presa comprou 53,99% de participação na companhia para- naense Belagrícola, também do ramo de sementes. O inves- timento tem como foco principal o mercado de soja e milho. Já os grupos chineses LongPing Agriculture e Citic Agri Fund adquiriram os negócios de sementes de milho da Dow AgroSciences no Brasil por US$ 1 bilhão também em 2017. A nova empresa passou a se chamar LP Sementes Ltda. e detém cerca de 18% do mercado nacional.
No setor de infraestrutura para escoamento de commodi-
ties – principalmente grãos e minérios –, grupos e empresas
chinesas estão investindo em ferrovias como a Ferrogrão, que pretende ligar produtores de grãos do Centro-Oeste ao porto de Miritituba (PA), e a Ferrovia de Integração Oeste- -Leste, ligando-a ao porto de Ilhéus (BA) e à Ferrovia Norte-Sul (que seguirá de Campinorte (GO) a Lucas do Rio Verde (MT) e, de lá, a Porto Velho (RO).
A China Communications Construction Company (CCCC) é sócia majoritária do Porto de São Luis no Maranhão, integrado com a Ferrovia Carajás, e em 2017 fechou com o governo federal um memorando para a construção do Ter- minal Graneleiro da Babitonga (TGB), em Santa Catarina. No início de 2018, a operadora de terminais China Merchants Port (CMPort) finalizou a compra do porto de Paranaguá, no Paraná, e a China Railway Engineering Group participa do Porto Sul, em Ilhéus. Na área energética, empresas como State Power Investment Overseas, State Grid e Three Gorges estão presentes em projetos hidrelétricos e linhas de trans- missão (Belo Monte, Santo Antonio, São Simão, Teles Pires, São Manoel, Cachoeira Caldeirão, e Santo Antônio do Jari). A State Grid também comprou a CPFL e 23 concessionárias de distribuição de energia.
Quando a rebarba da crise econômica mundial de 2008 atingiu a China a partir do final de 2011, o país diminuiu em ritmo acelerado seu apetite por commodities. Como conse- quência, o preço de matérias-primas minerais (incluindo o petróleo) e agrícolas despencou e arrastou consigo a econo- mia brasileira que, por mais de uma década, cresceu ampa- rada no boom das commodities no mercado internacional. A queda drástica do PIB nacional desestabilizou o governo e contribuiu para o desgaste da então presidenta Dilma Rousseff, destituída do cargo em 2016. Ao mesmo tempo, os grandes projetos de infraestrutura para expansão do extrati- vismo mineral, energético e agrícola também refluíram em função da falta de recursos do governo.
A retomada da economia chinesa nos anos subsequen- tes, no entanto, recolocou o país como um investidor impor- tante neste cenário. Para as populações tradicionais e rurais, a retração dos aportes governamentais em megaprojetos deu um respiro para as lutas de resistência em territórios afe- tados e ameaçados pelo agronegócio, ferroviais, portos e ou- tros, mas a recuperação da demanda por commodities e da capacidade da China em investir nesses setores passou a ser um novo fator de preocupação. Principalmente diante das facilidades legais (retrocessos nas leis trabalhistas e ambien- tais) oferecidas pelo governo de Michel Temer e da busca por investimentos sem condicionantes socioambientais. Se o apetite da China por grãos e matérias-primas reascender, a fome nos territórios ocupados pelo capital chinês também poderá aumentar.
Pesquisas indicam que investidores de terra do Reino Unido e dos EUA são ainda mais ativos do que aqueles baseados na China.
ATL AS DO AGR ONE GÓCIO 2 018 / L AND MA TRIX EXPANSÃO NO BRASIL
Investimentos chineses no agronegócio e em infraestrutura no Brasil, 2009-2017
Governo do Mato Grosso
Governo da Bahia Governo do Maranhão Terminal de Contêineres de Paranaguá (TCP) Governo da Bahia/ Universo Verde Governo da Bahia Fiagril Participações e DKBA
Dow
Parceria para construção de 4 trechos de ferrovias: Rondonópolis a Cuiabá (MT), Rondonópolis (MT) a Porto Velho (RO), Cuiabá (MT) a Santarém (PA), e Alto Araguaia (MT) a Araguari (MG) Ferrovia da Integração Oeste-Leste (Fiol) e Porto Sul
Sócia majoritária do Porto de São Luis no Maranhão
Porto de Paranaguá
Construção de um polo industrial de esmagamento e refino de óleo de soja e de escoamento de produtos Aquisição de terras para produção de grãos e agrocombustíveis Traders de grãos Fiagril e Belagrícola
Negócios de sementes de milho da Dow AgroSciences no Brasil
China Rail Construction
China Railway Engineering Group China Communications
Construction Terminal de Contêineres de
Paranaguá (TCP) Chongqing Grain Group Grupo Pallas Internacional
Shanghai Pengxin CITIC-Led Fund
agricultura ferrovia porto
Participação em projetos de lavoura de grãos e investimento na construção de ramais da Ferrovia Norte Sul em Goiás. Soja produzida em 2,4 milhões de hectares será exportada pra China
China National Agricultural
O
s governos estabelecem o regime de políticas agríco- las, comerciais e de consumo nas quais as empresas operam. As autoridades têm à sua disposição uma ampla gama de instrumentos para influenciar a economia nacional e regular o poder das corporações. No entanto, as políticas governamentais são muitas vezes entrelaçadas com os interesses das corporações, ao invés de servir aos in- teresses de seus cidadãos. À medida que a concentração do mercado cresce, a política de concorrência torna-se mais im- portante. As regulamentações nacionais deveriam dificultar a criação de cartéis, o mau uso de posições dominantes e a formação de monopólios, proibindo-os ou impondo condi- ções a serem cumpridas pelas empresas.Nos EUA e em outros países, as regras de concorrência foram enfraquecidas desde que a onda de desregulamenta-
ção teve início no final da década de 1980. Mas o comporta- mento anticompetitivo muitas vezes tem efeitos transfron- teiriços, por exemplo, se as empresas pactuam em fixar os preços ou secretamente fatiam um mercado entre elas. Nes- tes casos, geralmente, são os agricultores ou fornecedores de outros países que sofrem as consequências. Com os mer- cados concentrados em poucas mãos em muitas áreas do se- tor agroalimentar, a sociedade civil exige uma reforma das leis de concorrência. A obtenção de aprovação para fusões em mercados altamente concentrados deve ser dificultada, e o uso indevido do poder de mercado, restringido.
Uma crítica específica é a de que a política de concorrên- cia é voltada apenas para os interesses dos consumidores. Compreende-se que a concorrência funciona desde que os preços sejam baixos. Mas não é necessariamente assim – a concorrência em relação a aspectos de qualidade pode ele- var os preços. Esta política deve, portanto, fortalecer o poder de negociação dos agricultores e assegurar a aplicação de padrões mínimos socioambientais ao longo da cadeia de valor. Isso inclui garantir que a negociação salarial gere sa- lários dignos.
Nos últimos anos, na Europa, a atenção se concentrou nas grandes cadeias de supermercados. A pressão que estes atores exercem sobre os preços é sentida por toda a cadeia de valor. É uma das principais causas das condições de traba- lho precárias tanto nos países de origem dos supermercados como nos países em desenvolvimento. A Comissão Europeia investigou o poder dos supermercados e práticas desleais na cadeia de valor e, especialmente, as queixas dos forne- cedores. Mas, em 2016, decidiu que não havia motivo para intervir em nível europeu. A Comissão salientou medidas voluntárias acordadas pelos supermercados e fabricantes de alimentos, com as quais, entre outras coisas, planejava estabelecer ouvidorias por parte dos fornecedores. Mas, na prática, os fornecedores raramente apresentaram queixas sobre seus próprios clientes – o risco de ser colocado na lista suja é muito grande.
O poder de mercado das empresas é refletido no seu fa- turamento, na influência sobre os preços e nos padrões que estabelecem para seus fornecedores. Estes últimos são ge- ralmente tão restritos que limitam a entrada no mercado e excluem produtores menores a montante.
Em muitos países, as leis trabalhistas, agrárias e am- bientais existentes não são cumpridas devidamente. Nestes locais, a maioria das empresas rejeita qualquer responsa- bilidade pelo cumprimento de regras que não existem. A efetividade das abordagens voluntárias é limitada. Mesmo que existam regras adequadas, elas não são aplicadas apro- priadamente. É por isso que a sociedade civil vem exigindo a elaboração de regras globais para as empresas desde a dé- cada de 1990. Estas regras devem estar sob os auspícios das Nações Unidas.