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Estudos correlatos: um mar de conhecimentos

No início deste capítulo, reportamo-nos a um trecho da obra “O livro dos abraços”, de Galeano (2002), para expressar que não fazíamos ideia da imensidão, dos muitos rios que desembocam, inicialmente, nesse mar de estudos correlatos ao nosso tema de pesquisa. É realmente gigantesco, e o que vemos é denso, rico, dando-nos a sensação de querer levantar voo do chão e voar na imensidão.

Em busca de pesquisas que pudessem nos auxiliar na ampliação da discussão sobre os CEIs da rede parceira do município de São Paulo e os desafios que os CPs encontram na formação dos docentes, acessamos a plataforma da Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD) para buscar estudos referentes a essa temática, realizados entre 2010 e 2019, período mais recente das mudanças das políticas públicas na Educação Infantil.

Iniciamos o levantamento a partir das palavras-chave “formação continuada” e

“educação infantil” e obtivemos 629 resultados. No intuito de alcançarmos pesquisas já realizadas sobre o tema aqui proposto, buscamos outro descritor que nos ajudasse a dar sentido ao objeto de estudo nas diferentes perspectivas. Sendo assim, realizamos nova busca, para filtrar os resultados encontrados, acrescentando os descritores “rede conveniadas” e “qualidade da formação nas creches”.

Esse novo acesso resultou em nove trabalhos, dos quais três se referiam a pesquisas realizadas nos estados do Rio Grande do Sul e de Minas Gerais e seis, no estado de São Paulo.

Sendo assim, pelas diferenças de legislação, optamos por selecionar apenas as seis pesquisas realizadas em São Paulo, sendo cinco dissertações e uma tese.

Realizamos então a leitura dos resumos dessas investigações, tendo como foco identificar os objetivos da pesquisa, os sujeitos participantes e os resultados, para que pudéssemos compreender os estudos e perceber em que se aproximavam de nosso tema de estudo e em que poderiam nos ajudar a pensar em nosso percurso.

Assim, encontramos a pesquisa de Santana (2019), que teve como objetivo analisar e comparar as características da formação continuada de professores da rede parceira de Educação Infantil da Prefeitura Municipal de São Paulo (PMSP), Diretoria Regional de Educação de Campo Limpo (DRE-CL), considerando as modalidades de instituições oferecidas: rede direta e rede parceira (conveniada/indireta).

A pesquisadora utilizou metodologia de abordagem qualitativa e coletou dados por meio de levantamentos bibliográficos e análise de documentos oficiais, como Circulares Informativas da DRE-CL, Decretos, Portarias, Orientações Normativas, Leis e Resoluções.

Santana (2019) destacou como resultados de seu estudo a necessidade de mais investimentos da PMSP na rede parceira, no que se refere à igualdade de jornada e de possibilidades de cursos de formação. Esses resultados contribuíram para nossa reflexão, nesta pesquisa, no que tange à formação continuada da rede parceira, às diferenças de oportunidades e como isso afeta o desenvolvimento profissional dessa rede.

A pesquisa de Leite (2018), por sua vez, teve como objetivo investigar as implicações das condições de trabalho no desenvolvimento profissional das CPs que atuam nos CEIs conveniados da Secretaria Municipal de Educação (SME) de São Paulo.

O percurso metodológico teve uma abordagem qualitativa e permitiu conhecer o contexto e as condições precárias de trabalho das CPs da rede conveniada, pela perspectiva das participantes. A coleta de dados foi realizada por meio de questionário com perguntas abertas e de múltipla escolha, aplicado a duas duplas de CPs.

Os dados possibilitaram identificar as muitas dimensões presentes na atuação dessas profissionais, permeada pelos desafios de seu contexto, relacionados às questões da formação ao longo da carreira. As percepções das CPs revelaram maior incidência dos aspectos facilitadores de seu desenvolvimento profissional, vinculados ao desejo de continuar crescendo profissionalmente e de permanecer no cargo. Por outro lado, também apontaram os aspectos dificultadores, evidenciando as condições da carreira. Dentre esses aspectos estão: baixo salário; quadro reduzido de recursos humanos; acúmulo de função; falta de clareza das atribuições; complexidade das relações interpessoais, principalmente com as professoras;

infraestrutura deficiente de algumas unidades escolares; falta de insumos para a realização do trabalho; escassas formações a que têm acesso; exíguos momentos em sua rotina para a realização da formação das professoras; pouco reconhecimento dos mantenedores e da Prefeitura pelo trabalho desenvolvido.

Já a pesquisa de Panizza (2018) teve como objetivo compreender as necessidades, os desafios e as possibilidades formativas da gestão das creches conveniadas do município de São Paulo. Ao final, a pesquisadora propôs indicativos para a formação dos gestores no papel da supervisão escolar, que colaborem e qualifiquem as ações educativas construídas com bebês e crianças na Educação Infantil.

Para o desenvolvimento do estudo, a autora, inspirada nas teorias de Josso (2004; 2007), Souza (2007) e André (2008), utilizou-se da abordagem qualitativa, com a finalidade de reconhecer, por meio da entrevista narrativa, as necessidades formativas dos sujeitos da pesquisa – duas duplas gestoras (direção e coordenação pedagógica) –, no contexto das creches conveniada do município de São Paulo.

Conforme mencionamos, esse estudo resultou em indicativos para uma proposta formativa, que, por meio de um calendário integrado entre a creche, o departamento pedagógico da DRE e a Supervisão Escolar, contemplasse a escassa formação das creches da rede conveniada. A autora relata que:

Ao propor a formação no campo da Gestão dos CEIs conveniados, dentre os pontos que se destacam no percurso da pesquisa, considero que é relevante explorar com esses sujeitos seu papel e corresponsabilidades como produtores de cultura na Escola, oportunizando discussão e reflexão, acerca de suas atribuições, do Diretor Escolar e do Coordenador Pedagógico, com base na documentação legal, concepções e referencias teóricos (PANIZZA, 2018, p. 107).

Outra pesquisa selecionada foi a de Brustolin (2018), que analisou as necessidades formativas dos diretores que atuam nos CEIs da rede conveniada, localizados na região Sul de São Paulo. A autora realizou uma pesquisa de abordagem qualitativa e o procedimento metodológico para a produção dos dados foi a aplicação de questionário para os diretores.

A partir das análises realizadas, ela observou que se faz necessário um investimento em formação continuada para os diretores que atuam nessas instituições, a fim de que melhor compreendam as políticas públicas de atendimento às crianças de zero a três anos e possam desenvolver um trabalho de qualidade. O estudo considerou, ainda, a necessidade de um posicionamento por parte da SME frente às responsabilidades nas ofertas de formação continuada nos CEIs conveniados.

Apesar de o sujeito da pesquisa de Brustolin (2018) ter sido o diretor escolar, o estudo chama atenção para as diferenças de oportunidades de formação para os profissionais dessa rede e o pouco investimento por parte do município de São Paulo, como também foi apontado por Santana (2019).

A pesquisa de Craveiro (2015), por sua vez, teve como objetivo identificar e analisar os fatores que influenciam a implementação da política de Educação Infantil nas creches conveniadas do município de São Paulo, tendo 25 creches pertencentes às DREs do Butantã, do Campo Limpo e de Guaianases como objetos de estudo. A autora buscou investigar coincidências e singularidades entre dois grupos de creches considerados, respectivamente, de boa e de má qualidade. A metodologia foi de cunho qualitativo, tendo como instrumentos de pesquisa a observação direta e a análise documental da prestação de contas das unidades.

A pesquisa evidenciou que, ao não lidar institucionalmente com as desigualdades existentes na rede conveniada, o poder público municipal contribui para a manutenção dessas desigualdades. As condições que interferem no atendimento são materializadas por meio do espaço físico e dos materiais pedagógicos disponíveis.

Por fim, a pesquisa de Zumpano (2010) investigou o papel do CP da rede conveniada no processo de formação continuada em serviço do professor de Educação Infantil que atua nas creches. O estudo utilizou a abordagem da pesquisa qualitativa e teve CPs como sujeitos, cuja coleta de dados foi realizada por meio de entrevistas semiestruturadas. A interpretação dos

dados obtidos revelou que as participantes consideram seu papel fundamental, articulador e integrador no processo de formação continuada em serviço das professoras que acompanham.

Os principais desafios revelados pelas CPs foram: fazer com que a educadora de creche se perceba como professora; possibilitar que as professoras levem para a prática as experiências vivenciadas nas formações e superar a visão assistencialista existente no fazer do professor de creche, entre outros.

Conforme mencionamos, todas as pesquisas selecionadas tiveram abordagem qualitativa, o que nos ajudou a pensar em nossa própria pesquisa, como uma vantagem exploratória por natureza, e a entender detalhes da problemática de nosso tema.

Identificamos que os autores de referência teórica que predominaram nas pesquisas relatadas foram: Placco, Imbernón e Tardif, que abordam a formação docente reflexiva; Franco, Nóvoa e Carlos Marcelo, que tratam da formação continuada de professores; e Hadad, Campos e Rosemberg, que discorrem sobre a contextualização histórica das creches no município de São Paulo.

As pesquisas aqui apresentadas trouxeram contribuições que evidenciaram uma relação com nosso foco de investigação, que é o fortalecimento da reflexão da prática pedagógica nos momentos formativos no CEI.

Para finalizarmos este tópico, ainda comentando as pesquisas correlatas selecionadas, apresentaremos a seguir algumas aproximações, diferenças e complementaridades entre elas e o presente estudo.

Leite (2018) evidencia que, segundo Placco e Souza (2015, p. 17), as aprendizagens dos professores e demais profissionais das unidades escolares resultam “da interação entre os adultos, quando as experiências são interpretadas, habilidades e conhecimentos são adquiridos e ações são desencadeadas”, e devem ter um caráter reflexivo e crítico sobre as práticas.

Ao trazer à tona a temática da prática reflexiva e crítica, a autora discute uma formação que tenha como premissa os eixos a seguir, destacados por Imbernón (2011), que possibilitem reflexões não apenas de aspectos técnicos, mas como um terreno prático das concepções docentes:

1. Reflexão prático-teórica sobre a prática docente; 2. Troca de experiências entre os docentes, possibilitando a atualização de intervenções educativas e comunicação entre os pares; 3. Formação conjunta enquanto projeto de trabalho; 4. Estímulo crítico quanto a relações verticais de poder dentro da escola, a desvalorização da profissão docente e práticas sociais de exclusão e intolerância; 5. Desenvolvimento profissional da instituição educativa por meio de ações colaborativas para transformar as práticas de isolamento e individualismo (LEITE, 2018, p. 65).

Diante disso, podemos afirmar que Leite (2018) está em consonância com o presente estudo, ao trazer o panorama geral das condições de trabalho e formativas das professoras e coordenadoras do CEI, clarificando as ideias acerca de que essas condições interferem nos eixos citados na referência a Imbernón (2011). A diferença é que, nesta pesquisa, focaremos como a CP faz a formação em serviço das docentes, dada a realidade das condições de trabalho apresentadas por Leite (2018), e se essa formação atende às demandas das práticas pedagógicas das professoras.

As contribuições de Zumpano (2010), Craveiro (2015) e Santana (2019) corroboram as de Leite (2018), no que se refere à investigação do papel do CP na formação continuada em serviço do professor da Educação Infantil, na rede parceira do município de São Paulo, ajudando a analisar e comparar as características da formação continuada de professores da rede parceira da Educação Infantil e da rede direta.

As pesquisas de Brustolin (2018) e Panizza (2018) colaboram com este trabalho ao relatarem a gestão das creches conveniadas do município de São Paulo e suas necessidades formativas. Neste estudo, buscaremos identificar as necessidades formativas das CPs para atuarem com as professoras na formação em serviço.

De acordo com Estrela e Leite (1999), o conceito de necessidades formativas é ambíguo. Para as autoras, existe uma discrepância entre a situação real e a ideal, e há uma variação de necessidades identificadas, interpretadas e desejadas pelos professores e as observadas como deficientes por outros atores. As necessidades são relativas e mutáveis ao longo do tempo, ou seja, a necessidade assume diferentes significados, de acordo com a abordagem utilizada para analisá-la.

Desse modo, fica em evidência o desafio para que os encaminhamentos metodológicos sejam motes de discussão no levantamento de necessidades formativas das CPs, trazendo a seguinte preocupação: a partir de que perspectiva serão analisadas essas necessidades? Do observador, do sentimento desejado pelo grupo ou de quem está sendo formado?

Em sua pesquisa, Panizza (2018) destacou os desafios e as possibilidades formativas na ação supervisora, o que vem ao encontro da atuação da autora do presente estudo, como reflexão nos futuros apontamentos para uma formação das CPs.

Concluindo, as pesquisas correlatas ao tema desta investigação, que abordaram a Educação Infantil da rede parceira ou conveniada, destacaram alguns aspectos relevantes para este estudo, dentre eles que há realidades distintas nos CEIs da rede direta e da rede parceira do município de São Paulo, com diferença de repasses de recursos financeiros entre elas – a

rede parceira recebe o menor repasse – e redução nas ofertas de oportunidades de formação para as professoras.

Reafirmando, esta pesquisa tem como objetivo geral analisar as necessidades formativas de coordenadoras pedagógicas dos CEIs da rede parceira, para o desenvolvimento da formação continuada das professoras que neles atuam.

A partir da investigação, buscaremos propor um dispositivo de formação continuada que colabore e contribua para uma reflexão coletiva sobre a própria prática, os desafios enfrentados e as descobertas realizadas, para “a nova era que requer um profissional da educação diferente” (IMBERNÓN, 2011, p. 12).

Diante do exposto, e considerando a atuação da pesquisadora como supervisora escolar, bem como suas atribuições, faz-se necessário pensar em propostas formativas nesse cenário, considerando as experiências de formação vividas pelas professoras das creches parceiras e o levantamento de suas necessidades formativas.

De acordo com a Orientação Normativa nº 01/2015, que traz os Padrões Básicos de Qualidade na Educação Infantil Paulistana, a formação inicial de docentes e gestores deve ser assegurada pela formação continuada em serviço. Assim, enfatizamos a necessidade de configuração de uma formação colaborativa de aprendizagem, em que todos os atores da educação estejam voltados ao desenvolvimento integral e à aprendizagem das crianças.

Evidenciamos a importância de sermos sujeitos protagonistas do processo de continuidade do desenvolvimento da história na Educação Infantil, não apenas pelas proporções de nossas formações, mas também pela diferença, diversidade e potência que emergem desse conjunto de ações; de sermos corresponsáveis pelos processos aprendentes de nossas crianças e de crescimento profissional de todos os educadores de nosso território, em uma perspectiva de equidade e igualdade.