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Ao final da entrevista, uma das atletas deixou uma mensagem final às crianças, fazendo um apelo à prática esportiva como forma de ascensão social. O fato, num primeiro momento, repercutiu positivamente entre as professoras, especialmente entre as professoras que não participaram da primeira etapa da pesquisa, ou seja, do curso de formação contínua. Assim, a mensagem final deixada pelos atletas foi reforçada pelas professoras participantes da interlocução sem maiores reflexões, o que foi avaliado posteriormente. Na avaliação da atividade, as professoras refletiram sobre o conteúdo do discurso dos atletas. Perceberam que, em certa medida, a fala dos reproduzia os discursos midiáticos a respeito do esporte, que é tomado muitas vezes como redentor para todos os problemas sociais atuais. E avaliaram que esse discurso é extremamente romantizado, descontextualizado e simplificador da realidade.

Essa reflexão foi de extrema relevância, pois colocou em debate a dimensão do objeto de estudo presente na mídia-educação. Agora as crianças poderiam refletir sobre os conteúdos que elas próprias haviam produzido, enquanto que antes, devido à ênfase nos aspectos técnicos do trabalho, não se evidenciava a necessidade dessa reflexão.

Após a realização da entrevista, as turmas T1 e T2 dedicaram-se à finalização de seus informativos. A T1, na primeira semana de setembro, realizou a edição final do jornal impresso junto com a Profª. B, enquanto a T2 ainda terminava a captura de imagens para o telejornal. A produção do telejornal exigiu um pouco mais de tempo para sua conclusão, porque a captura, a seleção e a edição de imagens foram mais demoradas do que a produção de textos para o jornal

impresso. Desta forma, a T2 gravou as últimas imagens para o telejornal (sua abertura e a fala dos apresentadores) no fim de agosto.

É importante destacar que, ao contrário dos momentos iniciais da interlocução, nas últimas tomadas de imagens, não houve a exigência de que os alunos decorassem falas e realizassem ensaios prévios às gravações. Evidenciava-se, assim, que a questão técnica da produção do vídeo foi-se diluindo aos poucos. Conforme aumentava a compreensão das professoras sobre o papel da mídia-educação na escola, dava-se maior margem à espontaneidade e a criatividade das crianças.

Após toda a coleta de imagens, as professoras elaboraram com as crianças a estrutura final do telejornal. Essa foi uma atividade bastante didática e que evidenciou claramente as possibilidades de manipulação e fragmentação da realidade na produção do discurso midiático, especialmente o televisivo. Foi solicitado que as crianças, em grupos, anotassem em uma folha toda a seqüência de imagens da fita de gravação e, em seguida, organizassem o jornal como achassem melhor, alterando a seqüência inicial da forma mais conveniente. Ao final, cada grupo apresentou sua seqüência e chegou-se a uma estrutura final única.

Por exemplo, num primeiro momento, os alunos anotaram a seqüência de imagens mostrada no Quadro 1. Num segundo momento, sugeriram a estrutura mostrada no Quadro 2, denominada de planificação da estrutura do telejornal.

1° 2° 3° 4° 5° 6° 7° 8° Apresen- tação da escola Brinca- deiras na quadra Vivência do vôlei Vivência da ginástica artística Vivência do karatê Abertura do telejornal Encerra- mento do telejornal Entrevista medalhistas do Pan Quadro 1 – Anotações da ordem das imagens na fita de gravação

1° 2° 3° 4° 5° 6° Abertura do telejornal Imagens da vivência do vôlei Imagens da vivência do karatê Imagens da vivência da ginástica artística Entrevista com os medalhistas do Pan Encerramento do telejornal

Quadro 2 – Estrutura sugerida pelas crianças (planificação da estrutura do telejornal)

Toda a atividade foi problematizada com as crianças, deixando-se claro que, para a composição de um texto audiovisual, era necessário excluir algumas imagens, alterar a ordem original etc. No decorrer da atividade, a Profª. 4 levantou questões significativas para a reflexão crítica da interlocução. Desta forma, fizeram-se as seguintes perguntas às crianças: “A alteração

que fizemos alterou o sentido das imagens? É possível então acreditar em tudo o que é transmitido na mídia?”. (Registro de observação, Diário de Campo 22/08/2007).

Na reflexão sobre-a-prática, as professoras avaliaram que a atividade foi extremamente esclarecedora para as crianças compreenderem a lógica de produção dos discursos midiáticos. No entanto, julgaram que a estrutura do telejornal ficou incompleta, necessitando de uma narração inicial, antes da apresentação das matérias, que resumisse todo o trabalho. A atividade implicou ampliar o cronograma da interlocução mais uma vez, para que as crianças tivessem tempo para escrever essa narração. Assim, para evitar grandes alterações no cronograma, as professoras optaram por suprimir a construção coletiva da narração e entregar um texto pronto para alguma criança narrar. As próprias professoras compuseram esse texto.

O interessante foi que a simples tarefa de compor um texto para o telejornal das crianças transformou-se em um novo momento de formação. A reflexão sobre-a-prática, neste momento, possibilitou esclarecimentos a respeito da mídia. As professoras tiveram de escrever um texto para ser lido em apenas dois minutos, o que implicou reduzir o número de informações a tal ponto que tornou ínvio o entendimento de todo o contexto da interlocução. As professoras compreenderam, então, que o tempo e a lógica interna da linguagem audiovisual não permitiam retratar a realidade tal qual ela fora vivida. Ao contrário, tratava-se de meros fragmentos representativos.

Durante a avaliação, as professoras optaram também por cancelar a decupagem pormenorizada das imagens com as crianças, para não prorrogar o cronograma da interlocução. Desta maneira, as professoras realizaram uma pré-decupagem do material, selecionando apenas as imagens sem erros para o telejornal. A partir dessas imagens pré-selecionadas foi que as crianças realizaram a decupagem final. A escolha por esta estratégia deixou evidente para as professoras que as crianças só poderiam optar por aquilo que já havia sido previamente selecionado, tal como faz ocorre com a mídia, o que constituiu outro ponto importante de reflexão e esclarecimento para as docentes.

Por fim, a última tarefa realizada foi a edição das imagens com as crianças. A princípio, a atividade seria realizada no LaboMídia CDS/UFSC, devido à suposta falta de recursos da escola, que não possuía computadores equipados com softwares de edição. Todavia, durante a interlocução, descobriu-se que a escola possuía um aparelho gravador de DVDs, o que possibilitou a realização da edição na própria escola. Para tal, a filmadora foi ligada ao gravador

de DVDs e foram gravadas somente as cenas selecionadas pelas crianças, na ordem desejada. Desta forma, a realização da edição não foi inviabilizada pela falta de recursos de informática adequados na escola, fato este que parece preocupar os professores que desejam intervir no campo da mídia-educação e acabam desistindo pela falta de materiais sofisticados. Evidentemente que sem o mínimo de recursos não há possibilidade de realizar um trabalho como este, mas também é verdade que não necessários equipamentos profissionais, nem tão pouco equipamentos de informática.

A alternativa encontrada na escola não apenas possibilitou a realização da edição sem grandes incrementos tecnológicos ou vastos recursos financeiros como abriu uma série de novas possibilidades pedagógicas para a instituição. Nenhuma professora da escola sabia como utilizar o gravador de DVDs com essa finalidade. O aparelho era utilizado apenas para passar filmes na escola.

Diante do fato, o professor-mediador auxiliou as professoras envolvidas na interlocução a utilizar o aparelho gravador de DVDs, tanto pra realização de futuras edições como para a gravação de programas da televisão ou mesmo de outros filmes. De posse desse recurso, imediatamente as professoras vislumbraram outras possibilidades técnicas para escola. A Profª. C, por exemplo, cogitou a idéia de digitalizar todo acervo de vídeos da escola para DVD e reproduzir os vídeos produzidos na interlocução anterior e atual para todas as crianças envolvidas, o que não foi feito na primeira interlocução. O fato significou ainda um salto qualitativo em relação à autonomia da escola para o desenvolvimento de projetos de mídia- educação, que antes somente eram cogitados se articulados à universidade ou a outras instituições que disponibilizassem estrutura material.

A edição do telejornal foi realizada no dia 5 de setembro e para tal foi necessário utilizar quase todo o período vespertino. A atividade foi iniciada pela Profª. 4, que realizou uma conversa sobre o procedimento de edição, explicando passo a passo como tudo seria feito. Em seguida, as professoras deixaram claro que havia sido realizada uma pré-decupagem das imagens e refletiram-se sobre as conseqüências. As crianças também foram lembradas que deveriam selecionar as imagens de acordo com o roteiro elaborado por elas anteriormente.

A decupagem e a edição aconteceram simultaneamente. As crianças diziam qual cena estava prevista no roteiro (por exemplo, a abertura do jornal) e, em seguida, as professoras mostravam as tomadas feitas da respectiva cena (já selecionadas na pré-decupagem). Então, as

crianças decidiam, entre as tomadas apresentadas, qual deveria ser gravada. A edição exigiu que cada um dos professores envolvidos assumisse uma função específica durante o processo. Assim, enquanto uma professora ficou responsável pela sonoplastia (cuidar das músicas, volume etc.), outra operava o gravador de DVDs, uma terceira ficou com a filmadora e assim por diante.