disseminação da infecção pelo HIV entre mulheres, cujo único factor de risco aparente seriam suas relações de poder profundamente desiguais, com seus parceiros sexuais masculinos”. Estamos em crer que, de um modo geral, este factor de risco tenderá a ser menor no âmbito do sexo comercial, nomeadamente em contextos de prostituição abrigada, em virtude do relativo controlo que as trabalhadoras sexuais exercem na gestão dos diversos condicionalismos que convergem no exercício da sua actividade (Perkins, 1991; Sullivan, 1995). Em alguns casos, um controlo possivelmente mais significativo que o possuido por outras mulheres em circunstâncias alegadamente caracterizadas por uma maior democracia sexual.

No contexto específico do nosso estudo procuraremos apurar em que medida se poderá falar de uma atenuação (ou, eventualmente, inversão) dos valores de género dominantes e as suas eventuais implicações de natureza higieno-sanitária. Será, por isso, relevante ter em consideração a capacidade de controlo que as mulheres prostitutas exercem na prestação dos serviços sexuais, nomeadamente no que toca a medidas/estratégias de prevenção de DST e/ou de dissuasão de comportamentos sexuais de risco, inibindo a predisposição para uma sexualidade de risco que alguns dos seus clientes tenderão a manifestar. Queremos com isto questionar a pertinência da imagem social estereotipada da prostituição como perigoso foco epidemiológico e a responsabilização quase que exclusiva que recai sobre mulheres prostitutas, frequentemente apontadas como as grandes responsáveis pelos comportamentos sexuais de risco que ocorrem no meio prostitucional e, consequentemente, pela propagação de DST. Os clientes, por seu lado, parecem passar despercebidos na generalidade dos

discursos sociais que se referem às implicações epidemiológicas do sexo comercial, ignorando-se que os seus comportamentos e atitudes, como adverte Kruhse- Mountburton (1992: 224), “[…] largely determines the impact of prostitution on the community in terms of STD’s”. Além de que já muitos estudos científicos os identificam como os grandes responsáveis pelos comportamentos sexuais de risco no contexto da prostituição.17

Torna-se, portanto, fundamental considerar não apenas as mulheres que se prostituem, como também aqueles homens que pagam e usufruem dos serviços sexuais que elas prestam. É imperioso perspectivar os clientes como potenciais responsáveis pela transmissão de DST (Hart, 1998: 85) e conceber a prostituição e as suas eventuais implicações sanitárias (também) como um “problema masculino“ (Jakobson, 2002). Para tal, é fundamental ter em conta que a forma como os indivíduos concebem e expressam a sua sexualidade, incorrendo ou não em comportamentos sexuais de risco, está directamente vinculada às construções sociais do masculino e do feminino. É que o género, como destacam Parker et al. (1991: 79), é uma categoria fundamental na organização e manifestação daquilo que designam de “cultura sexual”: “the system of meaning, of knowledge, beliefs and practices, that structure sexuality in different social contexts”. Com este conceito devemos ter sempre presente, como lembrou Rostand (in Gagnon e Simon, 1973), que na união sexual de dois corpos há sempre uma terceira presença: a sociedade.

Embora a “cultura sexual” a que Parker et al. (1991) se referem seja ainda predominantemente machista, começa, todavia, a ganhar forma

“um consenso contemporâneo surpreendentemente alargado que impele os homens a abandonarem aquela que é considerada a masculinidade tradicional, para conseguirem entrar em contacto com os seus próprios sentimentos e para desenvolverem a sua articulação emocional” (MacInnes, 2002: 113).

Trata-se do que Paniagua (1999) chama de “movimento de abandono da couraça”, caracterizado por um questionamento dos valores tradicionais da masculinidade, das suas insuficiências e consequências, e pela instauração de um espaço social povoado por múltiplas variantes de sociabilidade masculina. A uma

17 Vejam-se, entre outros, Kruhse-Mountburton (1992), McKeganey e Barnard (1996), Legardinier

masculinidade tendencialmente agonística-confrontacional, construída com base no enfrentamento dos outros, dos reptos sociais e do risco, poderá então suceder uma masculinidade de cariz reflexivo, na qual o homem toma efectiva consciência dos mandatos culturais de género e, por essa via, logra alguma liberdade para assumir os seus próprios sentimentos e os conteúdos identitários até então reprimidos por serem associados ao feminino, distanciando-se progressivamente dos valores mais tradicionais/convencionais da masculinidade. Nessa altura, ganhará forma aquilo que Badinter (1996) designa de “masculinidade reconciliada”, caracterizada por Paniagua (1999: 22-30) do seguinte modo:

“[...] hombría que ya no se ancla en una determinada forma de ser o actuar y fluye a su gusto entre las posibilidades de la existencia. Como forma de superar la dicotomía masculino- femenino, algunos inyectan nuevos contenidos a su hombría; otros insisten en la hibridez de la ‘personía’. [...] De conjunto, este movimiento presiona contra las bases del modelo y amplia los límites de la expresión de lo masculino procurando la integración de los contenidos perdidos que, hasta el momento, se siguen llamando ‘femeninos’.”

Esta ampliação da diversidade de expressões identitárias masculinas parece começar a assumir uma certa visibilidade no contexto de prostituição em que desenvolvemos o nosso trabalho, ainda que, como reiteradamente temos vindo a referir, se trate de uma diversidade situada sobretudo no âmbito dos processos de interacção que os clientes estabelecem com as trabalhadoras sexuais, e não tanto ao nível da (re)produção retórica dos códigos masculinos. Neste quadro de considerável heterogeneidade praxiológica, alguns comportamentos masculinos, nomeadamente os que têm lugar nas esferas mais íntimas da relação com as mulheres prostitutas, parecem destoar nitidamente dos códigos de masculinidade dominantes. Embora discordantes, esses comportamentos, como mais adiante poderemos constatar, comportam também dimensões de risco de transmissão de DST, o que nos leva a considerar a predisposição masculina para uma sexualidade de risco como uma tendência não exclusivamente circunscrita às praxis que convergem com os preceitos da “masculinidade hegemónica”.

Documentos relacionados