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Após onze anos de tramitação no Congresso Nacional, foi

aprovada em 10 de outubro de 2001 a Lei n.º 10.257, o Estatuto da

Cidade, que estabelece as diretrizes gerais da política urbana

objetivando principalmente o pleno desenvolvimento das funções

sociais da cidade e a garantia a cidades sustentáveis.

Segundo Rolnik (2001, p. 9) “poucas leis na história foram

construídas com tanto esforço coletivo e com tanta legitimidade social”.

Foi uma conquista de entidades civis e dos movimentos populares em

defesa do direito à cidade e à habitação. É considerada uma lei

progressista, inovadora e de vocação democrática.

A autora entende que o Estatuto funciona como uma espécie de

“caixa de ferramentas” para as políticas urbanas locais. Cada município,

fundamentando-se em sua leitura de cidade, por meio de seus planos

diretores, determinarão quais instrumentos aplicar.

Segundo Oliveira (2001, p. 13), as possibilidades de ação do

poder público municipal, com a vigência do Estatuto da Cidade,

ampliam-se e consolidam-se. Considera também que o poder público

municipal deverá responsabilizar-se pelo estabelecimento de normas

especiais de urbanização, de uso e ocupação do solo e de edificação. A

autora acrescenta que, atuando nesse sentido, os municípios estarão

atendendo a antigas reivindicações da população moradora em favela,

invasões, vilas ou de alagados que, em alguns casos, até já foram

urbanizadas e continuam sem a regularização fundiária. Lembra também

dos casos em que a população adquiriu o terreno onde se encontra a

denominada favela e, mesmo assim, continua sendo percebida como

ocupante “ilegal” da área.

O Estatuto trouxe logo no seu artigo segundo as dezesseis

diretrizes gerais da política urbana, que contemplam: a garantia do

direito a cidades sustentáveis; a gestão democrática; planejamento do

desenvolvimento das cidades; justa distribuição dos benefícios e ônus

decorrentes do processo de urbanização; recuperação dos investimentos

do Poder Público de que tenha resultado a valorização de imóveis

urbanos; simplificação da legislação de parcelamento, uso e ocupação

do solo, regularização fundiária e urbanização de áreas ocupadas por

população de baixa renda, dentre outras.

As diretrizes são norteadas pelo princípio da função social da

propriedade e da gestão democrática e delegam ao município o papel

principal na gestão do seu território. São consideradas as normas gerais

do direito urbanístico e devem balizar a gestão municipal na aplicação

dos vários instrumentos disponíveis para a gestão das cidades.

Para a regularização fundiária é reservado o importante papel de

efetivar o direito à moradia para a população de baixa renda que vive em

condições precárias e sem nenhuma segurança jurídica nas grandes

cidades. A política urbana deverá contemplar aqueles que vivem nas

favelas, nos loteamentos populares, nas periferias e cortiços, mediante

políticas que permitam a eles obterem a segurança na posse mediante a

legalização e a urbanização de áreas ocupadas pela população

considerada pobre e miserável. (ROLNIK, 2001, p. 35).

A diretriz da simplificação da legislação de parcelamento, uso e

ocupação do solo vem completar essa preocupação na medida em que o

acesso à habitação popular seria facilitado com a simplificação dos

procedimentos fixados pelo poder público para a legalização de

loteamentos e habitações populares. Estimula-se, então, a simplificação

da legislação e dos procedimentos pertinentes nos órgãos públicos.

Entende-se que a complexidade e o nível de exigências dificulta o

acesso à moradia e eleva seu custo.

Já a diretriz do planejamento indica que as ações urbanas e,

dentre elas, as de regularização fundiária, devem ser planejadas

antecipadamente, de forma integrada com as demais políticas, e de

forma participativa, conforme a diretriz da gestão democrática.

Essas diretrizes complementam-se, e o entendimento é que em

todas as ações de regularização fundiária o norte trazido por elas deve

ser observado.

Assim, a regularização fundiária deve ser orientada pelo princípio

democrático prevendo a participação da população em todas as fases dos

projetos. Deve observar os princípios da cidade sustentável garantindo

saneamento ambiental, infraestrutura urbana, transporte e serviços

públicos a todos, ser objeto de integração ao planejamento da cidade,

executada de forma articulada com os demais projetos de

desenvolvimento do município, buscando evitar e corrigir as distorções

do crescimento urbano e seus efeitos negativos sobre o meio ambiente,

objetivar a sustentabilidade econômica social e ambiental, ser objeto de

normas especiais de uso e ocupação, ser beneficiada pela simplificação

da tributação e também da legislação edilícia.

Também em seu artigo 4.º, o Estatuto da Cidade concede

importância à regularização fundiária quando a apresenta como um dos

instrumentos jurídicos e políticos que poderão ser utilizados para a

implementação da política urbana no País.

A regularização fundiária aparece como elemento importante

para o cumprimento das funções social da cidade, juntamente com os

instrumentos de planejamento municipal, como o plano diretor, o plano

plurianual, a gestão orçamentária e os institutos tributários e financeiros,

além de outros instrumentos jurídicos e políticos.

Especialmente em relação à regularização fundiária, a Lei n.º

10.257/2001 veio complementar e ampliar significativamente as

possibilidades de atuação do poder público, estabelecendo-se um novo

contexto que possibilita aos municípios desenvolver ações mais efetivas

no controle das distorções da valorização imobiliária, na ampliação de

formas de acesso à terra e maior agilidade nos processos que envolvem

processos de regularização dos assentamentos precários.

Alfonsin (2007, p. 70) constata que até a vigência do Estatuto da

Cidade os municípios tentaram em vão e heroicamente implementar os

instrumentos previstos nos artigos 182 e 183 da Constituição Federal:

“Não havia instrumental adequado para desenvolver políticas de

regularização fundiária”.

Atualmente essa perspectiva é diferente, já que, além do Estatuto,

diversas normas vieram completá-lo, dando-lhe maior eficácia e

facilidade de aplicação.

A primeira delas foi a Medida Provisória n.º 2220/2001, cuja

publicação ocorreu logo após a publicação do Estatuto, em 4 de

setembro de 2001. Dispõe sobre a Concessão de Uso Especial e criou o

Conselho Nacional de Desenvolvimento Urbano (CNDU).

Essa norma foi publicada após o Estatuto da Cidade, haja vista

que os artigos 15 a 20 do Projeto de Lei, que regulamentavam a

Concessão de Uso Especial, objeto do artigo 183 da Constituição

Federal, foram vetados pela Presidência da República na aprovação do

Estatuto da Cidade. Esse veto teve como razão o fato de que não

ressalvava do direito à concessão especial os imóveis públicos afetados

ao uso comum do povo, como praças e ruas, assim como áreas urbanas

de interesse da defesa nacional, da preservação ambiental e destinadas a

obras públicas.

A publicação dessa medida significou um grande avanço e uma

revolução conceitual na medida em que impôs ao Poder Público o

reconhecimento do direito subjetivo do ocupante de áreas públicas de

obter a declaração do domínio útil sobre imóvel que ocupa. (ROLNIK,

2001, p.51).

O Estatuto da Cidade e a Medida Provisória n.º 2220/2001

constituíram uma nova ordem, cujo conteúdo facilita significativamente

as ações voltadas à regularização fundiária, pois a sociedade passou a

contar com um variado repertório de instrumentos para viabilizar a

regularização da terra e, em conjunto com o capítulo da política urbana

na Constituição Federal de 1988, estabelecem as diretrizes da política

urbana no País, constituindo-se no principal marco legal da

regularização fundiária.