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4 PALAVRAS IMPLICADAS NO GESTO METODOLÓGICO QUE

4.3 Entre e desejo da conversa e a possibilidade da entrevista

“Numa reunião de orientação coletiva, hoje, de repente, sou premiada com a generosidade do insight da Leidiane... Ela sugeriu que o Tarcísio na minha pesquisa seria

como a Rosa no filme “O fim e o princípio” de Eduardo Coutinho (2005). Juntos poderíamos fazer, também, um “mapa” de alguns personagens, que poderiam nos proporcionar suas histórias e ele iria me guiar nessa pesquisa” (Trecho de Diário de campo).

Carlos Skliar diz, em algum lugar, que educar é “conversar entre desconhecidos” e essa frase materializa, de certa forma, o que era planejado e desejado para os encontros com os sujeitos desta pesquisa. A conceitualização da mesma vem da leitura da obra de Deleuze (1998) e de Eduardo Coutinho, por estes diferenciá-las de depoimentos e entrevistas.

Encontramo-nos e tentamos conversar: sujeitos surdos, pesquisadora, intérprete de LIBRAS, colaboradores, que fotografam e filmam... Um mundo de gentes, tentando essa conversa. Mas, afinal de contas, o que seria uma conversa? Qual é a sua finalidade? O que buscamos com ela? Produzir interrogações? Para que essa pesquisa fosse possível, a escolha metodológica das conversas foi e é fundamental, porém ao repensar meus encontros, o que aconteceu foi a entrevista.

Segundo Coutinho (2008), o depoimento estaria mais ligado à História e envolve pessoas, de alguma forma consideradas relevantes; já a entrevista teria um formato, uma forma mais padronizada, e passos e estudos de como fazê-la. A conversa seria diferente:

[...] no que eu faço, eu que nunca pensei que entrevisto pessoas, eu tento estabelecer um troço que se diferencia por ser a conversa, porque a entrevista, primeiro lugar, acaba tendo um caráter diretivo mais claro, entende? A entrevista não exige mil lances, que haja um envolvimento afetivo dos dois lados, enfim... Como você vai tematizar isso? Você não tem imagem. No jornal, abre aspas, a mulher me xingou, depois me falou o seguinte, abre aspas... Pode ser tudo mentira. Cinema tem essa coisa extraordinária, que é uma desgraça e uma grandeza, que é esse momento do encontro (BRAGANÇA, 2008, p. 105).

Neste sentido, o que se procura fazer não são entrevistas, “são conversas” nas quais o mais importante é o encontro com o outro, diferente de nós. A aposta se dá nesse encontro com o desconhecido. A conversa pode ter afeto, é uma colaboração, cheia de acasos e surpresas. De tensões. Na conversa, não sabemos se vamos encontrar o que estamos procurando. O resultado final não é certo, ele é construído, composto.

Para Deleuze e Parnet explicar a conversa é tarefa difícil:

É difícil "se explicar" – uma entrevista, um diálogo, uma conversa. A maior parte do tempo, quando me colocam uma questão, mesmo que ela me interesse, percebo que não tenho estritamente nada a dizer. As questões são fabricadas, como outra coisa qualquer. Se não deixam que você fabrique suas questões, com elementos vindos de toda parte, de qualquer lugar, se as colocam a você, não tem muito o que dizer. A arte de construir um problema é muito importante: inventa-se um problema, uma posição de problema, antes de se encontrar a solução (1998, p. 9).

Aqui, podemos ver a importância de não fabricar um problema previamente, de se deixar pensar a respeito e, principalmente, deixar o outro a vontade de dizer o que ele pode e quer dizer. Ir desenhando entre os sujeitos um caminho de possibilidades para que tanto quem pergunta quanto quem responde possam coexistir.

Porém, para poder efetivamente trabalhar juntos, é necessária a existência de um fundo comum implícito, a disponibilidade de colaborar. Colaborar não é consensuar. Essa abertura a colaborar, a trocar, é o que movimenta, até mesmo, as conversas mais insignificantes.

Mas, além da colaboração, existe a diferença de posições na conversa, o que dá abertura a discordâncias, novos rumos e questionamentos. Como Eduardo Coutinho diz na entrevista “Os dois lados da câmera”: “A partir da diferença bem estabelecida –entre os dois lados da câmera – pode haver uma igualdade temporária e utópica” (FILÉ, p. 3). É na afirmação da diferença que está a possibilidade do encontro, da conversa. Num acordo, que viabiliza as perguntas, os questionamentos e as imprevisibilidades da pesquisa e da vida.

Para constituirmos e compormos uma pesquisa, vamos conversando não só com o outro, mas também com nós mesmos. Desta forma, não só as conversas, como nós mesmos, somos atravessados por diversas forças.

Fotografia 4 - Encontro com os surdos

Fonte: A autora.

Desejava conversar... acabei produzindo entrevistas.

A princípio, eu desejava trabalhar com conversas, mas como se conversa? E melhor como se conversa em outra língua? Porém, após a qualificação e ao repensar o que já tinha feito, podemos ver que eu entrevistei e não propus uma conversa. Conversar implica entrar em um lugar, que não se conhece e não se sabe no que vai dar. Os breves momentos de “perda da linha” nas entrevistas são fruto da irrupção dos surdos, quando um queria falar na hora que o outro estava gravando, nas lembranças descompassadas, nas fugas do assunto, principalmente do Tarcísio.

Todas as entrevistas têm as mesmas perguntas, um começo, meio e fim iguais. Em todas as vezes, comecei perguntando sobre como foi sua trajetória escolar. Para gravar, pedia que eles se apresentassem antes e, quando isso não acontecia, fazíamos de novo, em busca de um formato que acabava “os colocando numa forma”. E partiam deles os momentos de fuga dessa entrevista – onde eu queria coletar dados, saber quando eles estudaram em cada escola – e eles queriam falar da prefeita, que entrou, do corpo de bombeiros...

“Aí a coordenação mudou e fiquei com medo da prefeitura, mas consegui um novo contrato. (Ludmila interfere e fala que não precisa falar isso, porque ele começa a explicar que a prefeita mudou e pensou que ele não ia continuar) aí continuou o curso, mas com a coordenação de Mauricéia e fiquei feliz continuando com meu trabalho hoje com Ludmila, eu também sou professor.” - “(ele já começa a contar a sua história e a intérprete Ludmila pede pra ele se apresentar)” (trechos de entrevistas).

Uma conversa cheia de intenções, e já estruturada previamente, é, na verdade, uma entrevista. Só me dei conta bem depois. Na verdade, queria uma pergunta apenas para disparar a conversa, pedindo para que eles me contassem como foi sua vida escolar e dali a conversa ia se encaminhar por onde eles levassem. Mas, na minha impossibilidade de troca direta – o uso da intérprete – e a ansiedade para conseguir responder as perguntas, que me levariam ao caminho da pesquisa, forçavam minha intervenção e volta aos temas que eram do meu interesse.

Diversas vezes, perguntei qual escola eles preferiam, de vários jeitos, até que eu e a intérprete tivéssemos a certeza, que eles haviam entendido a questão e que a resposta era satisfatória. O que foi planejado esbarrou nas minhas impossibilidades.

Portanto, podemos dizer que conversar para essa empreitada, a princípio, seria a forma que encontramos para pensar nos encontros com o outro. Mas ao me deparar com esse outro ao invés de afirmar suas diferenças, tentei as apagar, procurando respostas corretas. Os momentos de escape: as experiências cheias de singularidade e personalidade me foram

presenteados pelos próprios surdos em colocações inesperadas. No lugar daquela minha racionalidade, que buscava amarrar as entrevistas a uma estrutura lógica e cronológica, que categorizava e organizava o que era necessário para que a conversa acontecesse, ficou perdido.

Mesmo sem conversar, buscamos nesses encontros a troca, palavra que está tão presente e é tão fundamental para os sujeitos dessa pesquisa. Nessa troca, ficamos atentos aos pequenos gestos, que fazem ver as pistas, que nos permitem pensar outras histórias possíveis da educação de surdos de Rio Bonito.

Nem sempre na pesquisa o que queremos está no campo das possibilidades. Nesse sentido, podemos perceber que a conversa é mais cara do que foi pensado a priori. Expondo aqui o abismo, entre o que foi pensado e o que foi possível se fazer na pesquisa, pretendo experienciar o processo e dar a ver também que ela não é feita somente daquilo que dá certo ou, pelo menos, não só disso.