BREAKING THE SOCIAL EXCLUSION CYCLE?
6.3. ESTELA: ‘MY MOTHER TRIED TO KILL ME WITH A KNIFE’
Estela é uma mulher bonita de olhos azuis e cabelo louro. Grande parte das nossas conversas girou à volta da sua depressão e da diabetes do filho, que aparentavam ser os eixos centrais de estruturação da sua identidade no momento das entrevistas. Tinha muitas resistências em falar na família de origem, as palavras eram entrecortadas por lágrimas e silêncios.
Por sua vontade falou-me das suas relações amorosas, sobretudo dos seus admiradores dos quais não gosta, mas ia mantendo por perto.
À medida que as entrevistas foram avançando fui ganhando a confiança de Estela, que me abriu a porta do seu apartamento, localizado num bairro social, e que encontrava bem decorado, limpo e arrumado. Nesse dia conheci o filho de Estela, uma criança linda, loira e de olhos azuis, parecido com a mãe.
Estela era apaixonada pela internet e grande parte da última entrevista foi passada a ver fotos de no seu portátil, desde os seus fins de semana com um homem (o filho estava em casa do pai nestas ocasiões) até à sua ida à Roménia, no âmbito de um projeto europeu do município, onde teve a oportunidade de conhecer e fazer amizade com pessoas de outros países, apesar de não conhecer a sua língua e não dominar o Inglês, recorrendo a gestos.
Estela nasceu em 1976 (tinha 36 anos quando foi entrevistada) e residia num bairro social, num concelho urbano do distrito de Aveiro. Vivia sozinha com o seu filho, que sofria de diabetes.
Estela tinha três irmãos e uma irmã e os seus pais separaram-se quando ela era uma criança. Os seus pais, irmãos e irmã tinham baixas habilitações literárias. O pai era varredor da Câmara e a mãe era operária do calçado. A progenitora atacou-a com uma faca quando Estela era ainda uma criança, tendo sido por isso retirada à mãe e ido viver com os avós paternos.
Quando estes a obrigaram a deixar a escola, contra a recomendação do diretor de turma, tinha doze anos e acabara de completar o 6º ano. No momento das entrevistas encontrava- se a concluir um Curso de Formação Profissional de Técnico Comercial (com estágio), com equivalência ao 12ºano. Durante o Curso esteve catorze dias internada num Hospital Psiquiátrico.
‘CHEGÁVAMOS À ESCOLA TODOS PISADOS E MORDIDOS NOS BRAÇOS’ Quando Estela era criança, vivia num bairro social com a mãe, os irmãos e a irmã. Aí viviam com dificuldades financeiras. A mãe trabalhava numa fábrica e trazia trabalho para fazer em casa.
A violência doméstica foi uma das dimensões que mais influenciou a infância de Estela. A sua mãe foi descrita como uma mulher ansiosa e perturbada, que discutia frequentemente com o seu ex-marido e as crianças. Da mesma forma, Estela e os irmãos e irmã foram vítimas de castigos corporais e de falta de amor e cuidado na sua infância. Este abuso e negligência prejudicaram Estela que, em adulta, sofria de problemas de saúde mental. A relação de abuso que teve com a mãe, a impotência, humilhação e violência física que sofreu na sua infância transformaram-na numa adulta traumatizada, com baixa autoestima e baixo autoconceito.
Apesar de a família não valorizar a educação, Estela cresceu em contextos de socialização caracterizados por uma moral de trabalho e de esforço. Frequentou a creche e o ensino pré- escolar, e recorda-se de se sentir responsável pelo seu irmão mais novo, que protegia das outras crianças, recorrendo por vezes ao conflito e à agressão.
Andei na creche e lembro-me que já na altura me pegava com os outros miúdos, porque o meu irmão Miguel era mais novo e tinha que o defender. Era muito querido, uma paz de alma. Deitava-se no chão com meia dúzia de carritos e ficava ali. Olhava sempre por ele e quando o apanhava a chorar, lá estava um ranhoso a tirar-lhe os carritos. Se a coisa não se resolvesse e o miúdo não os devolvesse acabava por me pegar à bulha!
Entrou para o 1º ciclo com cinco anos, porque gostava da escola e pediu à mãe. No entanto, a relação entre esta última e os filhos era, como vimos, marcada pela violência:
Um dia a minha mãe tentou matar-me com uma faca, eu tinha cinco anos, por eu ter partido um prato de enfeitar que lhe tinham oferecido de prenda de casamento. Mandou-me lavar a louça, a mim e ao meu irmão, e eu e ele começámos a discutir porque não queríamos, queríamos brincar. Lembro-me de ter puxado a toalha… Não sei como foi, o prato caiu ao chão. Nem sei se fui eu que o parti ou o meu irmão. Ela estava a fazer bonés, veio à cozinha e bateu-nos com a colher de pau. Depois pegou num facão de cortar carne, vinha para me mandar e eu fugi para casa
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me num jipe para casa da minha avó. Cheguei toda contente, a fazer de conta que era uma festa, porque ia no jipe.
A minha mãe ainda esteve em Custóias [estabelecimento prisional] a cumprir pena por minha causa, entrava à 6ªfeira à noite e vinha ao domingo. Durante a semana não podia sair de casa à noite, eram ordens do tribunal. Na altura a Dra. Inês [assistente social] ia lá a casa obrigá-la a tomar a medicação, só que ela não tomava… Lembro-me que quando ela era mais nova o meu avô andou com ela no hospital, em Psiquiatria. Se calhar ela também teve maus tratos na infância… Depois voltei a viver com a minha mãe. Ela prometeu-me que nunca mais me batia, lá me conseguiu iludir e eu fui. Em casa éramos obrigados a lavar a loiça. Depois era a fiscalização, a minha mãe ia lá, se estivesse sujo: ‘trás’! Obrigava-nos a fazer os trabalhos de casa e se não estivesse bem também levávamos. Por isso é que eu detesto Matemática, porque sempre que ia fazer os trabalhos e não sabia, ela batia- me e dizia: ‘Minha burra!’. Nunca nos pediu desculpa, dizia que fazia aquilo com os nervos.
Quando Estela frequentava o 3º ano os seus pais separaram-se. Os maus tratos por parte da mãe continuaram a marcar a sua realidade:
A minha mãe era má, muito má. Às vezes obrigava-me a ir pedir, porque o meu pai não dava pensão de alimentos: ‘Já que o teu pai não dá, vais pedir na rua’. Batia-nos e dava-nos maus tratos físicos e psicológicos. Não tinha demonstrações de afeto dela, do meu pai, dos meus avós. Ela tinha de estar sempre a trabalhar, não tinha tempo de contar histórias. Trabalhava na fábrica, depois ainda vinha para casa fazer bonés e o meu pai trabalhava na Câmara a varrer estradas. Ela obrigava-me a arrumar a casa, a lavar a louça e era cada sova! Tinha que ajudar a criar os meus três irmãos, eu e o meu irmão mais velho tínhamos de tratar dos mais novos.
As denúncias de maus tratos feitas pela escola levaram a uma retirada definitiva da guarda de Estela e irmãos e irmã à mãe. Na casa da avó paterna as condições de habitabilidade não eram as mais adequadas e também existia violência física, mas não ao mesmo nível da que existia em casa da mãe:
A minha mãe continuava a bater-nos muito, dava-nos maus tratos. As professoras apresentaram queixa às autoridades e ao meu pai e avós, porque chegávamos à escola todos pisados e mordidos nos braços, até que mais uma vez fomos levados a Tribunal e aí sim, fomos todos viver com o meu pai e avós paternos.
A casa da minha avó não tinha condições, só tinha dois quartos. O meu pai dormia no quarto e eu e os meus irmãos dormíamos todos juntos no sofá: eu e a minha irmã dormíamos à cabeceira e os meus dois irmãos aos pés. Aquilo era uma risota! Na casa da minha avó também havia maus tratos, mas era com um pano da louça e dizia muitas asneiras: ‘Filha da curta!’, pimba, arremessava-nos o pano cheio de água de lavar a louça. Mas aquilo à beira do que a minha mãe nos batia não era nada! O interesse pelos estudos intensificou-se através do relacionamento com a sua melhor amiga de infância (que era, juntamente com Estela, a melhor aluna e que seguiu advocacia) e a influência positiva da sua professora primária, que recorda com carinho. Com efeito, esta professora e a mãe da melhor amiga davam-lhe o carinho e a atenção que não tinha em casa. No polo oposto desenvolveu um trauma (ainda hoje visível) com a disciplina de Matemática, relacionado com as atitudes violentas da mãe sempre que Estela não conseguia fazer os trabalhos de casa dessa disciplina. A sua dependência emocional em relação à professora era tal que quando esta saiu da escola Estela reprovou, comprovando a importância da dimensão emocional da educação, nomeadamente o papel fundamental do apoio da professora para o sucesso escolar.
Na minha infância as boas recordações são da minha professora primária, a D. Estrela, e da Gisela, que é advogada e era a minha melhor amiga. De manhã a mãe dela levava-me para a escola e dava-me sempre o pequeno-almoço: belgas e um pãozinho torrado com manteiga. À noite vinha com a D. Estrela, ia fazer os deveres para casa dela, parece que ainda hoje sinto o cheiro daquela casa! Nós éramos as melhores alunas e a professora metia-nos a ensinar nos intervalos os meninos que tivessem mais dificuldades, dava-nos chupas ou rebuçados. Fui sempre uma excelente aluna até ao dia em que os meus pais se separaram de vez, no 3º ano. Perdi o gosto pela escola porque a minha professora que eu tanto adorava, D. Estrela, decidiu mudar de escola, aí foi o caos. Sofri muito e isso notou-se nos estudos porque de melhor aluna passei a pior e reprovei.
Passada esta crise teve um percurso normal até ao 6º ano, tendo inclusive participado em competições desportivas escolares, até ao momento em que foi obrigada pela avó a abandonar a escola para ir trabalhar, em 1988, contra a vontade de Estela e a recomendação do diretor de turma, para ir trabalhar numa fábrica de calçado e ajudar a sustentar os irmãos e a irmã.
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boa, nunca havia problemas. Gostava de andar na escola, era boa aluna. No Ciclo cheguei a fazer corta-mato e a ganhar uma medalha e um saco verde e cinzento, com uns risquinhos, fiquei em segundo lugar.
Foi a minha avó que me tirou da escola, no 6º ano. O meu pai não queria, mas a minha avó obrigou-me para ir trabalhar e ajudar os meus irmãos. O meu pai foi chamado pelo diretor de turma que lhe disse que era uma pena retirar-me da escola, porque eu era uma aluna bastante aplicada e que poderia vir a ser alguém na vida, mas não adiantou. Ia fazer treze anos quando saí da escola e comecei a trabalhar. Os meus pais e avós não davam valor a que andássemos a estudar. Queriam o dinheiro, eram materialistas. Os meus irmãos fizeram até à 4.ª classe e ao 6.º ano. A minha adolescência já não foi tão complicada, apesar de continuarem as idas a Tribunal, devido aos meus avós não terem condições. Os meus irmãos foram para centros de acolhimento e eu, como era mais velha e já trabalhava, os meus avós não me deixaram ir. O Juiz deu-me a escolher e eu decidi ficar com eles, até porque o meu pai já tinha refeito a vida com outra pessoa. Eu era a filha querida do meu pai antes de ele conhecer a minha madrasta. Depois disso nunca mais ligou grande coisa, teve mais cinco filhos. Nunca fui ver os meus irmãos aos centros, por medo, talvez, de não me controlar perto deles e chorar, porque sabia que eles lá não eram felizes.
Desses dias, recorda como momentos felizes passar as vésperas de Natal sozinha com a prima quando eram ambas crianças.
O Natal era quase sempre sozinha com a minha prima. A minha avó ia passar o Natal a casa dos meus tios e eu e a minha prima passávamos o Natal sozinhas. Os meus tios não ligavam nada ao Natal nem à filha. Eu e ela ficávamos lá em casa, pegávamos naquelas velas vermelhas de cemitério e acendíamos, púnhamos uma mesa toda bonita e comíamos à luz de velas. Os pais dela moravam por baixo dos meus avós e depois andei a chatear os meus tios para a deixarem vir dormir comigo, quando os meus irmãos foram para o colégio. Ela depois ficou também a viver connosco em casa da minha avó.
Frequentava o Grupo de Jovens Cristãos, fiz o meu Convívio Fraterno com dezasseis anos e o Crisma com dezoito anos, fui catequista. Era muito dedicada a tudo o que estava ligado à Igreja. Fazia retiros, convivia com jovens de outras Paróquias e a minha juventude resumiu-se basicamente a isto.
Estela começou a trabalhar aos doze anos, por vezes acumulando dois trabalhos, para ganhar mais dinheiro:
Comecei a trabalhar com doze anos, mas antes disso já trabalhava nas férias da escola. A minha avó mandava-nos para uma fábrica de calçado, fazer caixas. Depois comecei a aprender a fazer sapatos, estive nessa fábrica até aos dezoito anos. Saí porque nunca quis trabalhar em sapatos, gostei sempre de trabalhar em comércio. Fui trabalhar para um pronto-a-vestir, estive lá quatro anos. Como o patrão pagava mal resolvi ir trabalhar para uma fábrica de bordados. Trabalhava das quatro à meia- noite, tinha a manhã livre, comecei a trabalhar no supermercado, das sete ao meio- dia, a fazer limpeza. Acabou o contrato no supermercado, comecei a fazer promoções de vendas nos hipermercados. Para sair às quatro horas não dava tempo para chegar à fábrica, porque não tinha carta de condução. Saía mais cedo meia hora, pedia aos chefes e ia a correr para a fábrica para pegar ao trabalho e sair à meia-noite. Depois trabalhei part-time noutro hipermercado, quando tive o meu filho.
‘QUANDO EU O VI FOI AMOR À PRIMEIRA VISTA’
A falta de amor e a negligência na infância e juventude poderão estar na base da sua instabilidade nas relações íntimas da vida adulta. Tornou-se mãe aos 27 anos e quando a criança tinha nove meses decidiu deixar o pai do seu filho, acusando-o de ser demasiado possessivo.
Tive o meu primeiro namorado aos dezoito anos, namorei com ele nove anos, antes de conhecer o pai do Daniel. Já tínhamos comprado um apartamento e vivemos quase dois anos juntos. Depois comecei a gostar do pai do Daniel e deixei o meu namorado, fui viver com ele. Atraiu-me a voz, trabalhava na rádio e eu punha-me a imaginar como ele era. Comecei a falar com ele nos discos pedidos, depois começou a falar comigo em privado, dizia que achava que eu era uma pessoa triste e com as conversas dele, lá me conseguiu elubriar. Quando eu o vi foi amor à primeira vista e para ele também. Começámos a namorar e só o via a ele! Nunca tinha-me aparecido um rapaz que me desse rosas, que me fizesse jantar à luz de velas. Era meigo, carinhoso, amigo, tudo o que uma mulher desejava num homem.
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filhos o que os meus pais fizeram a mim. Mas andei numa psicóloga e ela disse que isso não ia acontecer. Com o pai do Daniel comecei a mudar de atitude e decidi ter um filho. O momento mais feliz da minha vida foi o nascimento dele, quando tinha 27 anos. Não casei, por opção, só estivemos juntos na parte que estive grávida e antes um tempo. Acabámos quando o Daniel ia fazer nove meses, porque não nos dávamos, parecia o cão e o gato. Ele sempre deu pensão de alimentos, é um pai presente, mas foi uma ilusão. Era muito obcecado, possessivo e tinha ciúmes doentios, não me deixava trabalhar, ir ao supermercado sozinha, tinha de viver em função dele.
Após a separação viveu uma temporada com o filho em casa da mãe que demonstrou continuar a ser uma pessoa conflituosa e Estela teve de sair. A autarquia atribui-lhe então uma habitação social onde Estela reside desde então.
Estive um tempo a viver com a minha mãe, mas ela não nos deixava tomar banho todos os dias, dizia que estávamos sempre a gastar água. Eu fazia limpezas no espaço de atendimento da Câmara no bairro e foram eles que me arranjaram a casa, porque eu chegava lá todos os dias a chorar e a minha mãe ia lá implicar comigo, fazer barulho. Às vezes tinham que a pôr de lá para fora. Fazia-me a vida negra! Foram eles a minha tábua de salvação!
‘DISCRIMINARAM-ME POR DIZER QUE TINHA UM FILHO DIABÉTICO’ A vida laboral de Estela sofreu um revés quando o filho teve uma crise provocada pela diabetes e teve de ficar internado durante três meses. Nessa altura foi despedida e depois disso foi discriminada quando procurava emprego por causa da doença do filho. Sente que foi alvo de discriminação devido à doença do filho, uma vez que perdeu três empregos e uma bolsa de estudo devido a absentismo. Ao mesmo tempo, a escola do filho desresponsabilizou-se por cuidar da criança em situação de crise, não lhe dando insulina e chamando-a de cada vez que tal era necessário, o que impedia a mãe de manter uma vida profissional, e excluía a criança das visitas de estudo e idas à praia. Numa tentativa de influenciar a posição da instituição de ensino, e chamando a atenção para os direitos de cidadania do filho, Estela denunciou a situação à CPCJ, resolvendo-a.
Vim trabalhar part-time para outro emprego, estava no talho. Entretanto, fui trabalhar para um restaurante italiano. O Daniel ficou diabético aos dois anos e
esteve três meses internado, foi quando fui despedida, porque eles não podiam estar sem funcionários na altura do Natal. Depois fui trabalhar para a McDonald’s.
Por causa do Daniel estar doente, estive desempregada muito tempo. Discriminaram-me por dizer que tinha um filho diabético. A escola também não ajudou, porque estavam-me sempre a chamar: ele tinha hipoglicemias, hiperglicemias ou tinha crises e ia para o hospital em coma. Só comecei a ter mais estabilidade quando a Dra. Ana [assistente social] começou a aprender a dar-lhe insulina e a saber atuar. Ela ia à escola dar insulina, porque lá ninguém lha dava. Depois tinham a praia, ele não ia. Havia passeios, era discriminado, não ia porque era diabético, tinham medo que acontecesse alguma coisa. Não queriam assumir responsabilidades nenhumas. Tivemos que pôr isso na Comissão de Proteção de Menores.
A primeira vez que me candidatei ao RSI foi quando o Daniel ficou diabético, em 2005. Não mo deram, disseram que não era carenciada. Estive dois anos sem receber nada, não tinha dinheiro para comer, para medicação, para nada. Tinha casa, mas não tinha dinheiro para pagar luz e água. Foram a Dra. Ana, a minha amiga que agora é advogada e a mãe dela que me ajudaram dois anos. Eu estava no hospital de dia e de noite com o Daniel, passávamos lá muito tempo.
O RSI na altura ajudou e fazia-me falta esse dinheiro. Ajudou-me a pagar a luz, a água, os bens de primeira necessidade, a medicação.
Estela confessa que não se recorda das obrigações do contrato que assinou porque na altura estava sob o efeito de medicação para os seus problemas de saúde mental, mas admite que a sua inserção profissional não foi afetada pela atribuição do subsídio pois a iniciativa de procurar trabalho foi sempre da sua parte. Por outro lado, há no seu discurso a manifestação de um desejo de autonomia face ao RSI:
Já nem me lembro do meu contrato. Nem sei o que é que assinei porque nessa altura, andava a levar medicação intravenosa, estava toda atrofiada das ideias. A mim não mudou nada, porque eu recebo o RSI e nunca me chamaram para trabalho. A Dra. Paula chamou-me para fazer uma formação em Higiene e Segurança no Trabalho, mas eu já tinha essa feita e não podia fazê-la outra vez.
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‘EU JÁ ESTIVE NA CASA DE TOLOS’
Estela avalia o seu regresso à escola como importante, no sentido em que aumentou as suas qualificações. Gostou das aulas, dos professores, dos colegas e das disciplinas, embora tivesse preferido um curso de Restauração, que não estava disponível na altura. Por motivos geográficos, financeiros e para cuidar do filho, acabou por ficar no curso que tinha vagas e que ficava mais perto de casa. Estela afirma que gostou da turma, dos professores, que obteve bons resultados, bem como se preparou melhor para uma futura profissão:
Quando estava a trabalhar na McDonald’s fiz o RVCC23 do 9.º ano à noite, mas não aprendi nada com aquilo. Depois tomei a iniciativa de fazer o 12.º ano, porque queria estudar, mas vi que durante a noite não valia pena fazer, não se aprende nada. Durante o dia valeu a pena e é mais puxado. Não é como o ensino recorrente, é mais fácil talvez. Mas para quem já saiu da escola há uns anos é difícil.
Optei pelo curso de Técnico Comercial, com equivalência ao 12º ano, num Centro