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1 DAS RAÍZES DO AMBIENTALISMO À EDUCAÇÃO AMBIENTAL

1.1 Um pouco sobre os primórdios

1.1.5 Estocolmo – 1972

Entre 5 e 16 de julho de 1972, na cidade sueca de Estocolmo, 113 países e inúmeras instituições intergovernamentais e sobretudo não-governamentais participaram da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente Humano, mais conhecida como Conferência de Estocolmo. Estocolmo foi uma culminância de um processo histórico do crescimento do ambientalismo, principalmente no pós- guerra com a intensificação das atividades industriais e produtivas. Foi um marco na luta ambientalista e portanto um divisor de águas e um novo tempo para a pauta ambiental.

Para o canadense Maurice Strong, secretário geral da Conferência, Estocolmo lançaria um novo movimento de libertação para emancipar os seres humanos dos perigos ambientais produzidos por eles mesmos. Assim como o conceito de crescimento zero não constituía uma política viável para nenhuma sociedade os conceitos tradicionais das propostas básicas de crescimento precisavam ser repensados (ONU, 1972).

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O mérito de Estocolmo, além de ser um momento marcante nas relações internacionais pela inserção da problemática do meio ambiente na agenda política mundial (VIGEVANI, 1997), foi permitir um debate abrangente, pluridimensional e interdisciplinar da temática ambiental, relacionado-a ao desenvolvimento econômico, dentro de um enfoque mais global.

Estocolmo inaugurou um novo momento para o ambientalismo na esfera estatal e potencializou o movimento ambientalista na esfera privada, uma vez que contribuiu para o reconhecimento da importância da temática junto aos governos participantes da Conferência ou não. A criação de um organismo eminentemente ambiental da ONU – PNUMA – contribui para isso, pois anteriormente essa pauta estava diluída nos demais organismos e com o advento do PNUMA os Estados passaram a ter uma referência para o meio ambiente nas Nações Unidas. Segundo Leis (1999:88), antes de 1972 apenas 12 países contavam com órgãos públicos de meio ambiente – Austrália, Grã-Bretanha, Canadá, França, Alemanha Ocidental, Índia, Japão, Quênia, Nova Zelândia, Singapura, Suíça e Estados Unidos – dez anos depois 140 países possuíam órgãos ambientais, número maior que os 113 países participantes da cúpula. Para Leis (op. cit:131), o elevado número de países que aderiram rapidamente ao espírito de Estocolmo permite comprovar o grau de penetração alcançado pelo ambientalismo no sistema político.

Entretanto, existia uma enorme distância entre a criação de um órgão ambiental em um dado Estado e o enraizamento da pauta ambiental nos governos de forma ampla. Em vários casos o ambientalismo não estava enraizado nos movimentos sociais, não havendo desta forma pressão da sociedade para a criação de tais órgãos. Na maioria dos países a criação de órgãos ambientais foi uma resposta à demanda internacional, principalmente dos países desenvolvidos.

Todavia, os países em desenvolvimento, que acompanhavam com relativa distância e indiferença as movimentações ambientalistas nas sociedades industrializadas, foram despertados pela convocação da Conferência de Estocolmo. Houve conseguinte mobilização com o objetivo de encaminhar a discussão da necessidade da proteção ambiental, de maneira que as alternativas a serem propostas ou construídas, durante a Conferência, não trouxessem prejuízos ao crescimento econômico desses países (Machado, 2005). Participaram ativamente no sentido de demarcar a sua posição. Reconheciam que seus problemas mais

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pujantes estavam todos relacionados a falta de desenvolvimento, desta forma o equacionamento das questões sociais como a fome a mortalidade eram mais urgentes e necessários que controlar a poluição.

Países que viviam o chamado “milagre econômico” eram fortemente contra os princípios ambientais, pois na opinião deles a conservação do meio ambiente seria uma forma de inviabilizar o seu crescimento. Deixar de poluir poderia representar a impossibilidade de gerar empregos, criar infra-estrutura e dar uma condição melhor de vida para a população. A posição do Brasil, relatada em um documento confidencial do Departamento de Estado Americano de 2 de março de 1972 ilustra bem a posição dos países emergentes:

(...) A oposição do Brasil a qualquer coisa que possa sugerir o a criação de padrões ambientais na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Humano, em junho em Estocolmo, reflete medos profundos de que tais controles possam frustrar seu impressionante crescimento econômico e o cumprimento de seu destino de potência mundial. Assim, o compromisso prioritário dos brasileiros com o desenvolvimento não deve ser diminuído nem mesmo pelos mais persuasivos argumentos em prol da atenção aos problemas ambientais. Na conferência, pode-se esperar que os brasileiros liderem vigorosamente aqueles que consideram os controles uma ameaça ao ser desenvolvimento, e eles continuarão a estimular qualquer investimento em grande escala que apóie seus objetivos de desenvolvimento, mesmo que isso signifique "importar poluição" (Departamento de Estado Americano, março de 1972). 6

Para Machado (2006), não que os países ditos em desenvolvimento não reconhecessem a existência dos problemas ambientais, mas argumentavam que era preciso diferenciar esses problemas e, a partir daí, pensar em terapias adequadas a cada situação. Nessa perspectiva, ressaltaram ainda as dificuldades que enfrentavam para promover o crescimento de suas economias e solucionar o que eles consideravam ser os seus problemas ambientais – pobreza – diante da relação de forças desigual e desfavorável estabelecida na dinâmica de funcionamento da economia mundial.

Segundo Machado (op. cit) quando os países em desenvolvimento centram na questão social o eixo dos problemas que os afligiam – sendo a pobreza o seu elemento principal –, eles deslocam o foco da discussão e abrem o espaço político e

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oferecem os argumentos em torno dos quais os interesses vinculados ao desenvolvimentismo são estrategicamente rearticulados. Possivelmente por isso, a Conferência de Estocolmo tem suas discussões ampliadas para além do ambiental e científico.

Machado (op. cit) ressalta que:

(...) os países industrializados corroboraram essa estratégia ao menos por duas razões: de um lado, as políticas desenvolvimentistas eram mecanismos importantes no processo de expansão e acumulação de capital comandado pelo e em favor do mundo industrializado; de outro, o apelo ético embutido na defesa do desenvolvimento dos países subdesenvolvidos permitia a um só tempo dois deslocamentos estratégicos: o foco dos problemas ambientais mais urgentes movia-se do primeiro para o terceiro mundo; enquanto as perspectivas de encaminhamento de soluções moviam-se da necessidade de reformulações na lógica de expansão do industrialismo para a sua reafirmação. Desta maneira, as questões referentes aos problemas ambientais do mundo industrializado passam a ocupar um plano secundário sendo trazida para o primeiro plano a relação entre pobreza e degradação ambiental (Machado, 2006). A afirmação da autora anteriormente citada reflete e justifica o interesse dos países industrializados na adoção de ações ambientais, neste caso controle da poluição, pelos países em desenvolvimento, inclusive mobilizando serviços de inteligência gerando documentos confidenciais para monitorar estes países.

Embora Estocolmo seja considerada um marco na história do ambientalismo onde se discutiu pela primeira vez em escala planetária os rumos da humanidade e os riscos da intensificação da exploração dos recursos naturais, sua poluição e a pobreza. Embora tenha sido a primeira vez onde os movimentos sociais passaram a fazer parte das discussões a cerca das políticas ambientais e de desenvolvimento, dando a eles legitimidade. Embora o legado da Conferência tenha sido efetivo com a criação de órgãos de meio ambiente em vários países e portanto, a pauta ambiental passasse a ser tratada nas agendas políticas nacionais (mesmo que em alguns casos ainda de forma muito incipiente), a Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente Humano, para muitos, não tratou efetivamente dos problemas gerados pela expansão do capital e portanto a manutenção da dominação dos países industrializados aos países em desenvolvimento.

6 Disponível em: < http://media.folha.uol.com.br/ambiente/2007/11/20/poluicao.pdf > Acessado em: 30

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Ainda Machado (op. cit),

A configuração da problemática ambiental trouxe à tona parte das contradições decorrentes da lógica sob a qual se move a acumulação capitalista. Mas a correlação de forças estabelecida na Conferência de Estocolmo, ao inscrever tal problemática na ordem do discurso do desenvolvimento, procura manter submersas aquelas contradições que sinalizam os limites de expansão do modelo no âmbito da produção de mercadorias e dirige o foco para aquelas que se produzem no processo de apropriação e circulação dessas mercadorias. Nessa perspectiva, as contradições que se tornam visíveis e passam a orientar a busca de alternativas são aquelas pertencentes à esfera das relações de poder e dominação, travadas entre os interesses que controlam e dirigem os mecanismos da acumulação capitalista na ordem mundial; e os que, de maneira subordinada, alimentam esse processo. Fica, assim, preservada a lógica motriz da produção e acumulação capitalista (Machado, 2006).

Portanto, a Conferência de Estocolmo embora tenha trazido as discussões do campo eminentemente técnico-científico para o campo político, ampliado-as para além do ambientalismo, agregando as relações estabelecidas entre ambiente, economia e social, não contemplou de maneira efetiva a necessidade de reformas necessárias à sociedade daquela época (ainda atuais). Não contemplou de forma efetiva o imperialismo e a dominação dos países ricos, sua forma agressiva de impor sua cultura e seu modo – absolutamente insustentável – de produção para saciar seu consumo.

Em suma, para Leis (op. cit. p.135) as resoluções de Estocolmo não passaram de declarações de intenções que não continham cláusulas de cumprimento legal obrigatório, o consenso foi tão inspirado que legitimou o ingresso do ambientalismo no plano político, abrindo espaço para que as demandas e valores que estavam emergindo na sociedade civil começassem a ser abordadas pelos Estados. Ainda era muito cedo para falar de desenvolvimento sustentável, mas os acordos de Estocolmo abriram a porta para as necessidades dos países pobres e, assim sendo, obrigaram a pensar uma aproximação entre desenvolvimento e meio ambiente.