4 PLÁGIO, AUTORIA E ESCRITA
85 FOUCAULT, 1970/2004 86 AUTHIER-REVUZ, 1998.
4.3 ESCRITA E AUTORIA
Foucault, em O que é um autor? logo no início do texto, faz uma observação quanto à ‘morte do autor’, propalada especialmente pela crítica literária nos anos 60. Ele afirma que não se faz necessário “constatar uma vez mais o seu desaparecimento” (p.1), mas sim compreender o lugar deixado vazio pela sua ‘morte’. O que significa em suas palavras:
Trata-se em suma de retirar do sujeito (ou de seu substituto) seu papel de fundamento originário, e de analisá-lo como uma função variável e complexa do discurso [...] Definir de que maneira se exerce essa função, em que condições, em que campo etc., isso não significa, convenhamos, dizer que o autor não existe. (1969, p.35).
Essa tese da morte do autor, nessa perspectiva, não se caracteriza como um manifesto que reivindica o seu total desaparecimento, mas como um ‘assassinato’ do autor em seu fundamento de origem.
Barthes (1969/2004) chama atenção para o trabalho da escrita em detrimento do autor. Este, defende, enquanto individualidade empírica, precisa morrer para que a escrita nasça. A origem estaria na própria linguagem, o que, segundo ele, coloca em causa a própria origem. Escrever seria tecer signos, misturar outras escritas, imitar retrospectivamente ad infinitum.
Para Lagazzi-Rodrigues (2010, p.90),
Foucault e Barthes reconhecem na relação entre as palavras, entendidas como espaços significantes, a possibilidade de o texto ir tomando sua forma, configurar-se como unidade significativa.
Nessa perspectiva, se a origem está na própria linguagem e não no autor, é na própria formulação do texto, em sua escrita, que o sentido se constitui. A escrita, desse modo, assume um papel importante na constituição da autoria e do texto. Assim como língua e sujeito se constituem ao mesmo tempo, autor e texto também o fazem por meio da prática da escrita (2010). Dessa forma, o autor não tem precedência em relação ao texto; não podendo, assim, ser considerado como sua origem.
A escrita possibilita a representação da linguagem em uma superfície espacial. A fixação da escrita em um espaço, segundo Auroux (1998, p.90), “permite ultrapassar a linearidade em proveito da bidimensionalidade”. Ou seja, à diferença da produção oral que se lineariza no tempo e se volatiliza no ato mesmo de sua enunciação, a escrita, por seu caráter bidimensional, possibilita que o texto seja lido não linearmente – ao fazê-lo, pode-se saltar frases, parágrafos e páginas.
Um texto em seu formato escrito, sendo ele constituído de apenas um rascunho, uma primeira versão que está por finalizar, quando de sua leitura por parte de seu próprio autor, torna possível que se raciocine sobre o que se escreveu.
Fazendo isso, podem-se estabelecer relações entre um conjunto de formulações e não mais apenas entre buracos de memória. Formulações tomadas em sua linearidade, ou então, espacialmente distantes. Em ambos os casos, o autor pode decidir por aproximar ou inverter a ordem de frases e de parágrafos, por exemplo.
O efeito de leitura dessas formulações em sua linearidade ou em proveito da bidimensionalidade “se produz não no retorno à origem, mas no espaço simbólico criado no próprio texto” (SCHONS, 2005, p. 140).A atualização das formulações tem como efeito uma nova virtualização – novos sentidos se potencializam; o texto ele mesmo cria um novo espaço de memória passível de se relacionar com outros ditos. Nas palavras de Silva (1998, p. 178), “a escrita, enquanto tecnologia altamente potente para produzir realidades, para organizar e enquadrar as coisas em um campo com limites aparentemente preestabelecidos, pode também – talvez, por esta mesma potência – produzir realidades outras e estabelecer novas relações entre as palavras e as coisas, entre os homens e o mundo por ser, antes de tudo, um espaço de linguagem”. Escrever é colocar a linguagem em funcionamento e é, sobretudo, uma forma de ser da linguagem, que não cessa de produzir sentidos. A escrita como forma de fixação da linguagem em forma de texto permite o estabelecimento de relações entre significantes; cria-se, dessa forma, uma ordem simbólica que diz respeito ao funcionamento da própria unidade significativa do texto.
Nesse sentido, entendemos ser interessante tomar a escrita enquanto instrumento científico e não enquanto técnica. Lembramos aqui a distinção proposta por Pêcheux (1966/2011) entre prática técnica e prática científica.
À época, o autor objetivava fornecer às ciências sociais um instrumento científico, alegando que estas ainda se encontravam em estado pré-científico. Ele defende que, para uma ciência se constituir enquanto tal, seria imprescindível que ela operasse a partir de instrumentos científicos, à diferença de trabalhar na continuidade em relação às práticas técnicas.
Do ponto de vista de Pêcheux (1966/2011), deve-se compreender que a prática técnica “se efetua tendo em vista o produto, ou dito de outra forma, que a técnica tem uma estrutura teleológica externa: ela vem preencher um desejo, uma falta, uma demanda que se define fora da própria técnica” (p. 28). A técnica responde a uma demanda social, relacionada a um modo de produção específico, por exemplo: a ferraria artesanal seria uma resposta à demanda da sociedade agrícola feudal. À
diferença das práticas técnicas, os instrumentos não podem ser concebidos exteriormente à teoria científica, mas como participantes da própria arquitetura conceitual de um aparato teórico específico.
A escrita, nessa perspectiva, não funcionaria como a exteriorização de um pensamento acabado sobre determinado objeto, mas como um artefato constitutivo da pesquisa, que, a partir de sua textualização, colocaria novas questões para o pesquisador/autor91. A prática da escrita, desse modo, interviria no fazer científico,
participando de seu processo, como um instrumento presente em todo o trabalho de pesquisa. Aqui assumimos a posição de Orlandi (2001b, p. 49) no que tange ao modo como ela pensa a escrita da Análise de Discurso:
A escrita é tão importante quanto a teoria porque ela vai formular a relação significativa elaborada entre os dois dispositivos [teórico e analítico] que resultará, em um primeiro momento na compreensão do objeto simbólico, e em um segundo tempo, em tornar visível para o leitor o movimento da compreensão do analista e, em decorrência, a sua própria posição na interpretação.
Orlandi desloca o estatuto da escrita, pois não a pensa como algo subordinado à teoria, como se fosse um artifício de apreensão desta última. A escrita, para ela, torna possível a compreensão do objeto simbólico, que se dá em um processo de movimentar-se entre o dispositivo teórico e analítico. Essa posição teórica vai ao encontro do que defende Zoppi-Fontana (2013b), quando afirma que “quando se trata da área das ciências humanas e sociais […] a escrita é parte constitutiva do próprio processo de produção do conhecimento teórico e analítico” (p. 131).
Nessa perspectiva, sendo a escrita compreendida como um instrumento científico, ela participa de modo variável no que diz respeito a campos disciplinares diferentes. Ou seja: seu funcionamento não é o mesmo em diferentes ciências. Para nós, isso se constitui de fundamental importância no que diz respeito às atuais condições de produção científicas, em que a escrita é significada como uma técnica, uma vez que seu funcionamento é compreendido externamente aos domínios científicos, e, por conseguinte, a autoria é homogeneizada. Esse reducionismo, como já vimos ao longo do capítulo, pauta-se nos efeitos dos seguintes pré-construídos: o
texto é uma peça informativa, a escrita consiste na comunicação de resultados, a língua é um instrumento de comunicação transparente e objetivo, e o autor apenas assina o texto (ZOPPI-FONTANA, 2013b). Nesse contexto, os processos de textualização são desvinculados dos “processos de produção do conhecimento: teoria, análise, experimentação e descobertas se dariam por processos anteriores e independentes à escrita e divulgação de resultados” (p. 131). Dessa forma, nega-se a função-autor, ao se dar relevo apenas ao nome do autor. Ou seja: pensando a autoria apenas como uma assinatura do texto, silencia-se a inscrição subjetiva que se trata de
Um investimento simbólico a partir de um gesto de interpretação que inscreve o sujeito em uma rede de filiações de sentido (aí incluídas as tradições de pesquisa das disciplinas e das instituições que determinam a produção do conhecimento científico). (p. 133).
Ao silenciar-se o processo de produção do texto científico, silencia-se também o processo de produção do conhecimento específico aos campos disciplinares. O produto textual seria o mesmo independente do domínio científico. Sendo assim, ser autor, nesse contexto, consiste em dominar uma técnica textual, que funcionaria como uma receita única.
Tendo em vista isso, ressaltamos a importância de se considerar a constituição da autoria como um fazer específico ao campo disciplinar em que é praticada, de modo a não restringi-la ao âmbito jurídico, que a regula apenas do ponto de vista formal do texto.