EQUÍVOCOS DO GLOBALISMO PÓS-MODERNO

No documento VISÕES INTERDISCIPLINARES SOBRE POLÍTICAS PÚBLICAS VOL. 1 (páginas 173-176)

GLOBALISMO NO PANORAMA PÓS- PÓS-MODERNO

2. EQUÍVOCOS DO GLOBALISMO PÓS-MODERNO

Segundo Ulrich Beck (1999), a afirmação de que o comércio mun-dial acirra a concorrência e gera a redução de custos é apenas uma falácia, já que existem apenas duas formas de redução de custos: alta

economici-V I S Õ E S I N T E R D I S C I P L I N A R E S S O B R E P O L Í T I C A S P Ú B L I C A S - economici-V O L . 1

dade (tecnologia e organização avançada) ou então desrespeito aos padrões de trabalho e produção (que é o que realmente acontece). A rentabilidade aparenta crescer em virtude da pirataria transnacional.

Nesse diapasão, confunde-se a globalização econômica com uma in-ternacionalização da economia. Em sentido estrito não se pode falar numa globalização das regiões da economia mundial, mas em uma internacio-nalização.

O que se verifica é o fortalecimento das relações transnacionais de comércio e produção entre determinadas regiões e dentro delas (América, Asia e Europa). A maior prova disso é que o comércio e os investimentos estrangeiros se multiplicam entre estes três grandes blocos econômicos – motivo pelo qual fala-se em tripartição da economia mundial.

Com a globalização dos mercados e a internacionalização da pro-dução os setores produtivos mais exigentes e a força de trabalho menos qualificada passaram a sofrer a forte concorrência do mercado mundial.

Além disso, com o deslocamento da produção para a exportação. Houve a substituição do trabalho pelo capital e pelo conhecimento. Essa pressão da concorrência ancorada no capital e no conhecimento, e a mão de obra altamente qualificada se intensificou com o crescimento dos países emer-gentes, que surgiriam como competidores neste novo contexto.

O pensamento retrógrado de desenvolvimento econômico está cada vez mais com os dias contados, porque para uma nação antes parecia van-tajoso fazer economia a qualquer custo, entretanto atualmente é analisado qual o sacrifício das gerações futuras nesta economia. Assim, ela somente deverá ocorrer se não causar danos a longo prazo, no conceito mais próxi-mo de desenvolvimento sustentável.

A chamada “sociedade de risco” confere poder às empresas trans-nacionais, que por medo de perder mercado, acabam intimidando os governantes a fazer o que a disponibilidade de investimentos exige para sobrevivência no mercado. Esse movimento é chamado de hegemonia se-mântica, qual seja: a fonte de poder que as empresas adquirem, através do seu potencial estratégico de influenciar governantes.

O globalismo é um vírus mental que se disseminou por todos os par-tidos, redações e instituições. Seu principal postulado é que tudo e todos (política, ciência, cultura etc.) deverão ser subordinados ao primado da economia. É o renascimento do marxismo com uma ideologia

adminis-ROSÂNGELA TREMEL (ORGS.)

trativa, também chamada de New Age econômica, que acredita que a salvação do mundo seja através do mercado. Assim, o chamado “globalis-mo neoliberal” é uma ação altamente política, que contraditoriamente diz que a ausência de política seria a revolução. A ideologia desse movimento prega que não há ação, e sim execução das leis do mercado mundial que reduzem o estado e a democracia.

Entretanto, a globalização econômica não é um mecanismo automá-tico, é um projeto político praticado numa constante renovação, por atores transnacionais, instituições e coalizões, Banco Mundial, OMC, OCDE, empresas multinacionais, além de outras organizações internacionais.

Dessa maneira, podemos analisar que o globalismo tornou-se uma arma-dilha política, que gera uma grande insegurança privada dos empregados que não lutam apenas por melhores empregos ou salários, ou por garantias sociais para sua humilde condições. Eles se veem abandonados e iludidos pela política de direita e de esquerda, já que de qualquer maneira há a elevação dos impostos sobre os seus salários incertos, para auxiliar aqueles que não trabalham.

A expressão “cultura global” é de certo modo enganosa, as pessoas e as nações são pressionadas por uma cultura mundial homogênea da co-municação, da informação, do entretenimento e do comércio.

Surgem expressões translocais como o “boom do turismo”, a forma-ção de universos restritos de especialistas que não mantém vínculos com nenhum local; as instituições agências e grupos se se misturam em cir-cunstâncias possíveis e impossíveis; a imposição de um número restrito de línguas. Assim, é errado afirmar que há linearidade na globalização, e considerar como verdadeira a tese de que a convergência cultural é uma consequência da unificação econômica.

Outra análise a ser feita é que muitos acreditam que se o trabalho produtivo desaparecer da sociedade industrial, haverá então uma crise ou catástrofe. As sociedades sonham em libertar-se do jugo do trabalho com a produção cada vez maior de riquezas com um dispêndio cada vez menor da força de trabalho.

Chegamos a esse momento, mas ninguém sabe lidar com ele. Na transição da primeira para a segunda modernidade tivemos uma meta-morfose de fundamentos, o ingresso no mundo desconhecido da globali-dade e não uma crise ou catástrofe. Como exemplo, Ulrich Beck (1999)

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cita que o desemprego em massa não é uma crise, pois o retorno do pleno emprego é fictício. Não é também uma catástrofe pois a substituição do trabalho pela produção automatizada pode oferecer oportunidades histó-ricas de libertação.

Desta forma, é correto afirmar que o globalismo neoliberal não espalha apenas medo: ele semeia a paralisia política. Forma-se uma coalização preta, vermelha verde do protecionismo, que defende a vol-ta da antiga ordem contra as adversidades e insvol-tabilidades da segunda modernidade.

O protecionismo preto traz a contradição entre aqueles que exaltam o estado nacional e aqueles que promovem sua ruína com a ideologia da cruzada neoliberal do livre mercado mundial. Pensam de maneira neoli-beral e agem de maneira conservadora. Com uma mão, louva os valores da nação, e com outra estimula a dinâmica econômica, tratando-se de um sistema falho eis que a estratégia neoliberal do globalismo não se sustenta se não for universalizada.

O protecionismo verde reconhece no estado nacional um biotipo político ameaçado de extinção, que acredita que assim como a natureza ameaçada, também necessita de proteção. Defendem o standard ambiental contra a opressão mundial.

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