O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) distingui-se, desde sua origem, como o exame de caracterização dos alunos concluintes do ensino básico e tem como objetivo principal fornecer ao participante elementos para a sua auto-avaliação em termos de competências e habilidades desenvolvidas na escola. É uma prova que não exige a memorização. Pelo contrário, valoriza um saber crítico voltado para um maior conhecimento social e uma cultura capaz de desenvolver as potencialidades e facilidades do ser humano. Procura verificar a capacidade do participante para resolver problemas, sublinhando sua capacidade para a criação e transformação da realidade, mantendo-se ligado ao repertório dos jovens concluintes do Ensino Médio.
Desta forma, o Enem procura avaliar os egressos do Ensino Médio no sentido da formação do cidadão crítico e ativo. Convidando-os a assumir a atitude de questionamento, dúvida e curiosidade diante de conceitos , atitudes e procedimentos das Ciências Humanas e das outras áreas do conhecimento, os participantes são desafiados a operar seu raciocínio, exercitando-se competências e habilidades no domínio das linguagens e da capacidade de expressão e pensamento lógico, visando demonstrar sua autonomia de julgamento e de ação diante de situações-problema que envolvem a vida social.
Mas isto sem perder de vista três necessidades dos jovens. A primeira delas, do ponto de vista do conhecimento, permitindo que eles demonstrem o domínio de compreensão da realidade que dá consistência ao seu posicionamento crítico. A segunda, do ponto de vista da habilidade do pensamento, permitindo que se exercitem na auto-avaliação da consistência lógica de seu posicionamento, ou seja, que testem, a partir da complexidade das relações sociais presentes no mundo, a logicidade de suas idéias. Finalmente, uma terceira necessidade, do ponto de vista afetivo e social, instrumentalizando-os conceitualmente para que possam identificar em sua problemática pessoal e existencial, ou seja, em sua singularidade, algumas idéias e dificuldades comuns a outros jovens brasileiros e de outras partes do mundo. Assim, podem analisar seus desdobramentos em termos da consciência social (a unidade de concepção do mundo e da sociedade segundo os interesses gerais de cada grupo social) e da situação social (modos de comportamento, atitudes, valores, interesses imediatos, sentimentos, paixões, ações e interesses políticos, dentre outros).
O ato de ler a prova exige uma escrita mental, na qual o participante estabelece um diálogo silencioso com os conteúdos aprendidos. É preciso ter clareza do que se quer encontrar nos textos, mapas, ilustrações, com o objetivo de responder a um determinado conjunto de questões ou ampliar a compreensão de um determinado assunto.
Mesmo que o participante nunca tenha tido contato com o assunto tratado em alguma questão, o Enem desafia a levantar hipóteses a partir da observação e da análise dos elementos presentes no enunciado da questão. O tema também pode ser explorado no sentido de desenvolver uma posição política e atitudes éticas condizentes com cada contexto social.
A escolha da alternativa correta mobiliza no participante o domínio de conceitos e explicações das Ciências Humanas, relacionando-os com os conhecimentos de outras áreas. Em algumas questões o que é avaliado é a precisão do vocabulário e da terminologia científica expressas em diferentes linguagens. O exercício de transposição de informações expressas numa linguagem para outra linguagem, assim como a inferência e julgamento de opiniões e pontos de vista de interesse das Ciências Humanas também são avaliados a partir da confrontação de diferentes tipos de texto.
Estas características da prova transformaram o Enem em um poderoso indutor das mudanças em andamento na escola brasileira. Como a prova enfatiza as estruturas de inteligência dos participantes, ela está contribuindo de maneira significativa para a consolidação dos pressupostos dos Parâmetros Curriculares Nacionais e dos critérios de avaliação das aprendizagens significativas dos conteúdos das Ciências Humanas, numa perspectiva interdisciplinar.
No que se refere aos resultados da avaliação, que o participante recebe em caráter confidencial em sua residência, constitui-se em um feedback do repertório e das dificuldades de cada um. A partir da comparação do rendimento individual com a do conjunto dos participantes, o jovem pode melhor compreender os elementos cognitivos, afetivos, sociais e culturais que constituem a sua própria identidade. Esses resultados também fornecem dados que sinalizam para a escola brasileira, ainda que não seja um exame de avaliação do sistema educacional, quais são os bloqueios e as lacunas de conhecimentos dos indivíduos participantes da prova. No que se refere à área de Ciências Humanas, isto se traduz nos conhecimentos a respeito da sociedade, da economia, das práticas sociais e culturais, assim como em termos de atitudes e procedimentos de questionamento, análise e problematização de situações novas ou problemas que envolvem a subjetividade, a intersubjetividade, a vida social, a política, a economia e a cultura.
Desde a sua primeira edição, o Enem tem obtido enorme adesão dos estudantes, que têm manifestado um grande entusiasmo com o tipo de prova proposto. Assim, como o voto facultativo aos 16 anos, participar do Enem tem se transformado em marco de referência para o exercício da cidadania do jovem. Como uma espécie de rito de passagem para a vida pública é, em si mesmo, uma prática social que materializa conceitos, atitudes e procedimentos preconizados na reforma do ensino brasileiro para a área das Ciências Humanas.