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4.3 POLÍTICAS INCLUSIVAS NO ÂMBITO PÚBLICO

4.3.5 Estatuto da diversidade sexual e de Gênero

O Estatuto da Diversidade Sexual e de Gênero é um projeto da Comissão Especial da Diversidade Sexual e de Gênero da OAB em parceria com diversos movimentos sociais, que reúne uma série de direitos à comunidade LGBTQI+. O anteprojeto de lei apresentado pela comissão bem resume o Estatuto:

37“A ATENTO BRASIL é das maiores empregadoras de pessoas TRANS no mundo - de 78 mil funcionários, somente no Brasil, mais de 1.300 são pessoas que se autodefinem como transgêneras.” (PORTAL TRANSEMPREGOS, 2018, n.p.).

O Estatuto da Diversidade Sexual E Gênero além dos princípios traz normas de natureza civil e penal, que asseguram uma série de prerrogativas e direitos a homossexuais, lésbicas, bissexuais, transgêneros e intersexuais. Do mesmo modo impõe o reconhecimento jurídico das uniões homoafetivas e criminaliza a homofobia, além de apontar políticas públicas de inclusão (OAB, 2017).

A sugestão da OAB, traduzida no presente anteprojeto, foi acolhida pelo Senado Federal, por meio da Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa, que editou o Projeto de Lei do Senado nº 134, de 2018, que institui o Estatuto da Diversidade Sexual e de Gênero. A proposta teve mais de cem mil apoiadores, o que demostra os interesses sociais na

consagração de direitos ao segmento LGBTQI+. A iniciativa do projeto, de acordo com a exposição de motivos da Comissão organizadora, se deu em razão da omissão legislativa e pela necessidade de reunião, em um diploma normativo coeso, dos direitos relacionados à orientação e à identidade de gênero, muitos deles já garantidos pela via judicial (OAB, 2017).

O objetivo maior do estatuto não é garantir à comunidade LGBTQI+ uma série de privilégios ou vantagens, mas assegurar que esses cidadãos tenham acesso a direitos básicos e que não sofram com a discriminação. Por isso, o Estatuto propôs uma série de mudanças em dispositivos da legislação infraconstitucional, de modo a adequá-los à proposta.

O projeto, de início, buscou conceituar, pedagogicamente, o termo identidade de gênero e transgeneridade. No art. 1º, parágrafo único, inciso II, a identidade de gênero foi conceituada como “a profundamente sentida experiência interna e individual do gênero de cada pessoa, que pode ou não corresponder ao sexo atribuído no nascimento” (BRASIL, 2018). Já o termo transgênero, na forma do art. 2º, Parágrafo único, “abarca pessoas cuja identidade de gênero, expressão de gênero ou comportamento não está em conformidade com aqueles tipicamente associados com o sexo que lhes foi atribuído no nascimento [...]” (BRASIL, 2018)

Os conceitos apresentados se mostram inclusivos e avançada, por não se apegar à inteligibilidade do binarismo de gênero. As definições apresentadas levam em consideração não só o sexo biológico (destoantes ou não), mas a fluidez dos comportamentos, das expressões de gênero e das experiências internas e externas de cada pessoa.

Mais adiante, o art. 4º traz uma carta de princípios fundamentais que guiou a construção das normas do Estatuto. São eles: dignidade humana, igualdade e respeito à diversidade, livre orientação sexual e identidade de gênero, reconhecimento da personalidade de acordo com a identidade de gênero ou a orientação sexual auto atribuída pela pessoa, convivência comunitária e familiar, liberdade de constituição de família, liberdade de constituição de

vínculos parentais, respeito à intimidade, à privacidade e à autodeterminação, e direito fundamental à felicidade.

O Estatuto é amplo, abrangendo normas de ordem civil, administrativa e penal. Passa-se a elencar alguma dessas normas, em especial atenção àquelas garantidoras de direitos das pessoas transexuais, foco do nosso estudo.

Quanto ao direito à identidade de gênero e à saúde, o Estatuto garante o acesso das pessoas transexuais aos espaços públicos e privados, assegurando o uso das dependências de acordo com a sua identidade de gênero (Art. 32) (BRASIL, 2018). Assegura-se, também, à pessoa transexual, acesso gratuito aos procedimentos médicos, cirúrgicos, hormonais, psicológicos e terapêuticos para a adequação à sua identidade de gênero (art. 34), devendo o Estado promover a capacitações profissionais da área de saúde para acolher transgêneros e intersexuais em suas necessidades e especificidades (art. 32), para que estes profissionais não se utilizem de instrumentos e técnicas que possam reforçar, criar ou manter preconceitos e estigmas (art. 44) (BRASIL, 2018).

Acompanhado a isso, fica garantido aos transgêneros e intersexuais “o direito à retificação do nome e da identidade sexual, independentemente de realização da cirurgia de readequação sexual, apresentação de perícias ou laudos médicos ou psicológicos” (art. 39) e sem a necessidade de ação judicial ou a representação por advogado, garantida a gratuidade do procedimento (art. 40) (BRASIL, 2018).

Quanto aos direitos previdenciários, o dispositivo defende a consagração de direitos igualitários para todas as pessoas, ficando vedada às instituições de seguro negar qualquer espécie de benefício, tendo por motivação a orientação sexual ou identidade de gênero do beneficiário (arts. 51 e 52). No campo educacional, os professores deverão estar capacitados para tratar de assuntos sobre sexualidade, adotando materiais didáticos não discriminatórios (arts. 57 e 58) (BRASIL, 2018).

O estatuto reservou um capítulo para tratar do direito ao trabalho. Os arts. 63 e 64 asseguram o direito de acesso ao mercado de trabalho, independente da identidade de gênero, ficando vedada a eliminação ou a imposição de qualquer distinção ao candidato, com face de sua orientação sexual ou identidade de gênero. Fica o empregador, também, proibido de demitir empregado, em decorrência de discriminação em razão da sua identidade de gênero (art. 66), ou estabelecer ou manter diferenças salariais entre empregados que exerçam as mesmas funções em decorrência de sua identidade de gênero (art. 67) (BRASIL, 2018).

As disposições estatutárias obrigam que o poder público institua programa de formação e qualificação profissional, de emprego e geração de renda voltadas à comunidade LGBTQI+

(art. 68) e assegure aos transgêneros e intersexuais, o registro do nome social na Carteira de Trabalho e nos assentamentos funcionais (art. 69). Garante-se, também, a criação de sistemas de cotas na administração pública e a realização de campanhas de qualificação dos seus servidores, devendo ser criadas e incentivadas medidas similares nas empresas e organizações privadas (arts. 70 e 71) (BRASIL, 2018).

Além das disposições enunciadas, o Estatuto garante uma série de outros direitos, especialmente relacionados à moradia, à segurança, à justiça, aos meios de comunicação, às relações de consumo, e tipifica uma série de crimes de discriminação, intolerância e violência com a comunidade LGBTQI+ (BRASIL, 2018). Ao final, vincula a Administração Pública federal, estadual, distrital e municipal à necessidade de criação de políticas públicas inclusivas relacionadas aos setores econômico, social, político e cultural e dá outras providências (BRASIL, 2018).

4.4 ARTICULAÇÕES ENTRE O ESTADO E AS EMPRESAS NA PROMOÇÃO DE