As escolas de samba

No documento O carnaval de Ouro Preto: mercado e tradição (1980-2011) (páginas 45-51)

2.1 Os primeiros anos da década de 1980 e suas principais manifestações

2.1.1 As escolas de samba

A grande popularidade das escolas de samba no carnaval de Ouro Preto nos anos iniciais da década de 1980, representadas pelo expressivo número de reportagens veiculadas no Jornal Estado de Minas, não pode ser encarada como um dado isolado.

Nesse mesmo período, o carnaval carioca era veiculado como a grande referência de carnaval no Brasil. Difícil não remeter as escolas de samba ouro-pretanas à influência das escolas cariocas e do que se convencionou ser o carnaval no Rio de Janeiro ao longo de sua história. Os nomes, a conformação dos desfiles, a utilização de alas, tipos de fantasias e carros alegóricos, assim como, a necessidade de premiação de uma vencedora, são apenas alguns dos muitos indicativos das semelhanças. Mas, não somente a cidade de Ouro Preto seria influenciada pela criação carioca, e sim, grande parte do país, em um processo iniciado bem antes.

O Rio de Janeiro, antiga capital do Brasil, era, no século XIX, a principal porta de entrada das inovações que vinham da Europa. Em se tratando da festa carnavalesca, não é à toa que essa cidade é considerada, senão a principal no país, uma das mais importantes, pois, ao que indica a bibliografia que se destina ao carnaval brasileiro, foi a primeira a receber as influências europeias, tão diferentes dos antigos festejos vivenciados anteriormente no Brasil, que delineariam uma nova forma de brincar nos dias precedentes à Quaresma.

Araújo (2008) observa que a cidade do Rio de Janeiro seria, particularmente, uma grande receptora das novidades estrangeiras e, também, irradiadora destas para o restante do país. Com relação ao carnaval, a autora relata que a cidade tornou-se um centro de aprovação, adoção e difusão deste divertimento, “de maneira a constituir-se, no plano interno, um modelo a ser imitado no que diz respeito às novas maneiras de festejar” (p.121). Ferreira (2004) também aponta a cidade do Rio de Janeiro como um lugar privilegiado de importação de um carnaval mais civilizado, vindo da Europa e elaborado por parte da elite nacional, capitaneado pelas classes dominantes. Para o autor, o carnaval carioca seria o modelo copiado por todos os grandes centros urbanos do país, mesmo não passando por situações idênticas.

Assim como diversas manifestações foram importadas e reelaboradas na antiga capital, outras surgiram a partir da própria especificidade da cidade e do poder de criação de seus habitantes. Um destes exemplos seria, justamente, as escolas de samba, que segundo Ferreira (2004):

foram um produto cem por cento carioca, surgido através da articulação das muitas influências negras de macumbas, candomblés e batuques, temperadas pelos encontros de grupos carnavalescos pelas ruas do Rio de Janeiro e de toda uma gama

de interesses políticos, sociais e econômicos.

O autor ressalta que, nos finais dos anos 1920, grupos de samba compostos por alguns rapazes que cantavam suas músicas numa espécie de conjunto musical conhecido como “samba de morro” começaram a adquirir visibilidade na imprensa e na elite intelectual da época, “desejosa de entrar em contato com a ‘verdadeira’ cultura do povo brasileiro”. (p. 338). Mesmo inevitavelmente mesclado a características do carnaval europeu, como o desfile e as fantasias das grandes sociedades, começava-se a se gestar uma festa com características próprias.

Ferreira (2004), também aponta que, durante o primeiro governo de Getúlio Vargas, tomou um grande impulso a ideia de uma expressão única para o Brasil, e assim, tudo o que pudesse representar a essência da mistura das “raças” que formavam o país era enaltecido. A valorização crescente do nacionalismo nos anos 1930 e dos interesses na criação de uma festa genuinamente popular em que, cada vez mais, buscava-se destacar as raízes negras, fez com que os grupos de “samba de morro”, apropriando-se também de algumas das características dos cordões e blocos, fossem conhecidos como “escola de samba” (FERREIRA, 2004). O autor cita o exemplo da música “Brasil Pandeiro”, composta por Assis Valente em 1940, que coroou esse movimento através da associação da imagem do país com o pandeiro, símbolo do samba. Os trechos da música, como “chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor” e o incentivo ao Brasil para esquentar seus pandeiros e iluminar seus terreiros, tornariam, segundo Ferreira (2004), o Rio de Janeiro e todo o país, território do samba.

Neste contexto, as escolas de samba ganhariam mais destaque com o passar dos anos, não somente como projeto governamental de valorização de uma identidade nacional,

mas, também, com as ações da mídia impressa, que promoveria, cada vez mais, suas atividades, sendo responsáveis, também, pelos primeiros concursos entre elas 31.

Como enfatizado no início deste capítulo, as escolas de samba eram noticiadas como as principais manifestações carnavalescas em todas as cidades de Minas Gerais retratadas no jornal Estado de Minas. Estavam presentes na maior parte das fotografias e manchetes do carnaval. Alguns exemplos: “Feliz lembrança vai abrir o carnaval de Juiz de Fora” 32; “Escolas de samba já elogiam PBH” 33, “Carnaval terá 32 escolas sambando na Afonso Pena” 34, “Desfile de passistas, o ponto alto de Vespasiano” 35; “Carros alegóricos no carnaval de Uberaba” 36, “Mocidade Unida comanda o carnaval de Piumhí” 37, “A Unidos do Bairro de Fátima abre o desfile em Ponte Nova” 38, “Pouso Alegre institui prêmios para escolas” 39, “Quatro escolas em desfile no carnaval de Barbacena” 40, “Escolas de samba: o toque maior do carnaval de Poços de Caldas” 41.

Em Ouro Preto, isso não era diferente. Mesmo com o bloco Zé Pereira ocupando a maior parte das manchetes, sendo mais relacionado à história da cidade e à ideia de tradição, o conteúdo relacionado às escolas ocupava a maior parte das reportagens, com uma utilização bem mais significativa de recursos fotográficos. A diferença entre a quantidade de reportagens e a ênfase no conteúdo entre uma e outra manifestação era pequena, mas ainda assim, podia

31

Segundo Ferreira (2004): “A festa carnavalesca do ano seguinte (1932) seria um verdadeiro marco na história do carnaval brasileiro por sua oficialização promovida pelo prefeito Pedro Ernesto. No projeto da Prefeitura estava incluído um concurso de músicas carnavalescas que acabou por ser chamado de Concurso de Sambas. Apesar do caráter oficial do evento, sua organização correria a cargo dos órgãos da imprensa, sempre ativa e interessada em promover disputas entre os grupos carnavalescos. Entretanto, ao que parece, nenhum dos grandes periódicos se interessou em organizar uma disputa específica entre ‘escolas de samba’ - nome pelo qual os grupos de samba já começavam a ser conhecidos -, e o jornal Mundo Esportivo, recém-criado, acabaria ocupando esse espaço”.

32

Feliz lembrança era o nome de uma das escolas que participavam do carnaval de Juiz de Fora: FELIZ lembrança vai abrir carnaval de Juiz de Fora. Estado de Minas, Belo Horizonte, 03 fev.1980. 15.005, Primeiro caderno, p.24.

33

PBH é a sigla de Prefeitura de Belo Horizonte: ESCOLAS de samba já elogiam PBH. Estado de Minas, Belo Horizonte, 31 jan.1981. 15.309, Primeiro caderno, p.7.

34

CARNAVAL de BH. Estado de Minas, Belo Horizonte, 06 fev. 1980. 15. 007, Primeiro caderno, p.4. 35

DESFILE de passistas: o ponto alto de Vespasiano. Estado de Minas, Belo Horizonte, 27 jan. 1980. 14.999, Caderno Pequenos anúncios, p. 13.

36

CARROS alegóricos no carnaval de Uberaba. Estado de Minas, Belo Horizonte, 10 fev.1980. 15.011, 1º caderno, p.20.

37

Mocidade Unidade era o nome de uma das escolas de samba da cidade de Piumhí: MOCIDADE Unida comanda o carnaval de Piumhí. Estado de Minas, Belo Horizonte, 06 fev. 1980. 15.007, Primeiro caderno, p.14. 38

A UNIDOS do Bairro de Fátima abre o desfile em Ponte Nova. Estado de Minas, Belo Horizonte, 1980. idem. 39

POUSO Alegre instituiu prêmios para as escolas. Estado de Minas, Belo Horizonte, 03 fev. 1980. 15.005, Primeiro caderno, p.24.

40

QUATRO escolas em desfile no carnaval de Barbacena. Estado de Minas, Belo Horizonte, 1980, idem. 41

ESCOLAS de samba, o toque maior do carnaval de Poços de Caldas. Estado de Minas, Belo Horizonte, 1980,

demonstrar a relevância das escolas de samba para o carnaval ouro-pretano nos anos iniciais da década de 1980.

Ouro Preto inicia esta década com cinco representantes: Império do Morro de Sant’Ana, Unidos do Padre Faria, Imperial de Ouro Preto, Sinhá Olímpia e Inconfidência Mineira (ESIM). Uma reportagem do jornal Estado de Minas oferece indícios de que estas escolas já marcavam presença no carnaval da cidade em anos anteriores. Ao citá-las, completa a informação com os dizeres: “são as cinco ricas e tradicionais escolas de samba que concorrem, todo ano, para o encantamento de todos que participam do carnaval de Ouro Preto, desfilando, oficialmente, nas três noites, diante da comissão da Praça Tiradentes” 42.

Em algumas edições das Agendas Culturais constam as datas de fundação de cada uma delas: a Império do Morro Sant’Ana é a mais antiga, datada de 1957. As demais são da década de 1970: a Unidos do Padre Faria do ano de 1970, a ESIM do ano de 1972, a Imperial de Ouro Preto do ano de 1974, e a Sinhá Olímpia de 1975.

Nos anos iniciais da década, o número de escolas variou um pouco, ora cinco, como em 1980, ora quatro em 1981, com a saída temporária da Imperial de Ouro Preto que retorna no ano seguinte. Segundo as reportagens, o ano 1982 segue com seis escolas, pois também passa a contar com a Acadêmicos de São Cristóvão, que tem como data de fundação, o ano de 1980. Segundo uma das fontes consultadas, esta escola desfilou pela primeira vez no ano de 1981, mas sem participar do concurso oficial43.

Embora as escolas de samba fossem bastante noticiadas nesse período, poucas foram as reportagens que se preocupavam em contar a sua história e o início de sua participação no carnaval. Os nomes de metade delas remetem aos bairros de onde surgiram, como a Império de Morro Santana, a Unidos de Padre Faria e a Acadêmicos de São Cristóvão. As outras três remetem à história da cidade e de seus moradores. A Inconfidência Mineira foi criada no bairro Antônio Dias, a Imperial de Ouro Preto, nome que remete ao título de “Imperial cidade” conferido por D. Pedro I em 182344, foi criada por moradores dos bairros Rosário e Pilar e a Sinhá Olímpia, uma homenagem à Dona Olímpia, uma senhora tida como importante personagem da cidade, foi criada por moradores do bairro Saramenha.

Mesmo não se percebendo ainda uma programação bem estruturada, pode-se notar que as diversas manifestações aconteciam a partir do desfile das escolas, que se tornavam uma

42

CARNAVAL etc. e tal. : Tradição. Estado de Minas, Belo Horizonte, 27 mar. 1980. 14.999, Primeiro caderno, p.12.

43

AS ESCOLAS, para ganhar ou vencer. Estado de Minas, Belo Horizonte, 20 fev. 1981. 15.327, Caderno Turismo, p.1.

44

Informação coletada no site da Prefeitura Municipal de Ouro Preto. Disponível em: <http://www.ouropreto.mg.gov.br>. Acesso em 20 de nov. de 2010.

referência. Os blocos, tendo como principal atração o Zé Pereira dos Lacaios, realizavam seu desfile em momento anterior às elas e logo após o término de sua passagem iniciavam-se os bailes nas ruas e nos clubes da cidade.

Várias são as reportagens que demostram a importância das escolas, representadas como uma das atrações mais esperadas pelos ouro-pretanos, e que, de certa forma, demarcavam os outros festejos. Uma delas, do ano de 1980, anunciava que o Centro Acadêmico da Escola de Minas, o Clube Ouro Preto, o Social Aluminas e o Aluminas de Saramenha promoveriam bailes, que começariam logo após o desfile das escolas e do Clube dos Lacaios 45.

No ano de 1981, a notícia do retorno do Clube XV de Novembro ao carnaval ouro-pretano demonstra também a relação dos bailes com a apresentação das escolas. Segundo a reportagem, a diretoria do clube, restaurado no ano anterior, cuidaria de todos os detalhes para “reviver seus bailes, que varam a madrugada de Ouro Preto após o desfile das escolas” 46. Também os blocos saíam às ruas em horário combinado com o delas, como demonstrado no trecho desta reportagem: “No sábado, eles (os blocos) estarão na Praça Tiradentes e nos outros dias apresentam-se antes do desfile oficial das escolas” 47.

Interessante perceber que, embora provavelmente houvesse um horário estipulado para esses desfiles, era pouco importante a rigidez de um tempo cronometrado. Outros exemplos, além das escolas, demonstram essa pouca preocupação com um tempo organizado ou com a divulgação do mesmo: “Bailes populares à noite e à tarde” 48; “Na virada da noite é hora dos bailes” 49. No ano de 1982, os bailes dos clubes eram anunciados “até o sol raiar” 50. As matinês aconteciam “durante o dia” e em todas as noites antes do início do carnaval as baterias das escolas saíam pelas ruas centrais.

Do conjunto de reportagens deste início da década apenas em duas havia a preocupação em divulgar o horário dos desfiles do bloco Zé Pereira e das escolas de samba, mas sem detalhes muito precisos sobre o tempo destinado a eles, atendo-se à apenas informar o início, entre 19h e 20h, e no caso de uma das reportagens, o término previsto, às 2h. Mesmo

45

SERÃO filmadas as festas de Momo em Ouro Preto. Estado de Minas, Belo Horizonte, 16 fev. 1980. 15.016, Caderno Pequenos anúncios, p.5.

46

OSWALDO, Ângelo. Carnaval em Ouro Preto. Estado de Minas, Belo Horizonte, 20 fev. 1981. 15.009, Caderno Turismo, p.1.

47 Idem. 48

CLUBE dos Lacaios: atração de Ouro Preto. Estado de Minas, Belo Horizonte, 20 jan. 1980. 14.993, Primeiro caderno, p.22.

49

CARNAVAL em Ouro Preto. Estado de Minas, Belo Horizonte, 1980. 15.327, Caderno Turismo, p.1. 50

O CARNAVAL de Ouro Preto e suas tradições. Estado de Minas, Belo Horizonte, 12 fev.1980. 15.578, Caderno Turismo, p.5.

em uma reportagem que anunciava que a festa ouro-pretana seria filmada por cinegrafistas do país e do exterior não havia a divulgação de uma programação para que os possíveis telespectadores pudessem se inteirar51.

Outros indícios também apontam a importância das escolas de samba para a festa ouro-pretana no início da década de 1980, como em uma reportagem do ano de 1982 que anunciava que a Praça Tiradentes seria “pequena para acolher milhares de foliões”, enchendo- se de “luzes e cores” para assistir aos desfiles das seis escolas concorrentes52. O detalhamento na caracterização dos desfiles e a presença de notícias periódicas sobre ensaios, premiações, verbas disponibilizadas, entre outras, também testemunhavam a favor da relevância das escolas para Ouro Preto. Após a realização do carnaval de 1980, o desfile da escola vitoriosa, Inconfidência Mineira, foi assim retratado:

[...] um show de apresentação, tanto na parte de fantasias quanto na evolução de passistas. A bateria, com Fernando no apito, foi sensacional, com um novo repique e um ritmo quente que fizeram com que o povo presente à Praça Tiradentes não poupasse aplausos à escola, aplausos, aliás, que não faltaram durante os três dias de Carnaval 53.

Em outro trecho de reportagem, também é possível pensar o que representavam as escolas e como eram noticiadas naquele momento:

Na terça-feira a ESIM levou à Praça para completar a alegoria, uma liteira carregando uma dama de antigamente. Era transportada por elementos caracterizando os escravos. Isto mostrava o tempo de Chico Rei. Além da liteira, a Inconfidência Mineira mostrou, ainda, um carro alegórico que também caracterizava o enredo e, por ter sido a última escola a desfilar, Ouro Preto teve um excelente fim de carnaval54.

O final da última frase do trecho destacado demonstra como o sucesso do carnaval estava relacionado ao desfile das escolas, ao afirmar que Ouro Preto teve um “excelente final de carnaval” com o bom desfile da Inconfidência Mineira que, posteriormente, sagrou-se campeã.

51

SERÃO filmadas as festas de Momo em Ouro Preto. Estado de Minas, Belo Horizonte, 16 fev. 1980. 15.016, Caderno Pequenos anúncios, p. 5.

52

MUITA gente procura hotéis de Ouro Preto. Estado de Minas, Belo Horizonte, 17 fev. 1982. 15.582, Primeiro caderno, p.14.

53

INCONFIDÊNCIA, campeã de OP. Estado de Minas, Belo Horizonte, 21 fev. 1980. 15.018, Primeiro caderno, p.6.

54

CLUBE dos Lacaios: atração de Ouro Preto. Estado de Minas, Belo Horizonte, 21 jan. 1980. 14.993, Primeiro caderno, p. 22.

No ano de 1983 esse destaque recebido pelas escolas é também bastante perceptível. Em uma reportagem, destacava-se que “há muito elas vem trabalhando para o carnaval e prometem maior brilhantismo ainda. [...] Têm crescido a cada ano procurando mostrar sempre entusiasmo e originalidade” 55.

A partir dessas fontes é possível perceber que, no conjunto total das reportagens desse período, falar de carnaval em Ouro Preto implicava, quase sempre, falar também das escolas de samba, devido à grande presença dessa manifestação na maior parte das notícias destinadas à festa ouro-pretana e à ênfase conferida a ela nos conteúdos dos textos e fotografias. É inegável, assim, que o desfile das escolas do Rio de Janeiro se tornaria uma grande influência do carnaval ouro-pretano neste período, mesmo com as especificidades da própria cidade e de seus moradores. Assim como as escolas de samba, o bloco Zé Pereira dos Lacaios também teria sua origem no carnaval carioca, tema do próximo subitem.

No documento O carnaval de Ouro Preto: mercado e tradição (1980-2011) (páginas 45-51)