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entre a monarquia e a república – o caso Araripe

Um ano antes da publicação da segunda edição revista e ampliada da

monumental História Geral do Brasil, de Francisco Adolfo de Varnhagen, o

conselheiro Tristão de Alencar Araripe, pronunciava, em 1876, no Rio de Janeiro, a conferência intitulada: Como Cumpre Escrever a História Pátria.55 Nela ele faz duras críticas a Varnhagen, reproduzidas na versão “republicana” de 1894, sob o título de Indicações sobre a História Nacional.56 Para Araripe, tanto em 1876 como em 1894, Varnhagen, que morrera com o título de Porto Seguro:

55 Trata-se da atividade: Conferências Populares da Freguesia da Glória (Araripe 1876). 56 Araripe 1895a.

Escreveu sem crítica e sem estilo, consumindo largas páginas com fatos somenos, quando deixava nas sombras de ligeiros traços acontecimentos notáveis, dignos de mais desenvolvida notícia. É, porém, autor de grandes serviços de investigação; foi ele quem despertou a necessidade, e mostrou o proveito da pesquisa de antigos documentos em bem da história nacional. Dos arquivos nacionais e europeus desencavou preciosos textos, que formam rica contribuição para os nossos fastos primitivos. Se como investigador de fontes históricas tem mérito, como historiador as suas obras História geral do Brasil e Holandeses no Brasil o não realçam.57

Longe de se tratar de uma crítica original à obra de Varnhagen,58 o comentário reincidente de Araripe interessa-me por outra questão: a da incapacidade de a história, para indivíduos como o conselheiro, cumprir sua principal meta, ou seja, a de narrar a história da nação. Também aqui a desaprovação do conselheiro não é uma novidade, mas um sintoma da discórdia política, intelectual e do tempo do ideário nacional. Discórdia política porque o visconde de Porto Seguro, morto em 1878, e sua “massa ciclópica de materiais que acumulara”, era um monarquista que não teve oportunidade de mudar de posição.59 Discórdia intelectual porque, no mesmo contexto, Machado de Assis, em 1873, referia-se à literatura brasileira como portadora de um certo “instinto de nacionalidade”;60 e José de Alencar, em 1876, afirmava, em tom polêmico, n’O Protesto, que o monopólio da nacionalidade na literatura dividia-se ainda entre o Paço e o Reino.61 Discórdia do tempo, porque os diversos estratos temporais que se concentram no marco cronológico de 1860 ao final do século multiplicam-se, interpenetram-se e exaurem-se de modo mais ou menos acelerado (tempo da nação, tempo Saquarema, tempo da escravidão, esgotamento presente monárquico, ascensão e progressos monárquicos, etc.).

A obra de Varnhagen, nesse sentido, é, realmente, um bom termômetro dos efeitos desta desordem: se, por um lado, a História Geral, mesmo que criticada por muitos, tinha mantido certo grau de influência ao ser convertida em manual escolar no Colégio Pedro II, importante instituição de ensino público do país, a ponto de, em 1890, Capistrano de Abreu afirmar que se via, até àquele momento,

57 Araripe 1895a, 288-89.

58 Sobre o tema, ver Cezar (2007; 2018).

59 A citação é de Capistrano de Abreu em 1882 (Abreu 1928, 441).

60 “Quem examina a atual literatura brasileira reconhece-lhe logo, como primeiro traço, certo instinto de nacionalidade.” (Assis [1873] 1994, 801).

às voltas em intentar “quebrar os quadros de ferro de Varnhagen”,62 por outro lado, suas pesquisas e escritos abundantes não foram suficientes a muitos de seus contemporâneos para suprir a necessidade de a história ensinar o que era a nação e a nacionalidade.

Não é surpreendente, portanto, que Araripe considerasse, em 1894, isto é, em pleno regime republicano, a necessidade de se instruir o historiador sobre o melhor modo de se investigar e de se escrever a história nacional. Por isso, ele inicia seu texto afirmando que somente a história pode responder o que foi e o que é a nação, ou que na “verdade se não tivermos a narração sincera dos acontecimentos e fatos sociais da nossa pátria, como explicaremos o que ela é, e o que pode vir a ser?”.63

Para tanto, a história precisa assumir uma dimensão moral e ser escrita com “critérios”. Quais? Como em Barbosa, meio século antes, eles não são precisos, e Araripe se furta de apresentá-los claramente. Porém, não deve escapar das definições dicionarizadas do século XIX, nas quais critério é, entre outras acepções, definido como a “regra ou princípio de discernir o verdadeiro do falso”, condição da história filosófica desde Voltaire.64 Ao princípio moderno dissimulado (mais adiante ele falará em “examinar com escrupulosa diligência a verdade”),65 o autor associa a clássica definição da historia magistra vitae: “ninguém duvida da utilidade da história, a quem um ilustre escritor antigo denominou luz da verdade e mestra da vida”.66 Logo, apesar de “um meio instrutivo do povo”, ela é “ciência” e não “mero deleite e recreação”.67 Deve ser escrita, portanto, de modo a

premiar o mérito dos benfeitores do gênero humano, aos quais a prudência dos séculos denomina heróis, e exercitar novos estímulos de imitação dos grandes modelos de patriotismo, desse sentimento sublimado e generoso que dignifica o homem ante a própria consciência, e infunde-lhe valor para as mais altas empresas, que pode o cidadão cometer. . . . O escritor brasileiro, pois, que pretender escrever a história da nossa pátria, terá em consideração desenhar a figura respeitável dos nossos homens beneméritos, de maneira que excitem em nossos corações o amor para com as suas venerandas sombras,

62 Rodrigues 1954-1956, 130. 63 Araripe 1895a, 259-60. 64 Silva 1789, 349. 65 Araripe 1895a, 263. 66 Araripe 1895a, 263. 67 Araripe 1895a, 262-63.

e persuadam-nos quanto é doce a recompensa da virtude pela gratidão da posteridade. Para isso cumpre examinar com escrupulosa diligência a verdade, e não desprezar fatos expressivos do caráter do patriota, que se consagrou ao bem do seu país.68

A chave, mais uma vez, para se entender o funcionamento da história como mestra da vida é a imitação. O dispositivo mimético deve pautar os grandes princípios que generalizam comportamentos e retiram a história da medida individual, paradoxalmente, a partir do gesto pessoal: “Se o pintarmos com perfeição, e se ao retrato dermos os traços característicos do verdadeiro herói, oferecendo à imaginação do leitor as feições íntimas da alma do homem egrégio, teremos exibido modelos capazes de excitar os mais santos desejos de imitação.”69 Não interessa mais o que Alcebíades fez ou não fez, mas o que os vários Alcebíades fizeram na construção da nação.70 Dessa maneira, quando “contrapostos os tipos morais do caráter antigo e do caráter moderno dos povos, reconheceremos a razão, porque a história antiga individualiza-se, quando a história moderna generaliza-se”.71 O modelo provém, como em Januário da Cunha Barbosa, de Plutarco:

Este biógrafo dos grandes varões gregos e romanos dá-nos com pincel magistral o retrato de seus heróis por tal forma delineados, que impossível é ao leitor não achar aí uma escola de moral e patriotismo, que enobrece o coração, e enche da inabalável convicção, de que a pátria é entidade real, à qual devemos sacrifícios, e não artificiosa invenção para

egoísticas especulações.72

O historiador brasileiro deve “pintar” como Plutarco, porém não apenas o herói guerreiro – “erro fatal, que não deve perdurar na opinião moderna”73 –, mas aquele que contribuiu para a paz: menos Alexandre, Júlio César e Napoleão e mais George Washington, “o tipo verdadeiro do herói”.74 Na nota complementar às Indicações, o autor acrescenta (como se houvera esquecido!), oportunamente, os heróis republicanos, os marechais Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto,

68 Araripe 1895a, 263. 69 Araripe 1895a, 264. 70 Arist. Pol. 1451b.36. 71 Araripe 1895a, 264. 72 Araripe 1895a, 273-74. 73 Araripe 1895a, 274. 74 Araripe 1895a, 278.

exemplos de virtude cívica e abnegação.75 Desse modo, o historiador cumpriria com a meta de “sugerir a instrução nacional pelo doutrinamento da história”, essa verdadeira ciência moral.76

Em consequência, para Araripe, o “escritor nacional” deveria perceber com nitidez que os modernos superam os antigos:

os historiadores antigos escreviam a história dos reis; os historiadores modernos ocupam-se com a história dos povos; os escritores antigos celebravam as devastações e os morticínios; os escritores modernos aplaudem as conquistas da indústria, a confraternidade dos povos, e o triunfo dos bons costumes. Os antigos escritores finalmente seguiam o estrépito das façanhas e o seu brilho exterior, com desprezo do sentimento moral, que constitui o verdadeiro elemento da história moderna77.

A superioridade dos modernos é teórica, metodológica e moral, exceto pelo princípio orientador e normatizador da história: o topos historia magistra vitae. Parece que à procura pelo novo – a ordem do progresso inexorável ou a crença na evolução da natureza humana –, corresponde a ressurgência de passados que substituam a ineficácia das palavras definidoras da ideia de história. Se os modernos são melhores do que os antigos, a história como saber acumulado continua sendo o remédio à ansiedade da dúvida do futuro aberto.

Historia magistra vitae: