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“Esporte social” e esporte como direito social

As diferentes tarefas atribuídas ao esporte adquiriram visi- bilidade perante a sociedade por meio do exemplo de diversos atletas e ex-atletas bem-sucedidos que passaram a atuar em

nome da transformação da realidade de crianças e jovens “ca- rentes” por meio de projetos esportivos (SILVEIRA, 2006). So- mente com fins de ilustração desse panorama, pode-se citar como exemplo: Instituto Ayrton Senna, Instituto Guga Kuerten, Instituto Dunga de desenvolvimento do cidadão, Instituto be- neficente Romário de Souza Farias, Instituto bola pra frente, Fundação gol de letra, Fundação Cafu, Instituto Jackie Silva, Instituto Rexona de esporte e Instituto Canhotinha de ouro¹.

No entanto, a citada associação entre “esporte social” e transformação social vem sendo realizada predominantemente sem levar em consideração uma série de questões de ordem conceitual e, logicamente, de ordem social. A abordagem que reveste o esporte na presente perspectiva pode ser considerada como utilitarista ou, ainda, como salvacionista.

A atribuição esportiva que parece ter se legitimado há mais tempo na sociedade foi o velho discurso entre a sua prática e a “promoção da saúde”. Esse é um discurso muito sedutor, ain- da hoje, mesmo no âmbito da Educação Física, mas o seu grande destaque está no consenso produzido pela frase “espor- te é saúde”, com presença marcante nos meios de comunica- ção de massa. Tal discurso carrega consigo uma perspectiva de saúde ligada a fatores comportamentalistas, isto é, afirma que a saúde é resultado da mudança de hábitos individuais.

Ao esporte também foi atribuída a função de manter as crianças e jovens afastados do mundo das drogas e da

1 Instituto Ayrton Senna (Tricampeão mundial de Fórmula 1), Instituto Guga Kuerten (Tenista tricampeão

do torneio de Roland Garos), Instituto Dunga de desenvolvimento do cidadão (Dunga é ex-jogador de futebol, Campeão mundial pela seleção brasileira em 1994, atualmente técnico da seleção brasileira de futebol), Instituto beneficente Romário de Souza Farias (Romário é jogador de futebol, campeão mundial pela seleção brasileira em 1994), Instituto bola pra frente (Sob responsabilidade de Jorginho e Bebeto, ex-jogadores de futebol, campeões mundiais pela seleção brasileira em 1994), Fundação gol de letra (sob responsabilidade de Raí e Leonardo, ex-jogadores de futebol, campeões mundiais pela seleção brasileira em 1994), Fundação Cafu (Jogador de futebol, campeão mundial pela seleção brasileira em 2002), Instituto Jackie Silva (Jaqueline é ex-jogadora de vôlei de praia, campeã olímpica em 1996), Instituto Rexona de esporte (sob responsabilidade de Ana Moser, ex-jogadora de voleibol), Instituto Canhotinha de ouro (sob responsabilidade de Gérson, ex- jogador de futebol, campeão mundial pela seleção brasileira em 1970).

criminalidade, responsabilizando-o pelo disciplinamento da ju- ventude ociosa, uma vez que predomina em nossa sociedade uma visão preconceituosa de que jovem pobre é sinônimo de criminoso em potencial. Assim,

[...] o esporte seria o “antídoto” perfeito para coibir tais práticas, uma espécie de analgésico social, sempre numa perspectiva conservadora de controle social (MELO, 2005, p. 82).

Uma das atribuições que também assumiu grande desta- que no senso comum foi a caracterização do esporte como passaporte para a ascensão social. Isso se concretiza, sobretu- do, no exemplo dos milhares de meninos que sonham em ser jogadores de futebol profissional e, assim, adquirirem estabili- dade financeira. Isso se dá, provavelmente, porque o esporte moderno traz consigo a ideia do “igualitarismo” inerente à prá- tica esportiva, por ser uma “ordem social fundada em regras universais aplicadas a todos” (ZALUAR, 1994, p. 88); e, além disso, a promessa de “integração social”, alimentando, assim, nas crianças e jovens das classes sociais empobrecidas o “so- nho” e a ilusão de se converterem em atletas de alto nível e, consequentemente, de “ascensão social” para saírem do qua- dro de vulnerabilidade e risco social a que são submetidas co- tidianamente pela lógica destrutiva do capital. Em síntese, a promessa de ascensão social através do esporte pode criar nas crianças e jovens o mito da possibilidade ilusória de um melhor lugar no “podium” da divisão social de classe.

Outra tendência diz respeito ao esporte como promotor da inclusão social. Mas, primeiramente, quando se fala de in- clusão, é preciso se perguntar onde se quer incluir os excluídos. Nesse caso, apesar de se ter conhecimento que no mundo neoliberal não há lugar para todos, é interessante, aqui, incluir

as pessoas desde que elas não alterem o quadro de dominação existente. Dessa maneira, percebe-se como a inclusão social não supera os limites de uma expressão vazia de sentido, devi- do a sua fragilidade teórica e por ter se tornado um “jogo de palavras” que promete muito e nada pode cumprir.

Acerca da promoção da cidadania, contempla-se um ce- nário bastante próximo do que foi tratado na inclusão social. Ou seja, tal termo também passa por um processo de banalização. É possível constatar claramente o esvaziamento de seu sentido, uma vez que a cidadania engloba cada vez mais um número maior de ações de ordem social. Nessa lógi- ca, cidadania é sinônimo de ações que tirem as crianças e jovens da rua; é sinônimo também de qualquer ação solidária, de filantropia empresarial, etc. De acordo com Melo

[...] este termo se tornou auto-explicativo (sic). Está na moda. Sua densidade conceitual, sua carga de enfrentamento à ordem desigual e o seu processo de conquista, que sempre implicou lutas por direitos de diversas ordens, foram mimetizados a um discurso sem sentido (MELO, 2005, p. 80).

O que parece esmorecer neste processo de banalização é a desconsideração do esporte como direito social, conquistado a duras penas como dever de Estado e direito do conjunto dos cidadãos. Cidadania perde o seu caráter de conquista e passa para a esfera da assistência ou mesmo do consumo. As políti- cas esportivas estatais são minimizadas, abrindo espaço para a atuação do chamado “terceiro setor”, para por meio do “es- porte social” atender a tal prerrogativa de crianças e jovens.

Assim, pode-se destacar que, por meio de tais ações na esfera da responsabilidade social e das ONGs, o esporte chega a ser utilizado como atividade de substituição a outros direitos sociais, dos quais as populações atendidas encontram-se desti-

tuídas. De acordo com Zaluar (1994), a emergência de progra- mas e projetos esportivos endereçados às populações de menor poder aquisitivo guarda estreita relação com os graves proble- mas que afetam a sociedade brasileira.

É necessário compreender que programas que utilizam o esporte como carro-chefe da questão social, por si, jamais se- rão capazes de resolver todos os problemas sociais. Isso por- que o mesmo não pode ser tratado como solução para proble- mas que requerem ações de ordem política muito mais incisivas do que realmente a criação de tais programas. E mais, tal tendên- cia apenas contribui para o ocultamento da real gênese desses problemas que, supostamente, se tenta enfrentar (MELO, 2005).

O “esporte social” no Âmbito do Instituto