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Estranhamento & tentativas de abordagem

No documento À deriva: juventude e masculinidades (páginas 54-57)

CAPÍTULO I – A rota

CAPÍTULO 2: A viagem (ou Janela Indiscreta) – parte I

2.3. Estranhamento & tentativas de abordagem

Nesse meu engodo, resolvi então começar. Ir de encontro a novos encontros. Novas falas. Novas vozes. Novos gestos.

Cheguei no movimento. Arte em movimento e movimento em arte. Era o nome.

Falavam de mil coisas. De funk, de rap, de cartoon, de política. Muito politizados esses jovens, pensei. Queriam combater várias coisas. Tinha até alguns que falavam de movimento estudantil.

44 Li os títulos das atividades programadas: A arte como instrumento de reivindicação da pobreza; enquete sobre o movimento estudantil; a arte do combate à criminalização da pobreza, oficina de rap, roda de funk, oficina de poesia... “Nossa, o que esses caras tão querendo?” Achei tão movimentado que parei pra assistir.

Retorno algum tempo depois. É a comemoração dos 25 anos da instuitição. Esta instituição é também um colégio de ensino médio e técnico em saúde coletiva. Também é um momento institucional. Comemorativo. Alguns alunos participam da mesa de abertura, estão empolgados, nervosos, felizes.

Achei os outros. Querem falar para os professores, para os alunos, para os diretores.

Falam de política. De Marx. Das passeatas. Do diferencial do colégio que estudam. Da falta de engajamento político dos jovens. Falam do grêmio. Do que o grêmio fez e do que não fez.

Desculpam-se. Querem outra realidade. Outros mundos. São a-partidários – dizem.

Os que assistem: alguns aplaudem, alguns estranham, alguns dormem, outros acham

“nada a ver”. Mas continuam empolgados. Vibrantes. “Na defesa de uma outra sociedade”.

“Na luta”. Querem se engajar, se articular, se juntar com os trabalhadores. Achei-os fortes.

Enérgicos. As ideias talvez não sejam novas. Podem ser até meio deslocadas, mas não importava. Era como falavam naquele momento. E como falavam.

Não tive como evitar uma certa sensação de estranhamento. De que eu não fazia parte. De que quem estava fora do lugar era eu. E estava mesmo. Será que ser pesquisador é isso? Colocar-se fora do lugar? Podemos ver diferente de outros lugares? Sentir diferente?

Tentativas de abordagem

Precisava chegar mais perto. Para poder filmar. De longe, ficava um pouco desfocado. Achei que não tinha a ver. Precisava me aproximar. Mas como? O que falar? O que dizer? Continuava me sentido estranha. E agora, José2?

Arrisquei. Cheguei perto de um grupo de meninas que conversavam meio alheias ao evento. Apresentei-me. Falei da ideia da pesquisa. Perguntei se elas queriam participar.

Olharam-me estranho. Disseram que não. Nossa, que banho de água fria! Saí de fininho me sentido meio mal.

Poxa, agora depois de todo o script, desse trabalho todo, será que ninguém vai querer subir no palco? Será que ninguém vai querer participar? Será que foi tudo em vão? Será que era melhor fazer só uma pesquisa teórica, dessas que falam de vários autores, tem muita gente

45 interessante, com livros e trabalhos interessantes, será que é melhor, abandonar tudo e fazer assim? Será que ainda dá pra mudar? Ou então vamos ser radicais de vez e mudar de área, de vida, de forma? Será melhor escrever então um livro? Um romance? Uma poesia... Um conto, quem sabe?

Sentei num canto nesse turbilhão. Fiquei meio viajando sozinha. Os alunos da mesa de abertura ainda lá. Animados, debatendo. Olho para eles do telão. Mas não os vejo.

Começo então a olhar para os outros lados. Os que estão nas outras mesas. Supostamente assistindo também ao telão.

Vejo que alguns conversam, alguns dormem, alguns prestam atenção. Resolvo me aproximar de um novo grupo, que não estava entretido com o telão. Apresento-me, explico da pesquisa, pergunto se estão interessados. Riem, meio na dúvida... Topam. Um empurra o outro pra participar. Faço então as primeiras entrevistas.

Nem tão diferentes assim...

De tarde, após o almoço, sento no pátio, e vejo os alunos com guitarras, bateria, microfones. Tocavam rocks “antigos”, tipo Led Zeppelin, Metallica. Também gostava dessas músicas quando tinha a idade deles, pensei. Ainda gosto, mas talvez agora façam menos sentido para mim, de alguma forma.

Começo a observá-los. A curtir a música. É um clima bem adolescente, colegial.

Sempre em grupos, conversam, falam alto, se abraçam, se beijam. Umas meninas também ensaiam suas músicas, rock nacional. Viajo um pouco na memória, num flash, relembro minhas tardes no colégio, também depois do almoço, quando esperávamos pela próxima aula e acontecia tudo-junto-agora-ao-mesmo-tempo, aula, amizade, futuro, beijos, abraços, matemática, música, vestibular, conversa, festa, as fofocas da festa, física, biologia, português, brigas, desentendimentos, reconciliação, química, violão, viagem, praia, namoro,

“pegação”, geografia, história, trabalho de grupo. Era o mundo inteiro e não era o mundo inteiro. Era leve, às vezes não era. Era isso.

Volto a observá-los. Reconheço-me um pouco, de alguma forma me senti um pouco próxima, ainda que distante. Nesse sentido, relembro DaMatta: “a antropologia é um dos mecanismos mais importantes para deslocar a nossa subjetividade.” e “O homem não se enxerga sozinho. Precisa do outro como seu espelho e seu guia. (DAMATTA, 1978, pg.

35)66.

46 Recomeça o seminário. Os alunos têm de guardar os instrumentos. O telão começa a funcionar. Assisto a um pouco do seminário. Depois de encorajada pela minha aproximação subjetiva, me aproximo de um grupo de alunos, com quem já havia falado sobre a pesquisa.

Combino nova entrevista para o dia seguinte.

No documento À deriva: juventude e masculinidades (páginas 54-57)