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Capítulo 1 – Introdução

1.2 Enquadramento e caracterização da problemática abordada

1.2.1 Energia eólica em Espanha e em Portugal

Desde meados dos anos 80 do século passado que se tem verificado um aumento da consciencialização mundial para os problemas relacionados com o meio ambiente e com os objectivos estratégicos do desenvolvimento sustentável, levando à assinatura, em 1997, do protocolo de Quioto, mediante o qual 175 países (incluindo Espanha e Portugal) se comprometeram a reduzir os seus níveis de emissões de gases de efeito de estufa [24]. Na sequência do protocolo de Quioto, foi redigida a Directiva Europeia

2001/77/CE, que fixa os seguintes objectivos [25]:

• no ano de 2010, 12% do consumo total de energia primária da UE deverá ser de origem renovável e 22,1% da produção de electricidade da UE deverá ser de origem renovável;

• no ano de 2020, 20% do consumo de energia da UE deverá ser de origem renovável e 34% da produção de electricidade da UE deverá ser de origem renovável;

O cumprimento do primeiro objectivo enunciado pressupõe diferentes valores de referência para os sistemas eléctricos dos países ibéricos: Espanha deverá assegurar que 29,4% da sua produção nacional de electricidade vai ser exclusivamente de origem renovável em 2010, enquanto que Portugal terá que assegurar uma quota de 39% nesse mesmo ano.

Em Espanha, a transposição da Directiva Europeia 2001/77/CE pelo governo deu origem à publicação, no ano 2005, do Plan de Las Energías Renovables 2005-2010 (PER) [26], que substituiu o Plan de Fomento de Las Energías Renovables 2000-2010, um plano de incentivo à construção de aproveitamentos de produção de electricidade baseados em fontes de energia renovável, datado do ano 2000 [27]. No ano de 2007 foi publicada a Planificación de los sectores de electricidad y gas 2007-2016 [28], aumentando a quota de referência para o ano de 2011 de 29,4% para 31,4% e fixando o objectivo de 34,3% para 2016 [29].

Em Portugal, os objectivos da Directiva Europeia 2001/77/CE foram fixados pela

Resolução do Conselho de Ministros nº 169/2005, no âmbito do estabelecimento da

Estratégia Nacional para a Energia [30]. Os objectivos da Directiva foram

posteriormente reforçados com a publicação do plano Energia e Alterações Climáticas

– Mais investimento, melhor ambiente, aumentando a quota de electricidade de base

renovável de 39% para 45% [31].

A par desta legislação, os governos de Espanha e de Portugal desenvolveram políticas de incentivo à construção de centrais de produção de electricidade baseadas em fontes de energia renovável, através de definição de formas remuneratórias atractivas para os produtores em regime especial.

Em Espanha, foi publicado o Real Decreto 436/2004, estabelecendo o regime jurídico e económico da actividade de produção de energia eléctrica em regime especial [32], no qual foi definido que os produtores podem optar entre vender a sua electricidade directamente a uma empresa de transporte ou de distribuição e vendê-la livremente no mercado, recebendo um prémio por participação [33]. No caso concreto da energia eólica, se os produtores em regime especial optarem por vender a sua electricidade directamente a uma empresa de transporte ou de distribuição, serão remunerados mediante uma tarifa regulada, única para todos os períodos de operação. Se decidirem vender a sua produção livremente no mercado, a sua remuneração será dada pela soma do preço de mercado com um prémio especial destinado a incentivar a participação dos produtores eólicos no leilão de preço uniforme [34].

Em Portugal foram publicados, na sequência da Directiva Europeia 2001/77/CE, o

Decreto-lei 339-C/2001, posteriormente revogado pelo Decreto-lei 33A/2005, nos quais

foram definidas formas remuneratórias para a produção de electricidade em regime especial. Em particular, estes diplomas propõem uma fórmula de remuneração

produzida a partir de recursos renováveis [35], [36], garantindo a respectiva remuneração por um período considerado suficiente para permitir a recuperação dos investimentos efectuados e a expectativa de retorno económico mínimo dos investidores [37]. Os produtores de energia eléctrica em regime especial entregam à rede nacional de transporte toda a energia produzida. O valor da tarifa praticada depende da tecnologia utilizada, sendo estabelecido pelo Decreto-Lei nº 225/2007 [38].

Em resultado da publicação desta legislação, a capacidade de produção eólica registou um crescimento significativo ao longo da última década, tanto em Espanha como em Portugal. Com efeito, o crescimento da potência eólica instalada no sistema eléctrico ibérico aumentou consideravelmente a partir do ano 2000, primeiro em Espanha e depois em Portugal, conforme se pode observar na Figura 1 e na Figura 2.

Potência Eólica Instalada em Espanha Continental (MW)

6.6 7.3 46 52 75 115 235 425 835 14762292 3276 4950 6220 8442 9890 11140 13502 0 2000 4000 6000 8000 10000 12000 14000 16000 199019911992199319941995199619971998199920002001200220032004200520062007

Figura 1 – Evolução da capacidade de produção eólica em Espanha [45],[46],[47],[48],[49].

Potência Eólica Instalada em Portugal Continental (MW)

8 19 38 45 51 76 114 175 253 537 1047 1517 1905 0 500 1000 1500 2000 2500 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007

No dia 31 de Dezembro de 2007, a potência eólica instalada totalizava 13 502 MW no sistema eléctrico espanhol [39] e 1 905 MW no sistema eléctrico português [40]. Os valores de capacidade instalada apresentados na Figura 1 e na Figura 2 correspondem à potência efectivamente ligada às redes de transporte da REE e da REN, sendo os valores reais de potência eólica instalada ligeiramente superiores. A observação da Figura 1 permite verificar que, em Espanha, a potência eólica cresceu a uma taxa média de aproximadamente 33% desde o ano de 2000. Em Portugal, a variação correspondente foi igual a 59% (Figura 2).

À medida que a potência eólica instalada nos sistemas eléctricos de Espanha e de Portugal foi aumentando, a parcela do consumo de energia eléctrica abastecida a partir de energia eólica também foi crescendo, conforme se ilustra na Figura 3 e na Figura 4.

Energia Eléctrica de Origem Eólica Fornecida em Espanha Continental (GWh) 304 620 1 237 2 464 4 462 6 600 9 257 11 720 15 753 20 352 22 631 26 477 5 000 10 000 15 000 20 000 25 000 30 000 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007

Figura 3 – Evolução da produção eléctrica de origem eólica em Espanha [45],[46],[47],[48],[49]

Energia Eléctrica de Origem Eólica Fornecida em Portugal Continental (GWh) 25 78 108 154 239 341 468 787 1 741 2 892 4 002 500 1 000 1 500 2 000 2 500 3 000 3 500 4 000 4 500 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007

No ano de 2007, as centrais eólicas espanholas produziram 26 477 GWh de energia eléctrica, representando aproximadamente 10,2% do consumo anual de Espanha [39]. No mesmo ano, foram produzidos em Portugal 4 002 GWh de energia eléctrica com origem eólica, correspondendo a cerca de 8,0% do consumo anual do sistema eléctrico português [40].

Por outro lado, as perspectivas de crescimento da energia eólica na península Ibérica apontam no sentido de um crescimento acelerado nos próximos anos. De acordo com as projecções dos operadores de sistema, representadas na Figura 5 e na Figura 6, a capacidade de produção eólica deverá crescer rapidamente entre 2005 e 2010, continuando a crescer de forma mais lenta a partir de 2015, sobretudo em Portugal.

Potência Eólica a Instalar em Espanha Continental (MW)

115 2 292 9 890 19 200 27 000 35 000 40 000 5 000 10 000 15 000 20 000 25 000 30 000 35 000 40 000 45 000 1995 2000 2005 2010 2015 2020 2025

Figura 5 – Evolução futura da capacidade de produção eólica em Espanha [12].

Potência Eólica a Instalar em Portugal Continental (MW)

8 76 1 047 4 125 4 925 5 213 5 463 1 000 2 000 3 000 4 000 5 000 6 000 1995 2000 2005 2010 2015 2020 2025

Figura 6 – Evolução futura da capacidade de produção eólica em Portugal [50].

Para assegurar o cumprimento dos valores de referência impostos pela Directiva Europeia 2001/77/CE, os operadores de sistema europeus são obrigados a dar prioridade

a toda a energia eléctrica de origem renovável, independentemente do período ou da hora do dia em que ela for injectada nas redes de transporte sob a sua supervisão [30]. No caso do sistema eléctrico ibérico, esta obrigatoriedade foi reforçada no âmbito do cumprimento dos objectivos fixados pela “Planificación de los sectores de electricidad y gas 2007-2016” e pelo plano “Energia e Alterações Climáticas – Mais investimento”.

Dada a quantidade elevada de produção eólica que se prevê que venha a ser instalada na península Ibérica e o consequente aumento da incerteza associada à sua disponibilidade, é imperativo que os operadores de sistema saibam adaptar os seus procedimentos actuais e as suas regras de quantificação da reserva operacional, para poderem responder adequadamente ao desafio da integração eólica sem comprometerem a fiabilidade do abastecimento dos consumos. Esta situação justifica a utilização de métodos probabilísticos para esse efeito, em detrimento dos métodos determinísticos utilizados tradicionalmente, dada a natureza estocástica do comportamento do recurso eólico e a sua previsibilidade limitada [51].