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3. A PRESENÇA DO ENSINO RELIGIOSO NAS CONSTITUIÇÕES DO BRASIL E NA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA

3.6 Ensino Religioso nas Constituições de 1937 e

As Constituições de 1937 e de 1946 encontram-se inseridas em um novo contexto no qual a relação entre Igreja e Estado sofre novas alterações. Isso se dá em função de, em 1937, Getúlio Vargas ter implantado a ditadura por meio de um Golpe de Estado. O novo regime ficou conhecido como Estado Novo (1937-1945). O pretexto utilizado foi que o país vivia na iminência de uma guerra civil em meio ao confronto existente entre esquerda e direita (BULOS, 2002, p.26).

A Constituição de 1937 foi outorgada em 10 de novembro de 1937, e estabeleceu como “autoridade suprema do Estado” o presidente da República. Ele passou a ter absoluta imunidade penal no período que compreendesse o exercício de suas funções, contando também com a prerrogativa de influenciar diretamente nas decisões judiciais por meio do poder discricionário que lhe foi atribuído (IBIDEM, p.28).

A tendência liberal que havia marcado a segunda República foi substituída pelo autoritarismo. Com relação à educação, a preocupação era a de colocar o ensino a serviço do Governo no sentido de convertê-la em instrumento para a ideologia do novo regime, bem como combater a subversão e ainda a buscar soluções para o campo social (CAETANO, 2007, p. 60).

Modificando a Carta de 1934, a Constituição de 1937 preteriu a educação, que passou a ser de direito natural e dever da família, portanto ao Estado caberia função subsidiária, conforme o artigo 125 (BRASIL, 1937, p.84). Apesar de manter a gratuidade do ensino primário, essa constituição estabeleceu no artigo 130 uma contribuição mensal para a caixa escolar, isentando apenas aqueles que pudessem alegar escassez de recursos (BRASIL, 1937, p.87).

O Ensino Religioso foi mantido no texto dessa nova constituição, muito embora não gozasse mais das mesmas prerrogativas anteriores, constantes de Carta de 1934. O que muda é que o Ensino Religioso passa a não ser disciplina obrigatória nos currículos escolares, deixou de ser um direito e passou a ser encarado como uma concessão que dependeria do arbítrio do Governo, conforme o artigo 133:

Art. 133º - O ensino religioso poderá ser contemplado como matéria do curso ordinário das escolas primárias, normais e secundárias. Não poderá, porém, constituir objeto de obrigação dos mestres ou professores, nem de frequência compulsória por parte dos alunos (BRASIL, 1937, p. 88).

Entre os anos 1942 e 1946, ocorrem mudanças no âmbito educacional através das denominadas Leis Orgânicas veiculadas por meio de decretos-lei. Essas mudanças ficaram conhecidas como Reforma Capanema, em alusão ao Ministro da Educação do Governo de Getúlio Vargas, Gustavo Capanema. No total, foram editados seis decretos-lei conforme se pode observar a seguir: Decreto-lei Nº. 4244/42, referente ao ensino secundário, Decreto-lei Nº. 4073/42, referente ao ensino industrial, Decreto-lei Nº. 6141/43, referente ao ensino comercial, Decreto-lei Nº. 8529/46, referente ao ensino primário, Decreto-lei Nº. 8530/46, referente ao ensino normal e, finalmente, o Decreto-lei Nº. 9613/46 para o ensino agrícola (DANTAS, 2002, p 50).

A política educacional adotada foi marcadamente capitalista, voltada para a preparação de maior contingente de mão-de-obra destinada a funções mercantilistas. Sob influência dos modelos adotados na Alemanha e Itália, de ideologia nazifascista, buscou-se um tipo de educação que exaltava a nacionalidade, criticava o liberalismo e valorizava o ensino profissional e a formação militar. A educação era vista como fórmula para resolver todos os problemas nacionais (IBIDEM, p 51).

Em função do Pacto Moral, o Ensino Religioso foi contemplado na educação desse período como concessão do Estado à Igreja Católica. Tendo em vista que, a partir da ótica do governo, o domínio religioso deveria limitar-se à pregação que levasse os fiéis à obediência à lei, à disciplina e à ordem; assim a instrução Religiosa deveria ter como finalidade elevar o poder nacional, segundo o projeto do Estado Novo (CAETANO, 2007, 62-63). Nesse sentido, a postura da Igreja foi orientar o Ensino Religioso em uma concepção moralista da religião baseada em uma visão triunfalista do catolicismo.

Nesse sentido, em 1942, Dom Jaime Barros Câmara elaborou os programas e instruções metodológicas para o Ensino Religioso. Segundo Caetano (2007), a finalidade de tal proposta era de formar cristãos por meio de uma proposta na qual se destacavam estudos sobre a verdade da fé, da moral cristã, o culto e os sacramentos com a apresentação ao final do curso ginasial, isso tudo em conformidade com a posição da Igreja em face dos problemas econômicos, estéticos, científicos, políticos, sociais e religiosos (IBIDEM, p. 64). Esse programa tinha cunho apologético, sintonizado com a ofensiva católica contra os protestantes e espíritas, como se pode perceber no trecho a seguir:

Os programas de ER no curso secundário foram elaborados ainda em 1942 e encaminhados ao Ministro da Educação pelo Arcebispo do Rio de Janeiro, dom Jaime de Barros Câmara, a fim de serem orientados segundo a visão eclesiástica. Procurando seguir normas estabelecidas pelo Ministério, o documento apresenta, junto com os programas, as instruções metodológicas para sua execução, explicita-se que a finalidade do curso de religião é formar o cristão. Entre os conteúdos propostos estão: as principais verdades da fé, a moral cristã, o culto e os sacramentos. Ao final do curso ginasial, a Igreja Católica seria apresentada aos alunos como a grande vencedora de todos os obstáculos erguidos contra ela no correr dos tempos (JUNQUEIRA; CORRÊA; HOLANDA, 2007, p. 25).

Depois do fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), ocorreram mudanças significativas mundo afora. O clima era de construção de governos populares com ênfase na democracia; e também há o surgimento da guerra fria protagonizada por Estados Unidos e União soviética. Essas mudanças tiveram ressonância no Brasil por meio da industrialização influenciada pelos Estados Unidos e também por meio do clima de redemocratização que penetra no país após

o fim do Estado Novo com a deposição de Getúlio Vargas em 29 de outubro de 1945 por um movimento militar composto por generais de seu próprio ministério, e a eleição do Marechal Eurico Gaspar Dutra como Presidente da República. Em 18 de setembro, é promulgada a Constituição de 1946, que, dentre outras coisas, além de restringir a hipertrofia do Poder Executivo e restaurar a figura do Vice-presidente, introduz um novo título que dizia respeito à família, à educação e à cultura (BULOS, 2002, p. 28-29).

A Constituição de 1946 foi promulgada em 18 de agosto, caracterizada pelo espírito liberal e democrático que fez sentir no campo da educação, novos ideais com a reintrodução de princípios que tinham sido suprimidos na Carta anterior de 1937, como: a educação como direito de todos, obrigatoriedade da escola primária e a gratuidade do ensino oficial para todos, bem como assistência aos estudantes por motivo de insuficiência de meios. Essa Constituição, no entanto, não comprometeu a continuidade dos princípios defendidos pela ideologia católica (CAETANO, 2007, p.66).

Conforme o Artigo 5º, item XV, letra d, ficou definido que à União caberia a responsabilidade de legislar e fornecer as diretrizes da educação nacional. De acordo com o Artigo 31º, incisos II e III, estabeleceu-se uma nova forma de relação entre Estado e Igreja:

Art 31 - A União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios é vedado:

I - criar distinções entre brasileiros ou preferências em favor de uns contra outros Estados ou Municípios;

II - estabelecer ou subvencionar cultos religiosos, ou embaraçar-lhes o exercício;

III - ter relação de aliança ou dependência com qualquer culto ou igreja, sem prejuízo da colaboração recíproca em prol do interesse coletivo (BRASIL, 1946).

Essa nova relação entre Estado e Igreja reflete-se no Artigo 141, nos parágrafos 7,8 e 10, quando trata da liberdade de consciência de culto:

Art 141 - A Constituição assegura aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade dos direitos concernentes à vida, à liberdade, à segurança individual e à propriedade, nos termos seguintes:

... § 7º - É inviolável a liberdade de consciência e de crença e assegurado o livre exercício dos cultos religiosos, salvo o dos que contrariem a ordem pública ou os bons costumes. As associações religiosas adquirirão personalidade jurídica na formada lei civil.

§ 8º - Por motivo de convicção religiosa, filosófica ou política, ninguém será privado de nenhum dos seus direitos, salvo se a invocar para se eximir de obrigação, encargo ou serviços impostos pela lei aos brasileiros em geral, ou recusar os que ela estabelecer em substituição daqueles deveres, a fim de atender escusa de consciência.

§ 10 - Os cemitérios terão caráter secular e serão administrados pela autoridade municipal. É permitido a todas as confissões religiosas praticar neles os seus ritos. As associações religiosas poderão, na forma da lei, manter cemitérios particulares (BRASIL, 1946).

A compreensão de liberdade religiosa e de consciência ficou assegurada no Artigo 168, inciso V, da Constituição de 1946, que manteve o Ensino Religioso como oferta obrigatória, porém com a opção de ser ministrado de acordo com a confissão religiosa dos alunos. “... o ensino religioso constitui disciplina dos horários das escolas oficiais, é de matrícula facultativa e será ministrado de acordo com a confissão religiosa do aluno, manifestada por ele, se for capaz, ou pelo seu representante legal ou responsável” (BRASIL, 1946).

Deve-se notar que, ao permitir que o Ensino Religioso fosse dado de acordo com a confissão do aluno, abriu-se espaço para que outras tradições religiosas fossem contempladas, todavia, a Igreja continuou dando as diretrizes:

Por trás do enunciado percebe-se a influência da Igreja Católica, a manter, sempre, a mesma posição, quanto ao tratamento de natureza confessional a ser dado ao Ensino Religioso Escolar. O fio condutor continua ligado à encíclica Divini Illius Magistri, onde a educação é concebida como sendo da competência da Igreja e da família e, subsidiariamente, garantida pelo Estado (FIGUEIREDO, 1996, p. 60).

A partir de 1945, ela veio ampliar seu leque de atuação com a reestruturação da Ação Católica no Brasil (ACB) e com a sua organização interna através da criação da Associação dos Educadores Católicos (AEC) em 1945 e da Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) em 1952.

Entre os anos 1956 e 1958, assiste-se no país a novas disputas que envolvem os representantes da Escola Nova e os defensores da Ideologia católica. O debate se deu em torno da questão da escola pública e democrática e também da questão da subvenção por parte do governo de escolas particulares. Consequentemente, o Ensino Religioso esteve presente nas discussões, sofrendo duras críticas por parte dos escolanovistas14. Vale lembrar que esse debate se situa justamente no período que antecede a primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), promulgada em 196115.

A partir de então, novos desafios serão enfrentados pelo Ensino Religioso. Os mesmos dizem respeito ao fato de a escola, a partir de 1965, passar por uma crise que permitirá a ela descobrir-se como instituição autônoma, regida por princípios e objetivos próprios. Por outro lado, há também a manifestação do pluralismo religioso de maneira mais evidente. Em outras palavras, nesse período, a escola perde seu caráter catequético, à qual o Ensino Religioso, enquanto ensino de religião, havia estado ligado até então. A partir disso, a abordagem realizada no tópico posterior procura apresentar o percurso do Ensino Religioso durante a outorga e promulgação das Cartas Magnas de 1967 e 1988, que envolveram questões referentes a mudanças na relação da Igreja Católica com o Estado e com outras religiões. Leva-se em consideração também o contexto em que se elaborou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1971, a repressão do Governo instaurado por meio do golpe militar de 1964, as mudanças ocorridas no Ensino Religioso e, também, o surgimento dos textos legais das modalidades confessional e interconfessional.

14 O termo escolanovistas refere-se aos seguidores do movimento Escola Nova, que tem suas origens

na década de 1920, vindo a alcançar grande repercussão na década seguinte. Dentre outras coisas, esse movimento defendia a universalização da escola pública, laica e gratuita. Os escolanovistas protagonizaram embates contra os defensores do Ensino Religioso, sobretudo a partir de questões relativas à laicidade e à escola pública, uma vez que militavam contra qualquer subvenção por parte do Estado a escolas convencionais particulares e em favor da retirada do Ensino Religioso da escola pública.