A formação do pesquisador na universidade
Princípio 9: a escrita como instância que pode levar o sujeito a criar um “si”
A escrita me interessa, posto que penso que é por meio desses pedacinhos de escrita que, historicamente, entramos no real, a saber, que paramos de imaginar. A escrita de letrinhas matemáticas é o que suporta o real.
(LACAN, 1975-76, p. 66).
Nosso trabalho está baseado em uma concepção de escrita como uma construção que pode fundar um “si”. Assim, a escrita pode se configurar como um poderoso dispositivo de transformação da relação que a pessoa estabelece com sua palavra, à condição de que aquele que escreve não se limite a encarar o ato de escrever como o cumprimento de uma tarefa burocrática. Retomando a alusão feita por Riolfi (2003), escrever, no sentido que estamos desenvolvendo, é visto tal qual a ação do ouvires que, artesanalmente, trabalha, modela e refina a peça que quer criar.
Realizado de modo implicado, o ato de escrever torna-se o passaporte para a conquista de um nome e de um “si mesmo”. Se a pessoa que escreve não cede ao seu desejo (LACAN, 1959-60) frente à irrupção do Real, vai perceber que existe mais em seu mundo sensorial do que ela consegue expressar por meio das palavras. Vai perceber que ela não se limita a todos os nomes que lhe foram oferecidos na convivência social. Por esse motivo, acabará concluindo pela necessidade de inventar um “si”, um modo de expressão singular que pode inscrever no mundo.
Podemos dizer, então, que, por configurar-se numa sublimação, a escrita pode ser entendida como um dos quatro destinos possíveis para dar vazão à pulsão, tal como descrito por Freud (1915). Os outros três seriam a reversão ao seu oposto; o retorno em direção ao seu próprio (self) do indivíduo e a repressão. A sublimação, diferentemente dos outros três destinos (que são sexualizados), ocorre quando a pulsão encontra satisfação em alguma realização que não é mais diretamente sexual, mas substitutiva, como, por exemplo, escrever, cozinhar, ensinar etc.
Para Gérard Pommier (1992, p. 165), a sublimação não é o fundamento de uma elite artística, mas “uma criação necessária à existência: desenhar, cantarolar e dançar são atividades inevitáveis de um corpo que se guarda de se perder”. Ela gera um produto, que, ao permitir o surgimento de uma assinatura, proporciona à pessoa que criou uma obra, o advento de um “si mesmo” separado da superfície corporal.
Nessa concepção, sublimar a pulsão não é um destino para alguns escolhidos, mas para todos aqueles que estão e querem se manter vivos. Para tanto, um dos requisitos necessários é a pessoa se dar conta de que tem um corpo e de que pode escolher os modos como, preferencialmente, vai satisfazê-lo. O ato de escrever, para aqueles que decidem levá-lo a cabo, pode fixar uma identidade no sujeito e proporcionar-lhe um nome. De um pesquisador desconhecido, por exemplo, a pessoa pode passar a ter um nome reconhecido na comunidade universitária, como aquele que escreveu o trabalho X, Y ou Z.
Para Pommier (1992), a sublimação provoca um movimento duplo: ao mesmo tempo em que a pessoa se satisfaz no nível pulsional, faz a ação por meio da qual seu trabalho se realiza. Assim, uma pessoa pode, a partir desse “combinado”, acabar constituindo-se como sujeito. Paralelamente, como consequência do seu ato, obtém satisfação pela ação de criar, satisfazendo a pulsão. Leiamos as palavras de Pommier (1992, p. 166), que merecem a citação:
Aquele que faz, se faz: pintar engendra o pintor, escrever produz o escritor, e uma identidade e um ser são fixados no progresso da ação. Essa identidade do ser, esse momento de adaptação perfeita que é o horizonte do agir tem uma significação essencial, a do gozo. No tocante a isso, todo aquele que age assume um sério risco, o de ter êxito em seu ato.
Nessa perspectiva, a sublimação é um modo de satisfação feito por quem consegue negociar com a energia e com a pressão exercida pela pulsão. Retomando o que Freud escreveu no texto de 1930, seria um modo do ser humano, por meio da criação de uma obra, se salvar, construir um abrigo para si.
A nosso ver, a escrita em contexto universitário pode se configurar como um ato em que aquele que escreve invente “um si” e possa materializá-lo no texto. Sabemos que nem todos têm condições cognitivas, estão dispostos ou têm coragem para levar adiante o esforço necessário para tal fim ou para suportar o tempo exigido que, para cada um, é diferente.
Como colocado por Riolfi e Barzotto (2011), a relação entre o trabalho de textualização necessário para a escrita de um “si” e o sujeito que escreve é um inferno. Assim, na lida com a escrita, o pesquisador pode escolher seguir diferentes caminhos. A esse respeito, o trabalho de Riolfi (2011, p. 26-29) nos é caro, pois a autora descreve quatro estações que “aquele que se dispõe a aprender a escrever deve atravessar para sair do inferno” da escrita. Vejamos quais são elas:
1) A escrita cosmética – trata-se de uma escrita inócua, que não causa transformação em quem escreve. Eis a escrita daquele que se sente esmagado pela demanda de escrita e, dado o opaco sistema linguístico-discursivo de seu texto, tenta maquiá-lo com palavras bonitas, citações, de modo a criar uma superfície textual “bela aos olhos do outro”. Trata-se da escrita para cumprir o protocolo universitário;
2) A escrita crítica – é uma escrita que faz sofrer, sem, no entanto, ter a força de provocar transformar naquele que escreve. Nessa estação, a pessoa se sente perseguida por aqueles que lhe demandam a escrita e coloca-se em posição de vítima, de impotente. Sucumbe-se em uma grande angústia paralisante. Caso chegue a escrever algumas páginas, destrói sua produção, avaliando-a com indigna. Teme o não saber e o que o encontro com a página em branco pode lhe causar.
3) A instalação do trabalho da escrita – nessa fase, a pessoa entrega-se ao não saber e é desde esse lugar que o texto se tece. A pessoa se permite sofrer os efeitos da escrita em seu corpo. Independentemente da demanda externa, é insistente em trabalhar para encontrar os melhores termos, a melhor construção para que sua ideia seja
arquitetada e dada a ver no papel. Como colocado por Riolfi (2003), a pessoa abre-se para um processo duplo, um trabalho sobre a linguagem e da linguagem. Por um lado, é o sujeito quem trabalha para construir uma ficção textual que seja reconhecida na comunidade onde quer se inserir e, por outro, é a escrita, como instância que privilegiada que pode tocar o Real, que exerce efeitos sobre aquele que com ela está operando. Mesmo que “pontualmente, ao se deparar com um ‘si mesmo’ em seu texto que ainda não conhecia, quem escreve se percebe singular [...], diferente inclusive de si próprio”. (RIOLFI, 2011, p. 29)
4) A responsabilidade pela obra e a sustentação de um nome de autor – nesse ponto, chega-se ao último estágio da construção de um si, de nome próprio. “Trata-se da escrita é produzida tendo como interlocutor primeiro aquela parcela do ‘si próprio’ que pôde ser reconhecida e batizada com o nome apropriado para chamar a vida” (p. 29). A autora explica que independente da pessoa vir a se tornar um escritor, a escrita causou- lhe uma mutação no modo como a pessoa usa a sua palavra, sua história, sua vida. Enfim, trata-se de tocar o Real, de atravessar com coragem o seu inferno particular, suas inibições, seu não-saber. Quem chega a esse lugar, “passa a poder experimentar o ato de escrever no registro do entusiasmo, da alegria de ser fiel ao seu desejo inconsciente, de onde não mais cederá” (RIOLFI, 2011, p. 30).
Quando ingressa na pós-graduação, o pesquisador sabe que, sem a escrita, não conseguirá finalizar seu curso. Nossas quatro informantes sabiam dessa exigência, feita logo no edital de inscrição para o programa de mestrado. Mas, o que percebemos ao analisar os dados que compõem esta tese é que, provavelmente, não calculavam os efeitos que a escrita causaria em cada uma delas. Assim, buscamos mostrar a existência de uma escrita como registro das incertezas, das angústias, do aprendizado, da insistência, enfim, resultado da transmissão do amor pelo Real e como tentativa da construção de um si.