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4 O DISCURSO QUE REMETE À FÍSICA CURCULANDO NO

4.1 A HETEROGENEIDADE PRESENTE NO LIVRO E2

4.1.2 Epígrafes

Os sentidos e sujeitos construído através da textualização do livro E2 (GROUT, 2013) apresentam uma FD específica, heterogênea, de um discurso de AA com remissões à ciência. Essas remissões não são produzidas apenas através da invocação de cientistas apresentadas no tópico anterior, elas também ocorrem por meio das epígrafes do livro.

Existem epígrafes no começo de cada título e subtítulo dos capítulos deste livro e todas essas epígrafes são referenciadas a algo ou alguém, vale aqui apontar que nem todas as epígrafes do livro tem relação com a ciência. Como exemplo, mostraremos abaixo duas epígrafes que não são referenciadas a pessoas, mas sim a objetos, um banner em um site e uma frase em um caminhão, e não apresentam nenhuma relação com a ciência.

Emancipe-se da escravidão mental. Ninguém a não ser nós mesmos pode libertar as nossas mentes – Frase de um banner na home page do Green Living, um site canadense dedicado a fornecer informações sobre produtos orgânicos, saudáveis e ecológicos - Frase de um banner na home page do Green Living, um site canadense dedicado a fornecer informações sobre produtos orgânicos, saudáveis e ecológicos (GROUT, 2013, p.39) “Totó, acho que não estamos mais no Kansas – Frase do filme O mágico de Oz, encontrada no para-choque de um caminhão em Lawrence, Kansas” (GROUT, 2013, p.74) No entanto, em algumas epígrafes pudemos observar o uso da invocação de cientistas de uma forma diferenciada das mencionadas anteriormente. Nestas epígrafes a invocação de cientistas não os associa a seus trabalhos. Na verdade, na maioria das vezes as epígrafes são enunciados que se relacionam mais com o discurso do livro E2 do que com os trabalhos dos cientistas no desenvolvimento da ciência.

Abaixo selecionamos algumas das epígrafes que fazem referência aos cientistas e apesar de não conseguirmos categorizá-las, percebemos que algumas delas se relacionam com alguns dos diferentes discursos identificados no livro como: a existência de uma consciência única,

desenvolvimento científico de estudos espirituais, influência do observador e a influência dos pensamentos sobre alguma coisa.

[44] ―Todos os que estão seriamente envolvidos em pesquisas científicas se convenceram de que uma

consciência está presente nas leis do universo – uma

consciência infinitamente superior à do homens – Albert Einstein, físico alemão‖ (ibid., p.13, grifo nosso)

[45] ―A mais importante descoberta e desenvolvimento dos próximos anos vai se dar na esfera espiritual. Existe uma força, e a história mostra isso muito claramente, que foi a mais importante no desenvolvimento do homem e, no entanto, nós temos apenas brincado com ela e nunca a estudamos seriamente como fizemos com as forças da natureza física. Algum dia, as pessoas vão aprender que coisas materiais não trazem felicidade e que são de pouca serventia quando se trata de fazer homens e mulheres criativos e poderosos. Então os cientistas do mundo vão

destinar os seus laboratório ao estudo das forças espirituais. Quando esse dia chegar, o mundo vai ver mas

progresso numa só geração do que nas últimas quatro – Charles Proteus Steinmetz, inventor do motor de corrente alternada‖ (ibid., p. 45, grifo nosso)

[46] ―Nós agora temos uma ciência da espiritualidade que é completamente verificável e objetiva – Amit Goswami, ph.D., físico teórico‖ (ibid., p.66, grifo nosso) [47] ―Tudo o que você sabe sobre o universo e as leis que o regem está mais ou menos 99,99% errado – Fred Alan Wolf, ph.D., físico quântico‖ (ibid., p.82)

[48] ―Quem não fica espantado com a física não a entendeu – Niels Bohr, físico dinamarquês‖ (p. 84)

[49] ―O homem, rodeado por fatos, que não se permite nenhuma surpresa, nenhum lampejo da intuição, nenhuma grande hipótese, nenhum risco, está trancado numa cela. A ignorância fecha a mente em segurança – Albert Einstein‖ (ibid., p. 126)

[50] ―O curso do mundo não está predeterminado pelas leis da física (...). A mente tem o poder de produzir efeito

sobre um grupo de átomos e até mesmo modificar os padrões do comportamento atômico – Sir Arthur Stanley

Eddington, matemático e astrofísico inglês‖ (ibid., p.127, grifo nosso)

[51] ―As pessoas precisam perceber que os pensamentos que têm são mais básicos que os genes, porque o meio

ambiente, que é influenciado pelos nossos pensamentos, controla os genes – Bruce Lipton, ph.D., biólogo celular

americano‖ (ibid., p.140, grifo nosso)

[52] ―O que hoje é visto como paradoxo da teoria quântica será visto apenas como bom senso para os filhos dos nossos filhos – Stephen Hawkings, físico teórico inglês‖ (ibid., p.164)

[53] ―O senso comum é uma coleção de preconceitos adquiridos até completarmos cerca de 18 anos – Albert Einstein‖ (ibid., p.174)

[54] ―A realidade é meramente uma ilusão, ainda que uma bem persistente – Albert Einstein‖ (ibid., p.178)

Observamos nesses enunciados que através da figura do cientista a ciência é ligada ao discurso de AA. Nas epígrafes acima, percebemos enunciados mais próximos de um discurso esotérico/filosófico do que de um discurso que remete à ciência, embora seus autores sejam cientistas; isso difere dos tipos de enunciados que evocavam cientistas atrelando seus mais famosos trabalhos a seus nomes, como foi exposto no tópico anterior. A proximidade desses enunciados, que acabamos de apresentar, com a ciência se dá mais através da importância dos nomes dos cientistas e do uso de algumas palavras que são comumente utilizadas no discurso científico como: pesquisas científicas, ciência, física, leis da física, átomos, comportamento atômico, genes e teoria quântica, além do complemento que adjetiva o nome de cada cientista como: físico teórico, físico quântico e astrofísico.

Gostaríamos de apontar que o uso desses complementos como: físico teórico, físico quântico e astrofísico produz um efeito similar ao

efeito de sentido que o uso do nome de grandes instituições de pesquisa produz, como o efeito que observamos na apresentação do E2.

A apresentação do livro E2 é assinado por Joyce Barrett, ph.D. Se a identificação de autoria da apresentação do livro acabasse no ph.D não teríamos muito o que apontar, mas a identificação segue com o complemento ―Ex-bióloga da NASA‖ (GROUT, 2013, p.9).

O fato da apresentação do mesmo ser assinado por uma ―ex- bióloga da NASA” (Joyce Barrett, ph.D.), pode produzir o efeito de sentido de corroboração, pois se, uma cientista da NASA (Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço)escreve a apresentação de um livro, logo, concorda com seu conteúdo. Essa assinatura carrega consigo o argumento da autoridade, pois não é uma assinatura de uma pessoa qualquer, apesar de Joyce Barrett não ser um nome conhecido pela mídia, o fato desse nome vir acompanhado da informação ―ex-bióloga da NASA” faz com que esse passe a ter valor e influência. A autoridade dada à assinatura de Joyce Barrett neste livro é garantida pela fama do órgão mundialmente conhecido pelos projetos científicos que executam – NASA, e ter alguém desse órgão associado ao livro E2

faz com que o discurso deste livro remeta a ciência.

Como mostramos, o discurso da AA deste livro é heterogêneo e remete à ciência, de uma maneira geral, de várias formas diferentes, configurando regularidades, marcadas por instabilidades. No próximo tópico, nesta mesma perspectiva, concentraremos nossas análises a uma parcela específica das remissões à ciência presente neste livro, às remissões à física. A última manifestação de heterogeneidade que trataremos no próximo tópico é o uso de conceitos e explicações físicas.

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