ESTADOS E OPERADORES ASPECTUAIS
1. Estados vs Eventos.
♦ Somente os estados podem surgir sob o escopo do operador aspectual passar a. ♦ Somente os estados (e culminações) são de todo incompatíveis com operadores
como parar de e acabar de.
♦ Somente os estados ostentam uma leitura preferencial de "presente real" quando comparecem com o Presente do Indicativo.
♦ Somente os estados (mesmo se combinados com o Pretérito Perfeito) ostentam uma leitura preferencial de inclusão dos eventos da oração principal no contexto de orações subordinadas temporais introduzidas por quando.
2. Estados "Faseáveis" vs. Estados "não faseáveis",
♦ Somente os estados "não faseáveis" se mostram incompatíveis com operadores aspectuais como estar a, andar a ou começar a,
♦ Somente os estados "não faseáveis" estão impedidos de surgir em construções que, de alguma forma, suponham frequência ou habitualidade, ocasionando, por conseguinte, anomalia semântica com expressões que remetam para leituras desse teor (Ex.: frequentemente, habitualmente, etc.).
♦ Somente os estados "não faseáveis" estão impedidos de comparecer, no Pretérito Perfeito, em orações principais de construções temporais envolvendo quando.
3. Estados de Indivíduo vs. Estados de "Estádio".
♦ Somente os estados de "estádio" parecem não estar sujeitos a quaisquer
restrições adicionais no que toca às suas possibilidades combinatórias com adverbiais de duração e de localização temporal.
♦ Somente os estados de "estádio" podem ser "quantificados" com o recurso a expressões como sempre que, todas as vezes que, etc.
♦ Somente os estados manifestamente de "estádio" parecem revelar certas dificuldades de ocorrência com o operador passar a.
♦ Somente os estados de "estádio" se compatibilizam com adverbiais pontuais, produzindo uma interpretação preferencial de "inclusão" do adverbial no (tempo da) situação.
Para além dos critérios distintivos já apontados, existem outros que, embora de forma menos directa, podem ser de alguma utilidade para a determinação do carácter estativo de uma predicação. Referimo-nos, especificamente, aos designados "testes" de agentividade (cf. 2.2.2.) e aos dados referentes à conjugação dos estados com adverbiais temporais (cf. 2.2.4.),
Observemos, na esteira de autores como Binnick (1991), que a grande maioria dos comportamentos linguísticos descritos ao longo da presente secção pode ser encarada como o resultado ou a consequência natural das diversas propriedades que atribuímos às formas estativas. Nesse sentido, o carácter durativo e atélico deste tipo de situação está espelhado nas suas possibilidades combinatórias com os adverbiais temporais, enquanto o seu padrão de ocorrência face aos "testes" de agentividade, aos operadores aspectuais e às orações com quando se relaciona estreitamente com a manifesta ausência de traços de dinamismo e com a estrutura "uniforme" que ostenta.
Importa, finalmente, sublinhar que cada "teste", por si só, não comporta quaisquer indicações de carácter definitivo nem poderá conduzir, isoladamente, a resultados de todo conclusivos acerca do estatuto categorial de uma predicação; apenas a interacção conjugada dos diversos critérios envolvidos permite uma avaliação completa e rigorosa para a detecção das marcas de estatividade eventualmente presentes num enunciado.
CONCLUSÕES
O capítulo que agora encerramos foi quase exclusivamente dedicado à elucidação de algumas questões preliminares que "gravitam" em torno do conceito de estatividade. Poderemos retirar as seguintes conclusões.
• Os linguistas que investigam a complexa problemática do Aspecto parecem ser unânimes em considerar os estados como eventualidades caracterizáveis através dos traços [-dinâmico], [+durativo] e [-télico].
• O conjunto formado pelas predicações estativas está longe de se constituir como uma classe inteiramente homogénea; pelo contrário, engloba em si estruturas que manifestam comportamentos linguísticos algo divergentes, sendo, por isso, desejável estabelecer e caracterizar subclasses no interior da referida categoria. • No que toca à natureza dos elementos linguísticos que suportam a estatividade, é
possível distinguir entre estados lexicais, estados derivados da aplicação de operadores e de "perspectivadores" aspectuais, estados resultativos, estados habituais, etc. Todos eles podem ser de carácter [+faseável], se convertíveis em processos, ou [-faseável], se incapazes de sofrer comutações no interior da Rede Aspectual. Para além disso, estaremos perante estados de indivíduo, nos casos em que se verifique uma referência directa a entidades desta natureza, ou de "estádio", sempre que a predicação é efectuada sobre "porções" ou "partes" de indivíduos espacio-temporalmente estruturadas.
• As diferentes subclasses de estativos interagem entre si, permitindo uma descrição mais adequada da multiplicidade de formas linguísticas e da variedade de configurações em que se encontram envolvidas. Por outro lado, a introdução de um conceito como o de "faseabilidade" possibilita uma melhor compreensão da relação entre estados e eventos ao estabelecer uma "ponte" entre estes dois tipos de situação.
• Existe um vasto conjunto de "testes" linguísticos para a estatividade, capazes não só de demarcar a fronteira entre estados e eventos, mas também de detectar as oposições que se estabelecem entre estados "faseáveis" e "não faseáveis" e entre estados de indivíduo e de "estádio". Estes "testes" incluem divergências de
comportamento no que respeita a verbos de operação aspectual e a adverbiais temporais, diferenças interpretativas face a certos tempos gramaticais, como o Presente do Indicativo, e a orações introduzidas por quando.
• Verificámos que "testes" tradicionalmente utilizados para a determinação da estatividade revelam fragilidades evidentes ao nível da sua aplicação concreta. Referimo-nos, particularmente, aos designados "testes" de agentividade, que se mostraram pouco operativos no que respeita à distinção entre estados e eventos. Com efeito, observámos que toda e qualquer classe aspectual pode ser agentiva ou não agentiva. No entanto, o recurso ao critério em questão não deverá ser totalmente descartado na medida em que, em casos particulares, desempenha um papel crucial na detecção da presença de marcas de estatividade (por exemplo no que se refere às formas progressivas).