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Entre o esplendor da verdade e o platonismo

27. Por conseguinte lancei-me avidamente sobre o venerável estilo (da Sagrada Escritura), ditada pelo vosso Espírito, preferindo, entre outros autores, o Apóstolo São Paulo. Desvanece-ram-se-me aquelas objeções segundo as quais algumas vezes me pareceu haver contradição na Bíblia e incongruência entre o texto dos seus discursos e os testemunhos da Lei e dos Profetas. Compreendi o aspecto único daqueles castos escritos, e "aprendi a alegrar-me com tremor280". Comecei a lê-los e notei que tudo o que de verdadeiro tinha lido nos livros dos platônicos se encontrava naqueles, mas com esta recomendação da vossa graça: que aquele que vê não se glorie como se não tivesse recebido não somente o que vê mas também a possibilidade de ver281. "Com efeito, que coisa tem ele que não tenha recebido282?" E Vós, que sois sempre o mesmo, não só o admoestais para que Vos veja, mas também para que se cure a fim de Vos possuir.

Aquele que não pode ver de longe, percorra, contudo, o caminho por onde possa vir a contemplar-Vos e a possuir-Vos. Efetivamente, ainda que o homem se deleite na "lei de Deus, segundo o homem interior", que fará ele "perante a outra lei dos seus membros, que recalcitra contra a lei do seu espírito e o cativa na lei do pecado, escrita nos seus membros283"? "Por isso, Vós, Senhor, sois justo; nós, porém, pecamos, cometemos iniqüidade; procedemos impiamente, e a vossa mão pesou sobre nós284." Justamente fomos entregues ao pecador antigo, ao príncipe da morte, pois persuadia a nossa vontade a conformar-se com a sua, "que não permaneceu na vossa verdade285".

Que fará o infeliz homem? "Quem o livrará deste corpo de morte, senão a vossa graça por Jesus Cristo Nosso Senhor286", que Vós gerastes coeterno e criastes no princípio de vossos caminhos, ao qual "o príncipe deste mundo287", apesar de o não

280Sl 2, 11. 2811 Cor 4,7. 2821 Cor 4,7. 283Rom 7, 22. 284Dan 3, 27; Sl 31, 4. 285Jo 8, 44. 286Rom 7, 24. 287Jo 14,30.

encontrar em nada merecedor de morte, o matou? "Foi assim anulado o libelo que nos era contrário288."

Ora, isto não o dizem os livros platônicos. Suas páginas não encerram a fisionomia daquela piedade, nem as lágrimas da compunção, nem "o vosso sacrifício nem o espírito compungido, nem o coração contrito e humilhado289", nem a salvação do povo, nem a cidade desposada290, nem o penhor do Espírito Santo, nem o cálice do nosso resgate291. Lá ninguém canta: Porventura a minha alma não há de estar sujeita a Deus? "Depende d'Ele a minha salvação, porquanto Ele é o meu Deus e Salvador. Ele me recebe e d'Ele não me apartarei mais292."

Nos livros platônicos ninguém ouve Aquele que exclama: "Vinde a Mim, vós, os que trabalhais". Desdenham em aprender d'Ele, que é manso e humilde de coração. "Escondestes estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelastes aos humildes293."

Uma coisa é ver dum píncaro arborizado a pátria da paz e não encontrar o caminho para ela, gastando esforços vãos por vias inacessíveis, entre os ataques e insídias dos desertores fugitivos com o seu chefe Leão e Dragão294; e outra coisa é alcançar o caminho que para lá conduz, defendido pelos cuidados do general celeste, onde os que desertaram da milícia do paraíso não podem roubar, pois o evitam como um suplício295.

Estas coisas penetraram-me até às entranhas, por modos admiráveis, ao ler (São Paulo) "o mínimo dos vossos Apóstolos296". E enchia-me de espanto, considerando as vossas obras. . . 288Col 2, 14. 289Sl 50, 19. 290Apc 21, 2. 2912 Cor 5, 5. 292Sl 61, 2, 3. 293Mt 11,28; 11,25. 294Sl 90, 13.

295Nesta passagem parece ter-se inspirado Santo Inácio de Loiola para elaborar a meditação das Duas Bandeiras. (N. do T.) 2961 Cor 15, 9.

LIVRO VIII

A CONVERSÃO

I — Simpliciano. A conversão de Vitorino , suas dificuldades e alegrias (1-4). II — A luta na conversão: As duas vontades. . . A exposição de Ponticiano (5-7). III — A conversão de Santo Agostinho, de Alípio e a alegria de Santa Mônica(8-12).

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"A pérola preciosa"

1. Fazei, ó meu Deus, que eu recorde e confesse, em ação de graças, as vossas misericórdias para comigo! Permiti que os meus ossos se penetrem do vosso amor e digam: "Senhor, quem é semelhante a Vós?297 " Rompestes os meus grilhões e "ofertar- Vos-ei um sacrifício de louvor298". Narrarei como os rompestes, e todos os que Vos adoram exclamarão: "Bendito seja o Senhor no céu e na terra; o seu nome é grande e admirável299".

As vossas palavras tinham-se gravado no íntimo do meu coração. Vós cercáveis- me de todos os lados. Tinha a certeza de que a vossa vida era eterna, apesar de só a ter visto "em enigma e como num espelho300". Toda a dúvida sobre a substância incorruptível me fora resolvida, ao ver que dela provém toda a substância. Desejava. . . não digo estar mais certo de Vós, mas mais firme em Vós. Tudo vacilava, porém, na minha vida temporal, e o meu coração precisava ser limpo do antigo fermento301. O verdadeiro caminho, que é o Salvador, encantava-me, mas ainda me repugnava enveredar por seus estreitos desfiladeiros.

Inspirastes-me então a idéia — que, no meu conceito, julguei boa — de ir falar com Simpliciano302, que eu tinha por um bom servo vosso e em quem brilhava a vossa graça. Ouvira dizer, além disso, que desde a juventude vivia devotadamente para Vós.

297Sl 34, 10. 298Sl 115, 16. 299Sl 75, 2. 3001 Cor 13, 12. 3011 Cor 5, 7.

Com efeito, já envelhecera, e, em tão longa idade, seguira sempre, com zelo ardente, o vosso caminho. Devia ser um homem muito experimentado e instruído. Assim era, na verdade. Queria, por isso, falar com ele das minhas inquietações, para que me descobrisse o modo de uma alma agitada como a minha adiantar no vosso caminho.

2. Via cheia a Igreja. Uns caminhavam duma maneira, outros doutra. Desagradava- me a vida que levava no mundo. Era para mim de grande peso, agora que as paixões e a esperança de honras e dinheiro já me não animavam, como de ordinário, a sofrer tão pesada servidão. Sim, tudo isso já me não deleitava, em vista da vossa doçura e da beleza da vossa casa, que amei. Mas ainda estava tenazmente ligado à mulher. É certo que o Apóstolo303 não me proibia casar, não obstante exortar-me a um estado melhor, porque queria ardentemente que todos os homens fossem como ele. Eu, porém, demasiado fraco, escolhia o lugar mais aprazível. Era só por isso que vivia de hesitações em tudo o mais, lânguido e enfermo por causa das preocupações enervantes, porque, parecendo coagido a entregar-me à vida conjugai, via-me também obrigado a incumbir-me de novas obrigações que não queria suportar.

Ouvira, da boca da Verdade, que "existiam eunucos que a si próprios se mutilaram por amor do reino dos céus". Mas Ela acrescenta: "quem pode compreender, compreenda304". "São vãos, por certo, todos os homens em quem se não acha a ciência de Deus, e que, pelos bens visíveis, não chegaram a conhecer Aquele que é305." Mas já não me encontrava naquela vaidade. Ultrapassara-a, e, pelo testemunho de todas as criaturas, ó Criador nosso, encontrara-Vos, a Vós e ao vosso Verbo, que, juntamente convosco, é Deus, um só Deus, por quem tudo criastes.

Há outra espécie de ímpios, que, "tendo conhecido a Deus, não o glorificaram nem lhe renderam graças306".

Tinha também caído neste pecado. "A vossa destra, porém, amparou-me307", e, depois de me arrancardes de lá, colocastes-me onde me restabelecesse, dizendo ao homem: "a piedade é sabedoria308"; "não queirais parecer sábios, porque os que se dizem

303São Paulo. (N. do T.) 304Mt 19, 12. 305Sab 13, 1. 306Rom 1, 21. 307Sl 17,36. 308Jó 28, 28.

sábios tornam-se insensatos309". Já encontrara a "pérola preciosa310" que devia comprar, depois de vender tudo o que possuía. Mas duvidava ainda.

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