Estratégias de enfrentamento para lidar com o superendividamento

No documento Centro Universitário de Brasília - UniCEUB REBECA DE QUEIROGA FALCÃO (páginas 64-67)

Um estudo realizado pelo Observatório do Endividamento dos Consumidores em Coimbra, Portugal, traçou o perfil dos superendividados portugueses, bem como as possíveis estratégias para lidar com o fenômeno do superendividamento. Em que pese o referido estudo mostrar-se voltado para o perfil dos superendividados portugueses, é possível perceber muitas semelhanças com a classe de endividados brasileira, sobretudo no que diz respeito à forma de lidar com as dificuldades trazidas pelo acúmulo de dívidas.

A primeira estratégia a qual o estudo faz referência é a da auto-mobilização.

Segundo esse mecanismo, é o próprio indivíduo quem toma as rédeas do controle de seus gastos, criando novos hábitos e analisando as formas mais viáveis de sanar as suas dívidas. A segunda estratégia para lidar com o superendividamento é a da mobilização solidária. Aqui, o indivíduo conta com a ajuda de redes familiares e de amigos. Por fim, a última estratégia trazida pelo referido estudo refere-se à mobilização institucional, em que o indivíduo prefere recorrer à ajuda de terceiros a procurar os familiares ou amigos.145

A estratégia da auto-mobilização tem como princípio basilar a iniciativa do próprio indivíduo para lidar com a situação de superendividamento que enfrenta. A primeira atitude que se verifica é o reajustamento dos hábitos de consumo. O que acontece é uma redução dos bens secundários, como lazer, supérfluos, entre outros, dando-se prioridade aos itens essenciais. No quesito alimentação, o que ocorre não é uma diminuição drástica na quantidade, mas sim na qualidade. O indivíduo opta por adquirir produtos de marcas com

145 FRADE, Catarina; MAGALHÃES, Sara. Superendividamento, a outra face do crédito. In: MARQUES, Claudia Lima; CAVALLAZZI, Rosângela Lunardelli (Org.). Direitos do Consumidor Endividado:

Superendividamento e Crédito. São Paulo: RT, 2008. p. 34.

qualidade inferior, embora costume manter a mesma quantidade e, talvez, até variedade dos produtos.146

Outro meio encontrado para lidar com o superendividamento por meio da auto-mobilização é saber gerir as finanças pessoais147. Na verdade, esse tipo de mecanismo seria mais uma maneira de se evitar o superendividamento, do que uma forma, propriamente dita, de se lidar com ele. No entanto, mesmo a pessoa que se encontra em situação de superendividamento pode, sim, e, na verdade, deve buscar meios de poupar, sempre que possível, evidentemente.

Assim, o ponto crucial nesse tipo de mecanismo é a criação do hábito de poupar. As pessoas, endividadas ou não, normalmente, não têm o hábito da poupar e é também por esse motivo que começam a gastar mais do que a sua realidade permite, gerando, inevitavelmente, em um futuro não muito distante, uma situação fora de controle: o superendividamento.

Ainda dentro da estratégia da auto-mobilização, outra forma de lidar com o superendividamento é o pagamento seletivo das dívidas. Significa que, como o rendimento mensal não é suficiente para sanar todas as dívidas, o indivíduo deve optar pelo procedimento de rotação periódica do tipo “mês sim, mês não” e pagar, cada mês, a conta que achar, sob a ótica do seu orçamento, mais conveniente. Dessa forma, o indivíduo mantém uma relação ativa com os credores e tenta, temporariamente, evitar a cobrança reiterada.148

A segunda estratégia para se enfrentar o superendividamento recebe a denominação de

“mobilização solidária”. Segundo esse mecanismo, o indivíduo que se encontra em situação de superendividamento recorre à ajuda de pessoas da própria família, bem como dos amigos mais próximos149. Dessa forma: “(...) quanto maior é a capacidade de mobilizar redes

146 FRADE, Catarina; MAGALHÃES, Sara. Superendividamento, a outra face do crédito. In: MARQUES, Claudia Lima; CAVALLAZZI, Rosângela Lunardelli (Org.). Direitos do Consumidor Endividado:

Superendividamento e Crédito. São Paulo: RT, 2008. p. 36.

147 FRADE, Catarina; MAGALHÃES, Sara. Superendividamento, a outra face do crédito. In: MARQUES, Claudia Lima; CAVALLAZZI, Rosângela Lunardelli (Org.). Direitos do Consumidor Endividado:

Superendividamento e Crédito. São Paulo: RT, 2008. p. 37.

148 FRADE, Catarina; MAGALHÃES, Sara. Superendividamento, a outra face do crédito. In: MARQUES, Claudia Lima; CAVALLAZZI, Rosângela Lunardelli (Org.). Direitos do Consumidor Endividado:

Superendividamento e Crédito. São Paulo: RT, 2008. p. 38.

149 FRADE, Catarina; MAGALHÃES, Sara. Superendividamento, a outra face do crédito. In: MARQUES, Claudia Lima; CAVALLAZZI, Rosângela Lunardelli (Org.). Direitos do Consumidor Endividado:

Superendividamento e Crédito. São Paulo: RT, 2008. p. 38.

informais de solidariedade, menor parece ser o risco de ocorrência de rupturas na vida socioeconômica das famílias e, consequentemente, de superendividamento” 150.

Sendo assim, tem-se que a mobilização solidária assume duas configurações. A primeira é a do movimento espontâneo, e a segunda, a da solicitação por parte dos indivíduos superendividados.151

O movimento espontâneo caracteriza-se pelo fato de que os próprios amigos e/ou familiares do indivíduo superendividado propõem ajuda de forma espontânea. Essa espécie de mobilização solidária é recebida com mais naturalidade pelos superendividados, uma vez que não precisam expor – ou pelo menos não para muitas pessoas - de maneira muito evidente, a difícil situação em que se encontram. Essa ajuda prestada por familiares ou amigos pode assumir a forma de apoio financeiro ou de gêneros (vestuário, comida, escola, entre outros).152

Todavia, quando da ausência de ajuda espontânea, os superendividados recorrem à solicitação expressa de ajuda, o que configura a segunda espécie da mobilização solidária.

Diferentemente da ajuda espontânea, os indivíduos em dificuldades veem a solicitação como última alternativa para tentar por fim à situação em que se encontram153.

Isso ocorre em razão do evidente desconforto que qualquer um sentiria ao pedir ajuda financeira, mesmo para aqueles mais próximos no convívio social. Além disso, esses indivíduos temem que sejam cerceadas a sua independência e liberdade de decisão154.

A terceira e última estratégia para se lidar com o superendividamento é a mobilização institucional. Aqui, os superendividados recorrem aos mecanismos de origem pública a fim de sanarem as suas dificuldades financeiras. Dessa forma, os indivíduos superendividados sentem mais conforto ao expor a sua situação a terceiros em detrimento de fazê-lo perante

150 FRADE, Catarina; MAGALHÃES, Sara. Superendividamento, a outra face do crédito. In: MARQUES, Claudia Lima; CAVALLAZZI, Rosângela Lunardelli (Org.). Direitos do Consumidor Endividado:

Superendividamento e Crédito.São Paulo, RT, 2008. p. 34.

151 FRADE, Catarina; MAGALHÃES, Sara. Superendividamento, a outra face do crédito. In: MARQUES, Claudia Lima; CAVALLAZZI, Rosângela Lunardelli (Org.). Direitos do Consumidor Endividado:

Superendividamento e Crédito. São Paulo: RT, 2008. p. 34-35.

152 FRADE, Catarina; MAGALHÃES, Sara. Superendividamento, a outra face do crédito. In: MARQUES, Claudia Lima; CAVALLAZZI, Rosângela Lunardelli (Org.). Direitos do Consumidor Endividado:

Superendividamento e Crédito. São Paulo: RT, 2008. p. 35.

153 FRADE, Catarina; MAGALHÃES, Sara. Superendividamento, a outra face do crédito. In: MARQUES, Claudia Lima; CAVALLAZZI, Rosângela Lunardelli (Org.). Direitos do Consumidor Endividado:

Superendividamento e Crédito. São Paulo: RT, 2008. p. 35.

154 FRADE, Catarina; MAGALHÃES, Sara. Superendividamento, a outra face do crédito. In: MARQUES, Claudia Lima; CAVALLAZZI, Rosângela Lunardelli (Org.). Direitos do Consumidor Endividado:

Superendividamento e Crédito. São Paulo: RT, 2008. p. 39.

amigos e familiares. Na verdade, a situação de “anonimato” que esses indivíduos conseguem manter com terceiros contrasta com a forte personalidade que acaba por existir quando lida com aqueles mais próximos no convívio social155.

Conforme mencionado em linhas anteriores, as medidas sugeridas até então foram resultado de estudo realizado com os consumidores superendividados em Portugal. É evidente que as situações presenciadas no referido país são diferentes da realidade brasileira, mas a essência do superendividamento é a mesma em qualquer economia que se proponha analisar.

Então, o que se sugere é o aproveitamento do cerne dessas ideias, no sentido de buscar inspiração para a criação de outras medidas, talvez até mais condizentes com a realidade econômico-financeira do Brasil, a fim de lidar com a problemática do superendividamento quando da sua constatação.

No documento Centro Universitário de Brasília - UniCEUB REBECA DE QUEIROGA FALCÃO (páginas 64-67)