Capítulo III Osman Lins: a arte de escrever
4.4 Estrutura modular e narrativa hipertextual
Grande parte das obras literárias em prosa, impressas, hoje classificáveis sob o conceito de “literatura combinatória”, baseia-se no princípio de semelhança ao hoje tão comum hipertexto informático. São muitos os elementos que poderiam ser chamados em causa para advogar a homologia estrutural: uma organização em rede, combinando diversos gêneros, linguagens, códigos (quando além de texto escrito há desenhos, números, mapas, símbolos, gráficos), organizados (ou funcionalmente desorganizados) em módulos semânticos autônomos ou semi- autônomos, e principalmente os vários links e as possibilidades de escolha de percursos postas à disposição do leitor. É preciso enfatizar que o conceito de literatura combinatória é muito mais antigo e mais amplo do que o de hipertexto ou de narrativa hipertextual – mesmo que consideremos o hipertexto puramente como forma simbólica, desvinculado do universo cibernético ou do contexto informático. Mas o princípio da “combinatoriedade” dos módulos, ou seja, da possibilidade de escolha de percurso dado ao leitor, é o que caracteriza tanto o hipertexto quanto a literatura combinatória. Na verdade, porém, algo mais acomuna naturalmente hipertexto e literatura: o próprio hipertexto nasceu como ficção antes de se tornar uma realidade.
O termo “hipertexto” foi cunhado pelo americano Theodor Nelson nos anos 60, e é atualmente corriqueiro em todas as línguas, faz parte do léxico da informática e significa, grosso modo, um texto virtual constituído de “blocos” de informação405,
404 Do hiper-romance trataremos no capítulo VII. 405 Tratando-
se de hipertexto, tais “blocos” de informação são constituídos basicamente de texto escrito; mais propriamente chamar-se-ia hipermídia o conjunto de “blocos” de informação constituídos
cujos termos evidenciados constituem acessos (links) a outros “blocos” ou hipertextos, e assim indefinidamente.
Mas a história do hipertexto ligado à informática começa realmente com outro cientista americano chamado Vannevar Bush, em 1945. Bush publicou um artigo intitulado As we may think406, no qual conceitua uma máquina naquela época ainda
imaginária, uma bela ficção que chamou de Memex:
“um Memex é um dispositivo no qual um indivíduo memoriza todos os seus livros, documentos e comunicações, e que é mecanizado de modo que pode ser consultado com extrema rapidez e flexibilidade. É uma extensão pessoal de sua memória. (...) Uma informação seleciona imediata e automaticamente uma outra. Esta é a característica essencial do Memex. O mais importante é o processo que permite conectar duas informações.”407
Eis aqui acima o que se considera o registro de nascimento do conceito hipertexto, todavia ainda não assim batizado. Bush é o idealizador de uma estrutura em rede, constituída por paths interligados por links, ainda como teoria - ou como escreve Bush, como “profecia” realizável no futuro. Mas será Theodor Nelson, em 1965, a definir como “hypertext” a série de “produtos”, já realizados, em forma de textos registrados em memória magnética e compartilháveis por vários usuários, através de vínculos associativos. Nelson assim caracteriza o hipertexto:
“Por ‘hipertexto’ entendo um texto escrito, não sequencial, que se ramifica e permite escolhas aos leitores, lido preferivelmente em uma tela interativa (...) pelo modo como é concebido, trata-se de uma série de blocos de texto unidos por ligações que oferecem ao leitor percursos diferentes.”408
Está claro que Nelson batiza como “hipertexto” um conjunto binário: um registro em memória magnética, não diretamente acessível (não “visível”) a nossos olhos, e uma manifestação “aparente” desse registro (que Nelson especifica: “texto escrito”) sobre uma tela (devendo passar por um processo de transcodificação para por imagens, sons, ou quaisquer outras possibilidades que o meio informático permita. O termo “hypermedia” também foi cunhado por Theodor Nelson.
406
BUSH, V. “As we may think”, in Atlantic monthly, vol. 176, nº 1, parcialmente reproduzido in NYCE, J. M. e KAHN, P. (Orgs.). From Memex to Hypertext: Vannevar Bush and the Mind Machine. Boston: Academic Press, 1991. Usamos a versão italiana: BUSH, V. “Come possiamo pensare”, in J. M. NYCE e P. KAHN (Orgs.). Da Memex a hypertext: Vanevar Bush e la macchina della mente. Padova: Muzio, 1992, p. 41-62. O texto original de Bush, As we may think, está integralmente disponível também em http://www.ps.uni-saarland.de/~duchier/pub/vbush/vbush.shtml. Sobre o histórico da evolução do hipertexto, cf. o artigo de Jacques ANIS, “L’ipertesto come ipermetafora”, disponível em
Bollettino ‘900 - Electronic journal of ‘900 Italian Literature, http://www3.unibo.it/boll900/numeri/2005-
i/anis/html.
407
BUSH, V. “Come possiamo pensare”, op. cit., p. 55-56.
poder se tornar visível sobre a tela). Fica claro que se trata de um “produto” ou “processo” materialmente muito diferente de um texto impresso (ou manuscrito)409. Além disso, oficialmente, o termo “hipertexto” nasce sem pretensões artísticas, mas essencialmente práticas: definir “produto” e “processo” de armazenamento e manuseio da informação através da interconectividade por associação de idéias, constituindo uma estrutura reticular. Bush, por exemplo, já previa como hipótese que “formas totalmente novas de enciclopédia aparecerão”410, baseadas em redes de percursos associativos, já que
“a mente humana (...) opera por associação. A partir de um item salta instantaneamente para o próximo, sugerido por associação de pensamentos, de acordo com uma intrincada rede de percursos transmitidos por células do cérebro.”411 Com o passar dos anos a amplitude semântica aumentou, e o termo hipertexto foi usado para definir, caracterizar ou referir-se a vários produtos ou processos diferentes. Gérard Genette, por exemplo, usa “hipertexto” como termo complementar a “hipotexto”, este segundo como o “texto origem” do primeiro (segundo o exemplo de Genette Ulisses, de Joyce, é o hipertexto da Odisseia de Homero)412.
Nesse processo evolutivo não desconsideramos que ao longo de décadas o senso comum praticamente sacraliza o uso do termo como restrito ao meio virtual; e por isso pareceria, a princípio, realmente não ser apropriado o uso do termo para denominar o texto impresso em forma de livro413. No entanto, é evidente a homologia estrutural em relação a uma parte considerável daquilo que a princípio, e provisoriamente, abrigamos sob a expressão mais geral “literatura combinatória”, e ora procuramos reduzir a sua variante específica, a narrativa hipertextual.
É preciso, portanto, esclarecer: com “narrativa hipertextual” não remetemos diretamente (embora não descartemos) à narrativa produzida, armazenada ou lida
409 A analogia mais adequada, neste caso, parece ser a comparação memória (ideal) do
escritor/memória magnética, “lugar” onde estão “registrados” os textos, não acessíveis ao leitor antes de um processo que torne “aparente” tal registro sobre um determinado suporte (tela ou papel).
410BUSH, V. “Come possiamo pensare”, op. cit., p. 58.
411 Idem, p. 55. Segundo os neurologistas, é exatamente pelo mesmo princípio de associação que
funciona também a memória.
412 GENETTE, G. Palimpsestes: la littérature au second degré. Paris: Ed. du Seuil, 1982. Trad bras.,
GENETTE, G. Palimpsestos: a literatura de segunda mão. Trad. Luciene Guimarães e Maria A. Ramos Coutinho. Belo Horizonte: FALE/UFMG, 2006.
413 Embora, obviamente, essa não seja uma questão fechada: poderíamos, enfatizando que o criador
do termo afirma que o hipertexto seria lido “preferivelmente” em uma tela interativa, interpretar o advérbio como possibilidade de extensão a outros meios, primeiro dos quais o impresso.
em computador; tampouco adotamos o termo no sentido genettiano. Mas fundamentalmente adotamos em nosso estudo o conceito de “hipertexto” (prévio à realização em meio informático) como critério auxiliar de análise de funcionamento de uma estrutura narrativa dinâmica, associativa, não sequencial, não hierárquica e combinatória; e como o termo define o conceito e não o meio em que ele se realiza, não vemos motivo para rebatizá-lo. Entendemos, portanto, “narrativa de tipo hipertextual” como um caso específico de combinatória literária, em que módulos de texto são postos a disposição do leitor para que este monte, desmonte e remonte seu texto final, estabelecendo percursos possíveis segundo “regras” ou possibilidades “sugeridas” ou disponibilizadas pelo autor. É preciso esclarecer que nem sempre, na narrativa de tipo hipertextual, há uma regra que defina as possibilidades permutativas ou combinatórias; mas sempre haverá possibilidades de escolha de um percurso. A narrativa de tipo hipertextual pode ser simples, contendo somente elementos alfabéticos, ou composta, contendo elementos gráficos não alfabéticos, como símbolos ou imagens de vários tipos. Lins e Calvino produziram narrativas hipertextuais de ambos os tipos.
À pergunta que surge naturalmente: mas não seria uma superinterpretação, um exagero, propor uma leitura hipertextual das obras de Osman Lins e Italo Calvino, sem desvirtuar seus textos, sem trair uma cronologia impositiva de leitura e interpretação?, não temos resposta definitiva, podemos apenas declarar em nossa defesa que nossa intenção é a de utilizar um modelo de análise e interpretação, sem jamais afirmar que os autores das obras em análise, quando realizadas, teriam levado em consideração os mesmos elementos de que disporemos para analisá-las. Poderíamos chamar Umberto Eco em nosso socorro, quando este, retoricamente, se pergunta:
“Quando Lévi-Strauss e Jakobson analizam Les chats de Baudelaire trazem à luz uma estrutura que está além de suas leituras possíveis, ou será que não lhe dão, ao contrário, uma execução possível somente hoje, à luz das aquisições culturais do nosso século? Nessa suspeita se baseia totalmente Opera aperta.”414
Raquel Wandelli, estudiosa do hipertexto, questiona-se também, retoricamente, se o hipertexto não estaria mais ligado a uma forma de leitura do que a uma concepção de “objeto”; e, embora sabiamente evitando uma resposta direta, prefere ver o hipertexto (entre outras coisas) também como “uma nova forma de ler
velhos textos e revisitar velhas teorias”415. Enfatiza que embora as teorias sobre o hipertexto tenham sido constituídas nas últimas décadas, “nascem como tributárias e corolárias das reflexões estruturalistas e pós-estruturalistas sobre o texto que se vinham acumulando e sedimentando no final do último século”416, e que “reassimilam experiências narrativas de épocas distintas e antigas técnicas de linguagem, que vão da oralidade à escrita computadorizada”417. Dom Quixote e
Tristram Shandy – só para lembrar dois títulos famosos – são citados por Wandelli
como textos que já utilizavam “recursos hoje potencializados pelo hipertexto”418, como “a rede imensa de histórias interpoladas que entrecortam a narrativa do velho Dom Quixote”419, ou o uso de “recursos que trazem o não-verbal para o campo da linguagem e conferem ao romance uma heterogeneidade hoje intensificada pelo hipertexto”420. Wandelli cita ainda como precedentes da literatura hipertextual o conjunto de
“rébus, acrósticos, emblemas, palíndromos e poemas da literatura ocidental do Primeiro Milênio ou os haikais da tradição oriental. Índices, intertítulos, gráficos, linhas de apoio, retrancas que permitem várias entradas e saídas do texto sempre fizeram parte da arquitetura das publicações periódicas e jornalísticas, e serviram de modelo para os front-pages (páginas de entrada) da Internet. Capas e sumários de revistas e jornais (...) trazem implícito o princípio de escolha de percurso que caracteriza a literatura hipertextual.”421
Percebe-se, da citação, que a autora lista gêneros e subgêneros literários e informativos, enfatizando essencialmente duas características: “a quebra da espacialidade bidimensional da página”422 (justamente por trazer o não-verbal para compartilhar com o verbal o espaço da página, processo largamente utilizado por
415 WANDELLI, R. Leituras do hipertexto: viagem ao Dicionário Kazar. Florianópolis: Editora da
UFSC/São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2003, p. 24. Para uma discussão mais profunda sobre as relações entre hipertexto e teoria literária, cf. LANDOW, G. P. L’ipertesto: tecnologie digitali e critica letteraria. Milano: Mondadori, 1998.
416 Idem, p. 25. 417 Idem, ibidem.
418 Idem, p. 24. A autora aponta como características hipertextuais do Don Quixote
“a divisão em capítulos (fragmentação), marcados por subtítulos, os prólogos, as linhas de apoio, sumários, dedicatórias e recursos que Genette chamou de paratextos” (p. 24); do Tristram Shandy aponta as “digressões, remissões a páginas anteriores, capítulos que surgem interrompendo outros, o metanarrador (...) [que] faz a leitura circular sobre si mesma. Sterne já chamava a atenção para a materialidade do livro, ao interpor páginas em branco que marcam a exclusão de pedaços da história, páginas em negro (...), cruzes e sinais gráficos que indicam o fluxo de leitura.” (Idem, p. 25).
419 Idem, p. 24-25. 420 Idem, p. 25. 421 Idem, ibidem. 422 Idem, ibidem.
Lins, um pouco menos por Calvino) e, devido à interconectividade, a possibilidade de escolha de percursos.
Levando em conta essa última e fundamental característica das narrativas hipertextuais, poderíamos acrescentar outros textos, como o Orlando furioso, de Ariosto, que é uma imensa rede de micro-narrativas autônomas, abrigadas sob uma moldura que lhes dá coesão de conjunto. Outro exemplo de narrativas autônomas interligadas é o clássico As mil e uma noites, em que as histórias vão se sucedendo
en abyme, como se novas páginas virtuais fossem abertas via links hipertextuais.
Até mesmo a Divina Comédia, de Dante, totalmente baseada no princípio da simetria e da numerologia - dividida em cem cantos estruturados em três cânticas que retratam os três reinos do além, divididos estes últimos em dez partes cada um - permite ao leitor uma escolha: embora tenha um enredo sequencial em que o leitor acompanha a jornada do personagem narrador Dante, se preferir o leitor pode escolher uma leitura (pensamos em uma segunda leitura, após se ter conhecido toda a estrutura da obra) por tema (pecado ou virtude), por personagem, por lugar, visto que os episódios são autônomos, embora conectados entre si como numa imensa rede universal. Famosa, por exemplo, a simetria dos cantos VI: no Inferno, a política de Florença, no Purgatório, a da Itália; no Paraíso, a do Império.
Outro belo exemplo de estrutura potencialmente hipertextual – “módulos” temáticos independentes, sob uma “moldura” - é o Decameron, de Boccaccio, estruturado em cem novelas autônomas mas interligadas “em rede”, divididas em dez temas, desenvolvidos por dez narradores, em dez dias: o leitor pode definir seu percurso, escolhendo por tema, por narrador, por dia.
A própria facilidade de transposição dessas obras ao formato virtual informático423 confirma nossa certeza de uma possibilidade de leitura hipertextual, acronológica, produtiva, de tais textos literários; basta que para isso privilegiemos como fundamental o critério estrutural da narrativa – que é o que fazemos, em função de nossa perspectiva de análise: lançar um novo olhar às obras e ao mundo que as engendrou. Michel Bernard afirma que “como todas as técnicas de
423 Cf., por exemplo, os projetos: “Uma rede no ar – os fios invisíveis da opressão em Avalovara, de
Osman Lins”, liderado pela professora Leny da Silva Gomes, do Centro Universitário Ritter dos Reis, de Porto Alegre, disponível em http://www.um.pro.br/avalovara/; cf. também o interessante projeto “Decameron web”, coordenado pelo professor Massimo Riva, da Brown University, (http://www.brown.edu/Departments/Italian_Studies/dweb/index.php); naturalmente além dessas aqui indicadas há outras versões on line das mesmas obras ou suas partes; versões hipermidiáticas da
Divina Comédia, de Don Quijote, de Tristram Shandy, e d’As mil e uma noites são tão abundantes na
comunicação novas, o hipertexto nada faz além de dar a possibilidade de materializar, de exprimir uma nova visão – ao mesmo tempo do mundo e da escrita”424.