CAPÍTULO III O DIREITO, OS PARENTES E AS REDES DE SOLIDARIEDADE
3.2 Ingressar na UFSC: o desejo de profissionalização
3.2.3 Estudantes da comunidade Aldeia: andando juntos
Conforme material da pesquisa etnográfica, 12 estudantes do Aldeia ingressaram na UFSC no período de 2009 a 2019. No Quadro 7, apresento informações referentes a essas/es estudantes, destacando o ingresso antes e depois das vagas suplementares. A situação de Eduardo Duarte é singular, pois ingressou em 2016 pela política “Retorno do Graduado”. É interessante observar que, como os do Morro, a maioria ingressou na UFSC na faixa etária dos 30 anos. Destaco que das pessoas relacionadas na tabela, não conversei de forma alguma com Manuel dos Passos, Maria do Carmo Pereira, Misael Costa Pereira e Ubiracy da Glória Junior.177
Em setembro de 2018, fui ao quilombo Aldeia e conversei com Lu Quilombola, que ingressou em 2015 no curso de Serviço Social em vagas remanescentes.178 Na ocasião, também conversei com seu marido, Eduardo Duarte. Ele entrou em física em 2016 por meio da política denominada Retorno de Graduado. Essa política possibilita às pessoas graduadas cursar outra graduação a partir de um processo simplificado que é feito diretamente na coordenação do curso desejado, a partir de edital específico (UFSC, 1997).179
QUADRO 7 – INGRESSANTES ANTES E DEPOIS DAS VAGAS SUPLEMENTARES (2009-2019) – ALDEIA
Comunidade Quilombola Aldeia Antes das Vagas Suplementares
Ingresso Nome Idade Estado civil Filhas/os Curso
2009 Manoel dos Passos 33 solteiro Não Educação do Campo
2012 Camila Pereira 17 solteira Não Direito (egressa)
2015 André Nascimento** 22 casado Não Arquivologia (desistente)
2015 Lu Quilombola 33 casada Não Serviço Social
Depois das Vagas Suplementares
Ingresso Nome Idade Estado civil Filhas/os Curso
2018 Ana Nascimento 37 Casada sim (1) Serviço Social
2018 Alba Romão 37 Solteira não Serviço Social
2018 Rodrigo Romão 36 casado sim (1) Educação Física
2019 André Nascimento 25 casado não Jornalismo
2019 Maria Pereira 38 separada sim (2) Letras – Libras
2019 Misael Pereira 30 * * Secretariado Executivo
2019 Ubiracy Junior 25 * * História (noturno)
Ingresso pela política Retorno do Graduado
Ingresso Nome Idade Estado civil Filhas/os Curso
2016 Eduardo Duarte 38 Casado Sim Física
FONTE: Quadro organizado pela autora. * Sem informações precisas.
** Estudante que posteriormente reingressou em outro curso.
178 Em 2015 o curso de Serviço Social disponibilizou 59 vagas remanescentes. Destas, seis foram para a reserva de 10% do Programa (UFSC, 2015d). Lu Quilombola disse que, com sua nota, ingressou pela concorrência geral. Conforme a normativa da UFSC, o preenchimento das vagas era feito, primeiro, pelas notas, e depois, pela reserva do Programa. Com isso, abria possibilidade de um ingresso maior de cotistas.
179 A cada semestre a UFSC divulga edital com as vagas disponíveis e seus respectivos cursos, chamado de Edital de Admissão por Transferências e Retornos, nos termos da Resolução 017/CUN/97 que atende a três modalidades: 1) Transferência Interna (mudança de turno, de habilitação no mesmo curso; troca de curso; troca de pólo/EaD ou modalidade/EaD/Presencial – Presencial/EaD; e retorno de aluno abandono da UFSC); 2) Transferência Externa (mudança de Instituição de Ensino Superior (IES), pública ou privada); e 3) Retorno Graduado (graduados na UFSC ou em outras Instituições de Ensino Superior (IES)).
Eduardo e Lu têm dois filhos, nascidos em 2016 e em 2019. Eduardo também tem uma filha de dez anos, fruto de seu primeiro casamento. Ele tem 40 anos e é professor na escola quilombola do Morro do Fortunato. Fez graduação em Engenharia Elétrica em uma faculdade privada, há quinze anos, por meio de um convênio/bolsa com a empresa em que trabalhou por quase 20 anos. Ao ficar desempregado não conseguiu outra colocação na área. Como descrevi no tópico anterior, seu irmão, Ézio Duarte, faz Engenharia Civil e sua relação com o Morro do Fortunato é de afinidade. Eduardo disse que está se “aquilombando”. Retorno a essa questão no Capítulo IV ao tratar das noções políticas de quilombolas.
DIAGRAMA 1 - ESBOÇO DAS RELAÇÕES DE PARENTESCO ENTRE ESTUDANTES DO ALDEIA, CONSIDERANDO O CURSO E O ANO DE INGRESSO NA UFSC
FONTE: Material etnográfico da autora (2020).
Evidenciei no Capítulo II que vó Ciloca é reconhecida como a matriarca do grupo e como a primeira criança nascida no território quilombola (ALBUQUERQUE, 2014). Sua irmã Adelaide, a benzedeira, é também assim reconhecida e não foi possível conhecer as distinções feitas em relação a ambas. Fiz o diagrama 1 a partir de informações disponibilizadas,
Relação conjugal Separação Mulher Homem Tia Adelaide Vó Ciloca 2018 Rodrigo Romão (Ed. Física) 2018 Alba Romão (Serviço Social) 2018 Ana Nascimento (Serviço Social) 2009-2013
Manuel dos Passos ( Licenciatura em ed. Campo) 2019 Maria do Carmo Pereira (Letras - Libras) 2015 Lu Quilombola (Serviço social) 2012-2017 Camila Pereira (Direito) 2016 Eduardo Duarte (Física) 2019 André Nascimento (Jornalismo)
principalmente, por Lu Quilombola.180 Lu se referiu a sua avó Ciloca e tia avó Adelaide no presente.181 Assim sendo, busco expressar esta perspectiva no diagrama 1. As e os estudantes são primas e primos e descendem de ancestrais irmãs-irmão, com exceção de Eduardo Duarte e de Ana Cristina Nascimento, cujos vínculos com o grupo são de afinidade.
Ana Cristina tem 37 anos e é casada com Rodrigo Romão, com quem tem uma filha de 12 anos. Ela ingressou no curso de Serviço Social no segundo semestre de 2018. Seu marido faz educação física e, a irmã dele, Alba Romão, sua cunhada, também cursa serviço social. Os três ingressaram por meio das vagas suplementares em 2018. As cunhadas ingressaram no mesmo curso, porém em semestres diferentes. O marido e a cunhada são filhos da presidenta da Associação Quilombola Aldeia (2018) que, por sua vez, é prima de uma liderança do Morro do Fortunato. Essas relações dão indícios dos vínculos de proximidade entre estudantes e a liderança do Aldeia e dos vínculos dessa liderança com o Morro do Fortunato.
Ana é técnica em Raio X, curso que fez em Fortaleza, de onde veio. Disse que a coordenadora do MNU avisou a comunidade da abertura das inscrições para as vagas suplementares. Ela fez a inscrição em sua casa e fez a prova em uma escola em Garopaba, com indígenas. Conforme Ana, sua cunhada, “a Alba se inscreveu no mesmo curso, serviço social noturno” (Ana Cristina Nascimento, 14 de novembro de 2018). Nesse ano, foram convocadas/os somente sete estudantes na primeira chamada. Estudantes quilombolas e o movimento exigiram que a UFSC convocasse mais dois, em atendimento à Resolução nº 52/15 que prevê a destinação de nove vagas para esse público.
Nesta circunstância, já no segundo semestre de 2018, Ana recebeu um e-mail da PROGRAD lhe pedindo para escolher outro curso, pois, como já descrito, a política também prevê o ingresso anual de apenas uma/um estudante por curso. Ela falou que, “na verdade, queria fisioterapia, mas só tinha em Araranguá”. Pensou também em fazer odontologia, mas chegou à conclusão de que não teria condições de “montar um consultório, que nem Direito, se não tiver um para arrumar”. Ao fazer essa ponderação, Ana mencionou o caso de uma pessoa que concluiu o curso em Direito, porém, não conseguiu se estabelecer em um escritório de advocacia, porque não tinha alguém para “arrumar”. Ou seja, não tinha recursos relacionais que potencializassem sua atuação na área de formação. Depois de refletir sobre as possibilidades de inserção profissional, manteve a opção do curso e mudou o turno para diurno.
180 Ao representar a rede de relações em forma de diagrama não tenho a pretensão de congelar as relações ou explicitar todas as relações da rede. Busco torná-las mais compreensíveis de modo visual, embora entenda que tal representação seja parcial e limitada.
Quando conversei com Ana Cristina, ela estava finalizando o primeiro semestre. Disse que estava “puxado” e achava que ia reprovar em algumas disciplinas.
Está difícil, porque acordo às 4h30 da manhã. Tem a questão dessa bolsa que não chega. Tem filha, tem as provas da filha, tem as minhas provas que as vezes coincide. E é isso. Tem o marido, filha, casa. É diferente do tempo de uma jovem solteira. Não é porque o aluno está de manhã que não trabalha. O professor, às vezes, tem que ser mais flexível.
As responsabilidades que têm com a casa, com a filha, com o marido e com os estudos fazem seu tempo diferente do tempo de “uma jovem solteira”. Ana explicitou o peso da divisão do trabalho que opera na dinâmica dos afazeres domésticos. Para compatibilizar seu tempo, que não é somente seu, estava planejando fazer o mínimo de disciplinas possível no próximo semestre, para poder se dedicar mais a cada uma. As colegas da turma fizeram um grupo de estudo para as provas, “mas era à tarde e eu não podia”. Entretanto, alegou que as colegas a ajudaram e “deram força”, pois chegou a pensar em desistir.
O perfil de estudantes do Aldeia é similar ao da maioria dos estudantes do Morro, que estão na faixa etária entre 30 e 40 anos. As exceções entre os que conversei são Camila e André. Eduardo Duarte, Lu Quilombola, a presidenta da associação do Aldeia e dois de seus filhos estudantes têm relações de parentesco com os do Fortunato. A pesquisa etnográfica me possibilitou entrever a complexidade das relações de parentesco entre estudantes do Aldeia e entre estudantes do Fortunato e do Aldeia. A inviabilidade de aprofundar a descrição não impede de apontar os indícios de uma ampla rede que se constitui também como relações políticas e de apoio mútuo. Tal fenômeno também pode ser depreendido do convite para um “Bate-papo” no quilombo Aldeia com as presenças de representação do Ministério Público e de lideranças da comunidade Morro do Fortunato, como mostra a Figura 11.
A seguir descrevo as narrativas dos primos Abegail de Souza e Ezequiel de Souza, da comunidade Invernada dos Negros, relativas à permanência na UFSC e a saudades de casa. Diferentemente do perfil de estudantes do Morro e do Aldeia, estudantes da Invernada dos Negros têm ingressado na universidade na faixa etária de 20 anos.
FIGURA 11 - BATE PAPO NO QUILOMBO ALDEIA
FONTE: Facebook da Associação Quilombola Aldeia (ACORQUIAL, 2016).