Shift working in an isolated environment
2. Enquadramento Teórico 1 Conceitos
O trabalho por turnos e noturno são duas formas reconhecidas de organização temporal do trabalho, surgindo por uma necessidade de manter determinada atividade em execução alternada (dia e/ou noite) ou até mesmo de forma contínua.
A génese e formas de implementação são tópicos bastante estudados e referenciados noutro tipo de trabalhos mas no entanto, existem pontos que merecem ser recordados. Salienta-se o facto de estas formas de organização do trabalho, apesar de existirem desde a alvorada das civilizações, terem ganho maior expressão a partir da Revolução Industrial, com o aumento do ritmo de trabalho e massificação da produção. É frequentemente indicado que as razões impulsionadoras deste tipo de organização foram:
• Económicas, de forma a responder às exigências dos mercados e rentabilizar os investimentos efetuados na produção;
• Tecnológicas, por obrigação de manter certos processos em laboração contínua, como p. ex. serviços de telecomunicação, produção de energia; • Sociais, decorrentes um pouco dos dois pontos anteriores e em que obrigam a um reforço do número de empregados nos diferentes sectores.
Considera-se então o trabalho por turnos como sendo a organização das horas de trabalho, utilizando mais do que uma pessoa, ou equipas de pessoas, durante o tempo necessário para garantir o funcionamento de um determinado esquema laboral.
Existe grande diversidade de sistemas de trabalho por turnos e uma das mais mencionadas e de fácil compreensão é descrita por Escribà-Aguir (1992; citado por Neto, 2014). Está dividida por três grandes grupos, nomeadamente sistemas de trabalho por turnos sem trabalho nocturno, com trabalho nocturno e com trabalho nocturno incluindo fins-de-semana.
Outra forma de os classificar e descrita por Scott LaDou (1994, citado por Neto, 2014), é caracterizada consoante o tipo de rotatividade que os turnos apresentam, e que pode ser:
• Fixo ou permanente, em que um indivíduo trabalha todos os dias no mesmo turno, independentemente de ser dia, tarde ou noite;
• Rotativo, em que o indivíduo trabalha em vários turnos e a rotação pode ser:
o Lenta, quando geralmente trabalha no mesmo turno mais de uma semana antes da mudança para outro turno acontecer;
o Semanal, quando a rotação para outro turno leva até uma semana para acontecer;
o Rápida, quando a pessoa não trabalha mais do que três dias no mesmo turno.
Ainda relativamente à rotação, e segundo Harma (1998, citado por Neto, 2014), podem ser classificados consoante os sentidos da rotação.
• Rotação para a frente, ou seja, no sentido horário “Manhã-Tarde-Noite”. Também designada por rotação de “atraso de fase” do ritmo circadiano de sono-vigília, relativamente ao tempo do relógio. É o tipo de rotação que surge com mais frequência;
• Rotação para trás, no sentido anti-horário, ou seja, “Noite-Tarde- Manhã”, é também designada de “avanço de fase”;
• Mistos ou combinados, onde podemos encontrar características dos dois anteriores, p. ex. “Manhã-Tarde-Noite-Tarde”.
O trabalho nocturno é, na sua maioria, associado ao trabalho por turnos e caracterizado como o que é executado durante um período de pelo menos sete horas consecutivas e que inclua o período da meia-noite às cinco horas da manhã. Já o trabalho isolado é uma preocupação recente a nível psicossocial e, sendo já uma preocupação por parte de algumas entidades, é ainda algo com pouca ou nenhuma legislação. Tal como o trabalho por turnos, assistiu-se ao crescimento desta forma de trabalho por causa dos desenvolvimentos tecnológicos, que tendem a reduzir e quase eliminar a componente humana em muitas tarefas. Como exemplos destes, tem-se:
• Trabalhadores agrícolas ou florestais, que desempenhem as suas funções autonomamente, como p. ex. pastores ou condutores de alfaias agrícolas;
• Trabalhadores em empresas de segurança privada;
• Trabalhadores em comércio e serviços, que desempenhem as suas funções sozinhos, como p. ex. portageiros e bombas de combustível; • Serviços de limpeza, se as funções forem executadas autonomamente; • Trabalhadores da saúde, como p. ex. enfermeiros em serviço de turno.
2.2. Enquadramento Legal
Pode-se definir como objetivo deste tipo de organização do trabalho, o de permitir uma continuidade da produção (bens ou serviços), através do recurso a várias equipas (ou indivíduos) as quais laboram no mesmo local, mas com horários diferentes. Esta definição inclui tanto os períodos (turnos) diurnos, como os noturnos. De acordo com a lei portuguesa, o trabalho por turnos e o trabalho nocturno estão definidos no art. 220º e no ponto 1 do art.223º do Código do Trabalho (CT).
Existem ainda outros tipos de enquadramentos legais, nomeadamente a Directiva 2003/88/CE do Parlamento Europeu e Conselho da União Europeia,
relativa a determinados aspectos da organização do tempo de trabalho, e que deliberou e considerou no art.2º da mesma, definições como “Tempo de trabalho”, “Período de descanso”, “Período nocturno”, “Trabalhador nocturno”, “Trabalho por turnos” e “Trabalhador por turnos”
Relativamente ao trabalho isolado, não existe legislação nacional própria sobre o assunto. É reconhecida a problemática da questão não só em Portugal, mas também na Europa havendo já alguns países com estudos desenvolvidos e normas técnicas elaboradas, para referência.
Em Portugal, já existem alguns estudos, palestras e simpósios sobre o tema e ainda alguns artigos publicados em revistas da especialidade.
Em Espanha, a “NTP 344 - Trabajos en situación de aislamiento” é um desses documentos. É uma norma concebida pelo “Instituto Nacional de Seguridad y
Salud en el Trabajo” (INSST) e tida na sua concepção, tal como todas as
restantes “Notas Técnicas de Prevención” (NTP), como um “guia de boas práticas”, não obrigatórias, mas de cariz orientador e até mesmo regulador se uma norma ou decreto, a ela fizer menção.
Em França, o “Institut National de Recherche et de Securité”(INRS), já desde 1988 que alerta e chama a atenção para esta temática, através da produção de brochuras, artigos e estudos mais aprofundados. De especial menção o estudo “Travail isolé – Prévention des risques – Synthése et application” de N. Guillemy e outros autores, ou ainda mais recentemente em 2015, um dossier com várias fichas onde são abordadas questões como a exposição e prevenção específica para estes riscos.
2.3. Situação Actual
A FAP está incumbida de levar a cabo uma série de missões aéreas necessita de manter várias aeronaves e serviços de apoio em prontidão permanente, requerendo uma disponibilidade dos militares durante vinte e quatro horas, 365 dias por ano. A meteorologia é um desses serviços.
A meteorologia está assente numa rede de estações meteorológicas nas Unidades Base (UB). É aí que são efectuadas as observações meteorológicas e, sendo a regularidade e a continuidade na elaboração de tal informação uma premissa, tal implica um funcionamento permanente. Os serviços de meteorologia das unidades funcionam por turnos, os quais sofreram várias mudanças ao longo dos anos, não só consoante as necessidades operacionais foram sendo alteradas, mas também por limitações de quantitativos de pessoal. Nos primeiros tempos, os turnos de trabalho apenas contemplavam o período diurno, nomeadamente do nascer ao pôr do Sol. Actualmente, e por adequação ao nível dos mecanismos de defesa nacional, os turnos de trabalho são executados ao longo de 24 horas. Com esta mudança, surgiu outra realidade, a da execução do trabalho de forma isolada, principalmente durante o horário nocturno.
2.4. Riscos Associados
Segundo Knauth (1993, citado por Neto, 2014) são várias os pontos que têm de ser considerados e avaliados, de forma a determinar as características positivas e negativas de cada uma das escalas de trabalhos por turnos, nomeadamente:
• O horário de início/fim dos turnos e direcção da rotação entre eles; • A regularidade dos horários de trabalho;
• A flexibilidade do sistema de turnos;
• Se são horários a tempo parcial ou a tempo inteiro; • A distribuição do tempo livre ou folgas.
Da mesma forma, existem vantagens e desvantagens e que segundo Henriques C. (2015, citado por Campos, 2014) são:
Tabela 1: Principais vantagens e desvantagens do trabalho por turnos
Vantagens Desvantagens
Proporcionar uma rotina diferente Redução do tempo para a vida social
Ter mais tempo para a família Perturbações no sono Melhores compensações
financeiras Alterações na rotina alimentar Apresentam, de igual forma, alguns riscos e efeitos ao nível físico e mental:
• No ritmo biológico e no sono;
• Na fadiga, no sistema cardiovascular e no aparelho gástrico; • Na vida profissional e social.
Assim, e como forma de mitigar os efeitos negativos, aconselha-se então a: • Alterar as técnicas e métodos do trabalho em si;
• Estabelecer um sistema de vigilância médica que acompanhe os trabalhadores por turnos;
• Reduzir o número de anos de trabalho nocturno continuado, nomeadamente em função da idade;
• Estabelecer os turnos em articulação com os eventuais interessados; • Avaliar riscos decorrentes de iluminação insuficiente ou inadequada; • Reduzir a duração do trabalho nocturno;
• Conceber turnos com respeito pelo ciclo do sono e/ou biológico dos trabalhadores;
• Planificar a calendarização ou plano de turnos a desempenhar;
• Evitar, ou reduzir ao máximo, uma carga de trabalho elevada nos turnos nocturnos;
• Criar alternativas ao trabalho nocturno permanente; • Promover rotações de turnos entre os trabalhadores; • Evitar sequências de trabalho demasiado alongadas; • Melhorar a distribuição da carga de trabalho;
• Aumentar as pausas;
• Manter uma alimentação o mais regular e equilibrada; • Evitar a ingestão de álcool e cafeína;
• Tentar dormir, pelo menos, um período entre 7 a 8 horas;
• Desligar, ou manter afastado, o telefone ou telemóvel durante os períodos de descanso e
• Dormir um pouco antes de iniciar o turno, por forma a evitar situações de sonolência.
2.5. Hipótese para Análise
Como já referido, a questão de saber se o trabalho por turnos afecta a vida destes militares é colocada recorrentemente por eles próprios, e eles sabem que, de alguma forma, a irregularidade de horários os afectam. Mas, de que forma e em que medida? São frequentes queixas de fadiga, palpitações, enxaquecas, azias, gastrites, desordens do sono e outras. Poderão ser simples mal-disposições passageiras? Poderá ser uma má adaptação do seu ciclo circadiano ao trabalho por turnos? Ou poderá ser revelador de algo diferente e mais complexo? O que a maioria dos militares envolvidos nestes turnos não sabem é que os sintomas que eles descrevem são os mesmos que são atribuídos à “Síndrome de Mal-adaptação ao trabalho em turnos”.
Segundo Moore-Ede, Krieger & Darligton (1987, citados por Neto, 2014) a Síndrome é algo mais complexo do que a simples alteração dos ritmos circadianos (ou biológicos) e podendo apresentar sintomas agudos (no primeiro mês) ou sintomas crónicos (a partir dos 5 anos). Por tudo o que atrás foi descrito, há ainda que ter em conta alguns factores de risco indissociáveis de cada individuo como por exemplo a idade, o socializar com familiares e amigos com diferentes rotinas, baixa tolerância individual à ruptura do ritmo circadiano, desordens do sono, asma, diabetes, doença arterial coronária, desordens psiquiátricas, epilepsia e desordens gastrointestinais (Scott & LaDou, 1994; citados por Neto, 2014).
Assim, e na tentativa de se encontrar uma resposta a essas questões ou até mesmo de tentar estabelecer novas relações causa-efeito no caso do trabalho isolado, procurou-se determinar em que medida o trabalho por turnos e nocturno, associado ao trabalho isolado, influenciam a sua saúde.