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5. O PROTOCOLO DE MADRID É EFICAZ?

5.1 ELEMENTOS DE EFICÁCIA

5.1.1.2 Estado de conhecimento

Muito já se conhece sobre os impactos ambientais diretos causados pela ocupação do continente antártico. Em seus estudos, Tin et al. (2014) mostram uma série de trabalhos que abordam a relação entre a ocupação da Antártida e seus impactos decorrentes. Segundo os autores, é possível apontar alguns comportamentos nocivos ao meio ambiente antártico, tais como: o desrespeito por parte de alguns países membros às áreas de reprodução e criação de ninhos de algumas espécies de animais para a construção de estações; é possível encontrar algumas espécies de pinguins emaranhados à materiais de construção, como fios e arames (ver Woehler, 1990); percebeu-se a redução das atividades de reprodução da espécie de petrel painho-de-wilson (Oceanites oceanicus) causada por instalação de bases próximas a seu habitat; e distúrbios físicos no solo, destruição de vegetação e presença de metais e hidrocarbonetos aromáticos ao redor das estações, provindos de processos de combustão e derramamento de óleo. Assim, de acordo com Bargagli (2005 apud Tin et al. 2014), alguns desses rejeitos irão permanecer no gelo da Antártida por milhares de anos. Outros impactos antrópicos podem ser encontrados no quadro 4.

Quadro 4. Relação de impactos antrópicos conhecidos no meio ambiente antártico e em seus

ecossistemas adjacentes. (Continua)

Impactos Exemplos Atividades

Poluição química - Hidrocarbonetos - Poluentes orgânicos persistentes (POPs) - Metais pesados - Pó de cimento - Emissões de escape - Fluidos de perfuração

- Construção e operação das estações de pesquisa

- Poluição remanescente das estações de pesquisas e outras estruturas abandonadas - Depósitos de combustíveis

- Emissões e vazamentos de combustível provindos de aeronaves, navios e veículos terrestres

- Poluição marinha oriunda de locais de despejo em desuso

Poluição por esgoto

- Esgoto

- Águas residuais de chuveiros, cozinhas e lavanderias

- Embarcações turísticas e das operações antárticas - Navios pesqueiros - Estações de pesquisa - Estações turísticas Distúrbio da flora - Pisoteio de vegetação - Destruição de habitats - Visitas turísticas - Pesquisas de campo

- Construção de estações e outras infraestruturas

- Coleta excessiva de amostras

- Coletas indiscriminadas de amostras próximas às estações, laboratórios ou em determinados locais remotos onde a quantidade de vegetação é baixa Fonte: Grant et al.(2012) – adaptado.

Quadro 4. Relação de impactos antrópicos conhecidos no meio ambiente antártico e em seus

ecossistemas adjacentes. (Conclusão)

Impactos Exemplos Atividades

Distúrbio da fauna

- Ruídos subaquático produzidos por navios

- Motores das embarcações

- Explosões subaquáticas utilização de equipamentos hidroacústicos para pesquisa, navegação e mapeamento marinho

- Destruição de habitats e de locais de reprodução

- Construção de estradas e outras estruturas anexas às estações

- Coleta excessiva de amostras - Coletas indiscriminadas de amostras de

animais próximas às estações

- Aproximação humana - Visitas turísticas

- Manejo de animais com

propósitos experimentais - Pesquisas científicas

- Poluição sonora

- Construção de estações e outras infraestruturas

- Pouso, decolagem e sobrevoo de aeronaves

- Poluição luminosa - Iluminação artificial proveniente dos navios e

das estações

- Colisões - Colisões de navios com baleias e focas

- Colisões de aeronaves com pássaros - Acidentes com detritos

- Emaranhamento de animais com detritos marinhos, como embalagens plásticas e com restos de materiais de construção de estações abandonadas

Introdução de espécies exóticas

- Transferência de espécies não endêmicas para a Antártida e regiões sub-antárticas

- Introdução de espécies não nativas,

principalmente marinhas, através de espécies associadas ao casco dos navios e pela descarga de água de lastro

Diminuição de espécies marinhas

- Pesca ilegal, não-reportada ou

não-regulada - Diminuição das espécies caçadas

- Pesca legal/científica - Diminuição das espécies caçadas

- Mortandade acidental

- Morte de pássaros aquáticos associadas à prática da pesca com palangre

- Danos físicos à habitats e espécies bentônicas causadas por pesca de fundo - Captura acidental de espécies não desejadas

Fonte: Grant et al.(2012) - adaptado.

Ainda assim, os efeitos e a extensão das atividades humanas sobre o continente antártico ainda não são muito claros. Isso se deve ao fato de que nem sempre os impactos ambientais são aparentes. Muitas vezes estes podem não ser detectados graças à falta de monitoramento ou à ocorrência de fenômenos naturais que podem mascará-los (Tin et al., 2014). Joyner (2011) defende o argumento de que a saída para diminuir essas incertezas seria o estabelecimento dessas questões como prioridade por parte dos países que possuem um histórico de liderança científica, como Estados Unidos, Rússia, Austrália, Reino Unido, Japão e Alemanha.

Outros fenômenos cujos efeitos ainda não são cientificamente claros na região antártica são as mudanças climáticas, conforme mencionado anteriormente.

Diversos programas antárticos de vários países possuem como foco o estudo de questões referentes ao clima. Em se tratando das atividades na Antártida, essas pesquisas na região se mostram importantes em decorrência não só dos seus efeitos físicos, que se poderão repercutir ao redor do planeta, como também terão uma série de implicações para as atividades na Antártida e para com os objetivos compartilhados no âmbito do Tratado Antártico e do Protocolo de Madrid (RCTA, 2012).

Em 2009 o SCAR divulgou o Scar’s Antarctic Climate Change and Environment (ACCE) Review Report, o qual faz uma previsão sobre as mudanças que ocorrerão nas dinâmicas que regem a região antártica caso o cenário de mudanças climáticas venha a corresponder às expectativas do Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) até o ano de 2100. O estudo utiliza modelos para expor a influência das mudanças climáticas na ocorrência de precipitações, na camada de ozônio, na composição química da troposfera, na criosfera terrestre, no nível do mar, na bioquímica, nas correntes oceânicas, no gelo do marinho, no pergelissolo e nas dinâmicas biológicas marinha e terrestre. Contudo, apesar do corpo científico do Tratado da Antártida afirmar que algumas dessas estimativas podem ser consideradas razoáveis, o documento admite que muitos estudos ainda precisam ser feitos e encoraja que os programas antárticos nacionais estimulem o desenvolvimento de pesquisas interdisciplinares sobre os efeitos das mudanças climáticas na Antártida.

Contudo, é inegável o aumento do aporte de conhecimento técnico-científico sobre o meio ambiente antártico e seus ecossistemas adjacentes adquirido durante os anos em que o Protocolo está em vigor.

Apesar disso, Barnes (2011) aponta certa desorganização no sistema de troca de informações do STA, sendo essa uma das bases do Tratado da Antártida, em virtude da falta de comprometimento por parte de alguns países membros em divulgar informações importantes. Indubitavelmente, muitas dessas informações são de caráter ambiental e o atraso ou a não da divulgação desses dados podem comprometer não só a dinâmica das reuniões, como futuras descobertas científicas.

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