CAPÍTULO I – MARCO DE REFERÊNCIA TEÓRICO-CONCEITUAL CRÍTICO
1.3 ENVELHECIMENTO, ESTEREÓTIPOS E IDENTIDADE DE CLASSE
Observa-se que, apesar de outros determinantes revelarem ser o envelhecimento um processo heterogêneo - como a genética, os aspectos socioculturais, os arranjos familiares, o acesso ou não ao trabalho, à previdência - a condição de classe é um determinante crucial no
7De acordo com Teixeira (2017, p.34), baseada em Marx, “as classes sociais são coletivos que se constituem
fundamentalmente a partir das posições que ocupam nas relações de produção, que cada vez mais se restringe, em sociedades capitalistas, a duas grandes classes diretamente opostas entre si: burguesia e classe trabalhadora. Essa divisão entre classes fundamentais não elimina as diferenças, grupos e frações internas em cada classe, nem a existência de outras formas de classes sociais. Nessa perspectiva, trabalhar com o envelhecimento do trabalhador, implica incluir nesta classe a totalidade dos que vivem da venda da sua força de trabalho, incluindo desde os trabalhadores produtivos, ou seja, aqueles que produzem mais-valia e participam diretamente do processo de valorização do capital, detendo por isso um papel central no interior da classe trabalhadora, denominados por Marx de proletariado, mas também, os trabalhadores improdutivos, aqueles cuja forma de trabalho são utilizadas como serviços, seja para o uso público seja para o uso o capitalista, entram no processo de realização da mais-valia nos serviços, comércio, bancos e outras modalidades contemporâneas. Incorpora ainda o proletariado precarizado, o subproletariado moderno, os temporários, terceirizados, precarizados em geral, e também os desempregados e todos aqueles que possuem apenas sua força de trabalho não utilizada pelo mercado formal,os expulsos do processo produtivo e do mercado de trabalho”.
processo de envelhecimento, associado à luta dos idosos e de suas organizações por direitos e seguridade social.
Em relação a essa condição crucial, o Estado burguês age contraditoriamente, como manda a sua própria natureza: ele é tão essencial ao capital como aos trabalhadores, assegurando, ao mesmo tempo, condições gerais de produção e de mercado, úteis à rentabilidade econômica privada, quanto direitos aos que são submetidos a estas condições, dependendo da correlação de forças em presença. Os direitos das pessoas idosas não são estáveis e estão sob constantes ameaças de regressividade.
No modo de produção capitalista, duas são as
[...] categorias de velhos uma extremamente vasta, e outra reduzida a uma pequena minoria que a oposição entre exploradores e explorados cria. Qualquer informação dissociada de análise crítica [...] que pretenda referir-se à velhice em geral deve ser rejeitada porque tende a mascarar este hiato (BEAUVOIR, 1990, p. 17).
Os velhos, neste estudo, são indivíduos “idosos” que, em um dado contexto sociocultural e em virtude das diferenças que exibem em aparência, força, funcionalidade, produtividade e desempenho de papéis sociais primários diferem, por comparação, de adultos não idosos (NERI, 2009). É com base nessa diferença que os novos atributos e papéis sociais, relacionados à idade, gênero e à classe social, são tomados como critérios para acesso a benefícios, papéis e posição social.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) (2005) qualifica cronologicamente como idosa a pessoa com mais de 65 anos de idade em países desenvolvidos, e com mais de 60 anos de idade em países em desenvolvimento.
Destacam-se ainda várias abordagens teóricas e conceituais que informam sobre diferentes concepções de velhice e da utilização na formulação e implementação de políticas sociais voltadas para pessoas idosas.
Entende-se ser importante o contato com essas abordagens teóricas8, pois, ao mesmo tempo em que elas contemplam especificidades do que é ser idoso, da velhice e do envelhecimento, elas poderão, subsidiar respostas políticas a demandas e necessidades das
8 Siqueira; Botelho; Coelho (2002) realizaram estudo aprofundado sobre a velhice, identificaram abordagens teóricas e conceituais em 19 obras publicadas por autores conceituados à partir da década de 1970, que segundo as autoras coincidem com o momento em que a filósofa francesa Simone de Beauvoir, denunciava a conspiração do silêncio sobre a velhice, face ao descaso como esta vinha sendo tratada. Para facilitar o entendimento conceitual, as obras foram agrupadas em quatro perspectivas de análise a saber: biológico /comportamentalista; economicista; sociocultural; e transdisciplinar.
pessoas idosas e também fornecer pistas sobre os estereótipos e ideologias que marcam as políticas públicas destinadas a esse segmento populacional.
Em estudos realizados por Siqueira; Botelho; e Coelho (2002) a concepção “biológica e comportamentalista” dedica-se ao estudo do envelhecimento fisiológico. Pesquisa as alterações fisiológicas do organismo, as mudanças no perfil populacional e a forma como as políticas públicas de saúde atendem as demandas apresentadas. Considera o envelhecimento populacional como um assunto de Estado. De acordo com Chaimowicz (1987), houve modificação do perfil de saúde da população; em vez de processos agudos que poderiam ser administrados por meio da cura ou do óbito, agravaram-se, de forma predominante, as doenças crônicas e degenerativas, gerando longos períodos de demandas de serviços de saúde, de apoio institucional e familiar. Esta corrente além de analisar o envelhecimento por uma perspectiva biológica interessa-se também pela transição epidemiológica.
A concepção “sociocultural” percebe a velhice como uma construção social que é entendida a partir das diversas e possíveis formas de representação do ser velho. A concepção “economicista” verifica o impacto do envelhecimento populacional sobre a economia, apresentando questões afetas a saúde, aos benefícios previdenciários e assistenciais. Segundo pesquisa realizada por Haddad (1999), e entrevistas realizadas com idosos aposentados, a estrutura dos regimes previdenciários, bem como a política de reajustes dos benefícios nessa área, evidenciam disputas entre classes sociais, assim como dificuldades de integração intergeracional. Nesta abordagem as investigações preocupam-se em situar o lugar dos velhos na estrutura produtiva, centrando as análises na ruptura com o mundo produtivo do mercado de trabalho, especificamente na aposentadoria, na qual o indivíduo deixa de ser trabalhador para se transformar em ex-trabalhador; deixa de ser de produtivo para tornar-se improdutivo; de ser ativo para quedar-se inativo. E, da generalização da aposentadoria, cria-se, conforme Salgado (1977), um princípio de identidade para a velhice, definindo esse tempo da vida pela inatividade (SIQUEIRA; BOTELHO; COELHO, 2002).
A concepção, denominada transdisciplinar, contém uma visão biogerontológica que integra fatores biológicos, econômicos e socioculturais, na perspectiva contida nas obras A velhice, de Simone de Beauvoir (1976), e Memória e sociedade – lembranças de velhos, de Ecléa Bosi (1983). Nestas obras a velhice é percebida como fenômeno natural e social, que se desenrola sobre o ser humano único, indivisível, e que, na sua totalidade existencial, defronta- se com limitações de ordem biológica, econômica e sociocultural que singularizam seu processo de envelhecimento (SIQUEIRA; BOTELHO; COELHO, 2001).
Retratando o envelhecimento humano e a velhice Beauvoir (1990, p. 15-16) assim se expressa:
Ela [a velhice] é um fenômeno biológico [...], acarreta consequências biológicas [...]. [e], tem uma dimensão existencial [...] [que] modifica a relação do indivíduo com o tempo [...], com o mundo e com a própria história [...]. O que torna [esta] questão complexa é a estreita interdependência desses diferentes pontos [...]. Sabe-se, hoje em dia, que é abstrato considerar em separado os dados fisiológicos e os fatos psicológicos: eles se impõem mutuamente. Veremos que, na velhice, essa relação é particularmente evidente: ela é, por excelência, o domínio do psicossomático. Entretanto, o que chamamos de vida psíquica de um indivíduo só se pode compreender à luz de sua situação existencial; esta última tem, também, repercussões em seu organismo [...]. [Além disso,] se a velhice, enquanto destino biológico, é uma realidade que transcende a história, não é menos verdade que este destino é vivido de maneira variável segundo o contexto social [...]. Enfim, é no movimento indefinido desta circularidade que é preciso apreendê-la.
Portanto a visão biogerontológica desta abordagem parte do entendimento de que o envelhecimento de um indivíduo está associado a um processo de declínio das capacidades físicas, relacionado a novas fragilidades psicológicas e comportamentais, relacionando-as com o trabalho, as relações de classe, a escolaridade, o acesso ou não à informação e aos serviços de saúde, aos benefícios previdenciários e assistenciais. Para ela, manter-se saudável é uma condição que independe da idade cronológica e passa a ser algo que tem a ver com a capacidade do organismo de responder às necessidades da vida cotidiana e com a capacidade e motivação física e psicológica para continuar perseguindo objetivos e novas conquistas pessoais, familiares e sociais.
Nesta abordagem percebe-se, ademais, que o grupo social “idoso”, mesmo quando definido apenas etariamente, é referente a um conjunto de pessoas com idade elevada, mas com características biológicas e psicológicas comuns. Isto, quando, por exemplo, os indivíduos começariam a apresentar sinais de senilidade e incapacidade física ou mental, o que, na realidade constitui um indicador pouco preciso porque a classificação de “idoso” coloca e relaciona os indivíduos em diversos contextos sociais e históricos.
Além do mais, os resultados do processo biológico de senilidade são diferentes entre culturas e não estão dissociados das condições sociais, de classe social, de fatores econômicos e culturais que determinam a trajetória do indivíduo ao longo do seu ciclo da vida.
Por conseguinte, a definição, o entendimento e a interpretação do conceito do que é ser idoso/a, tem papel fundamental no âmbito das economias e do mundo societário, pois carrega
em si um valor, do ponto de vista instrumental, com finalidades de caráter social. Essa classificação implica definição de objetivos relacionados tanto à condição de um indivíduo em um determinado ponto da sua vida orgânica, quanto em um ponto determinado do seu ciclo de vida social (trabalho, família, lazer, estudo, participação política). Não há como pensar esses ciclos separadamente (CAMARANO, 2014). A sociedade cria expectativas em relação aos papéis sociais daqueles com o status de idoso e exerce diversas formas de coerção para que esses papéis se cumpram, independentemente de características particulares dos indivíduos (LASLETT, 1996, p. 24).
O status de idoso pode ser atribuído a indivíduos com determinada idade, mesmo que não apresentem características de dependência ou senilidade associadas à velhice e, mais importante, que recusem a imposição desse status. Um exemplo claro dessa coerção é a aposentadoria compulsória presente nos regimes de aposentadorias de vários países do mundo, inclusive desenvolvidos.
A demarcação de grupos populacionais associada à mobilidade social, aos arranjos familiares e ao mercado de trabalho é considerada importante, pois, por meio dela, é possível identificar potenciais beneficiários e identificar demandas, necessidades, alocar recursos e assegurar direitos, consonantes com o Projeto de desenvolvimento/crescimento que se quer alcançar.
De acordo com Camarano (2014), a classificação de idoso tendo como critério a idade, deve considerar a heterogeneidade e a diversidade entre indivíduos. É crucial analisar características como sexo, subgrupos etários, estado conjugal, grau de deficiência, rendimentos, forma de inserção na família e no mercado de trabalho, condição previdenciária e nível educacional. Essa heterogeneidade é decorrente, de um lado, das diferenciações na dinâmica demográfica e, de outro, das variadas condições socioeconômicas às quais o idoso de hoje foi exposto na sua trajetória de vida, bem como das suas características básicas (de nascimento).
As teorias sobre envelhecimento populacional e a discussão em torno desse tema mantém a visão generalizada de que a população idosa é um grupo homogêneo com características, especificidades, experiências e necessidades comuns. E as políticas sociais dirigidas a esse segmento populacional passam a depender dessa visão e das recomendações e acordos estabelecidos no âmbito internacional. Isso sem falar dos mitos, preconceitos e estereótipos que permeiam órgãos públicos, famílias, trabalho e a sociedade em geral, contrapostos a um movimento que possibilite a mudança de paradigma na direção de outros entendimentos e procedimentos.
Segundo Lloyd-Sherlock (2002) e Camarano (2014), há duas visões polarizadas da experiência do envelhecimento. Na primeira é predominante uma percepção negativa a respeito da população idosa, que é vista como dependente e vulnerável, tanto do ponto de vista econômico quanto da saúde e autonomia, sem papéis sociais, que vivencia apenas perdas. Esta visão tem origem em políticas que no passado reforçavam os aspectos de fragilidade e dependência (WALKER, 1990) que, conforme Slater (1930), até fins do século XIX, não se diferenciavam das voltadas para os doentes e incapacitados para o trabalho.
Na segunda visão o envelhecimento se inscreve na busca de mudança de paradigma, associado à divisão do trabalho, à ascensão da mulher no mercado de trabalho e, organização das pessoas idosas em sindicatos, associações, confederações, luta por seus direitos. Essa segunda visão entende que, apesar do envelhecimento acarretar perdas e agravar doenças crônico-degenerativas, a velhice e ser velho/a pode ainda ter novo sentido na vida pessoal e societária. Dessa forma a velhice não precisa ser considerada doença e inatividade; pelo contrário, ela poderá ser ressignificada com a adesão de novos papéis na vida familiar e societária, mesmo que os idosos apresentem alguma incapacidade para as atividades da vida diária ou alguma doença crônico-degenerativa.
Corrobora com essa visão a II Assembleia Mundial de Envelhecimento, realizada em abril de 2002, pela Organização das Nações Unidas em Madrid, Espanha, a qual em sua Declaração Política e em seu Plano de Ação compromete-se em envidar esforços para inserir as pessoas idosas no processo de desenvolvimento econômico de seus países, sinaliza para a construção de uma sociedade para todas as idades, e trata o envelhecimento pela ótica de direitos humanos. Tal mudança de paradigma torna-se perceptível em seu artigo 5º, assim explicitado:
[...] reafirmamos o compromisso de não limitar esforços para promover a democracia, reforçar o estado de direito e favorecer a igualdade entre homens e mulheres, assim como promover e proteger os direitos humanos e as liberdades fundamentais, inclusive o direito ao desenvolvimento. Comprometemo-nos a eliminar todas as formas de discriminação, entre outras, a discriminação por motivos de idade. Reconhecemos também que as pessoas, à medida que envelhecem, devem desfrutar de uma vida plena, com saúde, segurança e participação ativa na vida econômica, social, cultural e política de suas sociedades. Estamos decididos a aumentar o reconhecimento da dignidade dos idosos e a eliminar todas as formas de abandono, abuso e violência (ONU, 2002, p. 20).
Este compromisso é reforçado pelos demais contidos em seus artigos; entretanto, destaca-se os de nº 12 e 14 os quais fazem referência à necessidade de participação das
pessoas idosas no mercado de trabalho, receberem capacitação continuada para cooperarem com o desenvolvimento de seus países, e a buscarem a garantir um sistema de Seguridade Social ampliado, no qual a saúde seja caráter universal.
Esta Declaração Política e o Plano de Ação convocam os países a adotarem novas formas de conceberem o processo de envelhecimento, inclusive com Seguridade Social ampliada, mas condicionada a garantia das pessoas idosas a buscarem sua inserção no trabalho de acordo com as suas especificidades e contextos nacionais em um momento histórico em que preponderam o do trabalho precarizado e o acirramento da agenda neoliberal.