ESTUDOS DA SOCIEDADE E DA
NATUREZA
NATUREZA
O processo de iniciação dos jovens e adultos trabalhadores no mundo da leitura e da escrita deve contribuir para o aprimoramento de sua formação como cidadãos, como sujeitos de sua própria história e da história de seu tempo. Coerente com este objetivo, a área de Estudos da Sociedade e da Natureza busca desenvolver valores, conhecimentos e habilidades que ajudem os educandos a compreender criticamente a realidade em que vivem e nela inserir-se de forma mais consciente e participativa.
A complexidade da vida moderna e o exercício da cidadania plena impõem o domínio de certos conhecimentos sobre o mundo a que jovens e adultos devem ter acesso desde a primeira etapa do ensino fundamental. Esses conhecimentos deverão favorecer uma maior integração dos educandos em seu ambiente social e natural, possibilitando a melhoria de sua qualidade de vida.
Os caminhos para atingir esses objetivos são vários, assim como vários são os fenômenos sociais e naturais que podem ser estudados. Nessa proposta, tratamos de organizar blocos de conteúdos de modo a auxiliar os educadores na seleção, organização e integração de temas a serem abordados.
A ordem em que esses blocos temáticos são apresentados não é necessariamente a que deve ser seguida no desenvolvimento da atividade didática, uma vez que eles não estão hierarquizados por grau de importância ou de complexidade. Caberá aos educadores, na elaboração de seu plano de ensino, selecionar, recombinar e sequenciar conteúdos e objetivos de acordo com as características de seu projeto pedagógico.
F o n t e : P H O T O S . C O M
O Educando e o Lugar de Vivência O Educando e o Lugar de Vivência
São conteúdos que podem ter uma aplicação imediata, especialmente no desenvolvimento de atitudes favoráveis ao convívio no centro educativo, na comunidade e no ambiente natural. Esses conteúdos podem constituir pontos de partida para abordagens mais gerais sobre a sociedade e a natureza, assim como para o desenvolvimento de algumas ferramentas cognitivas básicas como as noções de espaço e tempo, a capacidade de observar, comparar, classificar, relacionar, elaborar hipóteses etc. Igualmente, é válido abordar os conteúdos desse bloco como pontos de chegada; por exemplo, depois de tematizar a organização política do Estado brasileiro, refletir sobre a organização política da escola ou sobre a política do bairro. O Corpo Humano e
O Corpo Humano e Suas NecessidadesSuas Necessidades
Neste eixo, articulam-se conteúdos relativos ao conhecimento dos educandos sobre o próprio corpo, seu esquema e aspecto externo, formas de relacionamento com o meio exterior, mecanismos de preservação do indivíduo e da espécie. Destacam-se aspectos relativos à nutrição, reprodução e preservação da saúde, visando fomentar atitudes positivas com relação à manutenção da qualidade de vida individual e coletiva.
Propõe-se, ainda, que se abordem as necessidades das diferentes fases do desenvolvimento, especialmente da infância, no sentido de promover uma educação voltada à paternidade e maternidade responsáveis. O conceito de cultura é um dos principais elementos explicativos da condição humana, da condição de um ser que é capaz de pensar, acumular conhecimentos e transmiti-los às novas gerações.
Por esse motivo, esse conceito deverá emergir constantemente no trato dos conteúdos desta área. Para desenvolver o sentido crítico dos alunos em relação aos conhecimentos, é fundamental que eles reconheçam que, enquanto produtos culturais, os conhecimentos são dinâmicos, transformam e diferenciam-se no tempo e de um grupo social para outro.
Cultura e Diversidade Cultural Cultura e Diversidade Cultural
Nessa perspectiva, julgou-se pertinente ordenar um conjunto de conteúdos e objetivos orientados especificamente para um enfoque pluralista de aspectos da cultura brasileira. Os temas reunidos neste bloco, Cultura e diversidade cultural, também são fundamentais para o aprendizado de atitudes de não discriminação e tolerância, respeito à pluralidade cultural e étnica, às diferenças de credo, gênero e geração. Essas atitudes são essenciais para o convívio democrático numa sociedade diversificada como a brasileira.
Os Seres Humanos e o Meio Ambiente Os Seres Humanos e o Meio Ambiente
Neste eixo, articulam-se conteúdos que extrapolam as vivências imediatas dos educandos e dão lugar à introdução da linguagem cartográfica (estudo de mapas) e sistemas conceituais das ciências naturais e sociais. Destacam-se aspectos relevantes sobre as relações que se estabelecem entre os seres vivos, em particular os seres humanos e o ambiente físico. Questões relativas à degradação ambiental são relacionadas à atividade produtiva e contextualizadas nos espaços urbanos e rurais. Como suporte à estruturação das noções de tempo e espaço, inclui-se nesse bloco, em caráter introdutório, o estudo da Terra como corpo celeste em movimento, ao qual estão associados fenômenos como o dia e a noite, as estações e as marés.
As Atividades Produtivas e As Relações Sociais As Atividades Produtivas e As Relações Sociais
Enfatizam-se relações que os seres humanos estabelecem entre si para a produção de sua existência, além da nova qualidade que o trabalho humano adquire mediante o desenvolvimento tecnológico. São introduzidas então periodizações históricas relativas à História do Brasil, ampliando-se as possíveis conexões entre as atividades produtivas e outras dimensões da cultura.
Cidadania e Participação Cidadania e Participação
Aqui, o foco é a dimensão política da vida humana, visando-se aprimorar a consciência cidadã dos educandos. Aí estão implicados a adesão a valores democráticos e o conhecimento da organização social e política do país, dos direitos políticos, sociais e trabalhistas que a posição de cidadãos lhes confere, dos espaços e formas de organização e participação na sociedade.
Educação de Jovens e Adultos: Proposta curricular para o primeiro segmento do Ensino Fundamental. Disponível em: <http://www.acaoeducativa.org.br/downloads/parte1.pdf>. Acesso em: 26 nov. 2010. Histórias de jovens adultos
Histórias de jovens adultos22
por Gustavo Heidrich
Repórter 22/02/2008
Um panorama e a primeira história Um panorama e a primeira história
Na edição de novembro de 2003, a NOVA ESCOLA trouxe um encarte especial sobre Educação de Jovens e Adultos (EJA). Naquele ano, havia no Brasil 4,2 milhões de adultos nas salas de aula e um quadro de escolarização com números alarmantes. Sessenta e cinco milhões de brasileiros não haviam completado a Educação Básica. Desses, 30 milhões tinham até quatro anos de sala de aula e outros 16 milhões eram analfabetos.
O encarte da revista NOVA ESCOLA celebrava o crescimento no número de matriculados no EJA. De acordo com o censo escolar daquele ano, o número de frequentadores da Educação de Jovens e Adultos havia crescido 12% em relação há anos anteriores. O governo federal consolidava programas como a Alfabetização Solidária e o Fazendo Escola.
Conrmando os bons prognósticos, as matrículas na modalidade deram um salto para 5,6 milhões no ano seguinte, mantendo-se nesse patamar até 2007, ano em que caíram para 4,9 milhões. A queda pode ser parcialmente explicada pela mudança na metodologia do censo, que buscou reduzir as duplicações de matrícula.
Com a entrada em vigor do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb), que substituiu o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental (Fundef), em
2 HEIDRICH, Gustavo. Histórias de jovens adultos. Nova Escola on-line. São Paulo: Abril, jul. 2008. Disponível em: <http://
2006, o EJA passou a ser contemplado com uma parte dos recursos, uma vez que a Lei de Diretrizes e Bases (LDB), de 1996, determinou a classicação da Educação de Jovens e Adultos como categoria de Ensino Básico, e não mais supletivo. Programas foram lançados, como o Brasil Alfabetizado, o Proeja e o ProJovem, além de iniciativas da sociedade civil.
As altas taxas de evasão continuam a ser a grande batalha do EJA, que levam quase 70% dos ingres- santes a não concluir os cursos. Faltam também didáticas especícas e estratégias de ensino voltadas para esse público.
Os dados mais recentes sobre o analfabetismo no país são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), de 2006. Segundo ela, dos brasileiros com mais de 10 anos, 15 milhões são anal- fabetos. Um novo critério, o do analfabetismo funcional, entrou no cenário: 37 milhões de indivíduos têm diculdades para ler ou não compreendem um bilhete simples.
Dado o panorama, apresento o propósito desta coluna. Quero abordar, aqui, o debate de políticas públicas sobre EJA, as boas práticas de educadores e instituições que oferecem essa modalidade de ensino, mas, sobretudo, contar boas histórias sobre a Educação de Jovens e Adultos. Deixo vocês, a seguir, com a primeira, da paulista Gislene Gonçales.
Minha história, por Gislene Gonçales Minha história, por Gislene Gonçales
Minha paixão pela Educação começou no nome. Explico. Meus pais eram analfabetos e eu nunca soube como era meu nome completo. Eles sempre me chamavam por apelido. Fui conhecer meu nome verdadeiro na sala de aula de uma escolinha na Fazenda Bom Princípio, onde nasci, em Miras- sol, no interior de São Paulo.
Eu cresci na roça. Ainda bebê, meus pais estendiam um pano embaixo dos cafezais onde me vigia- vam enquanto trabalham na plantação do patrão. Aos cinco anos, comecei a ajudar trabalhando na limpeza dos cafezais com enxada. Minha infância foi dividida entre os afazeres da casa e a lida diária no campo. Ia à escola no tempo que sobrava. Adorava a sala de aula e cava triste toda vez que não tirava um 10.
Era uma vida de trabalho e sem fartura, mas livre. Tudo mudou quando eu estava para concluir a quarta série. Minha irmã mais velha se suicidou. Meus pais caram muito abalados e adoeceram. Acabaram se mudando da fazenda para a cidade, levando a família. Meus outros irmãos mais velhos se casaram e as contas e a responsabilidade da casa passaram para mim, que tinha 10 anos, e meu irmão Paulinho, de 12.
Tive que parar de fazer o que eu mais gostava: ir à escola. Comecei a trabalhar em período integral como babá e fazendo faxinas. Persisti, porque sempre tive fé que, às vezes, temos que percorrer um caminho na vida até conseguirmos as coisas boas que queremos. Mantive a casa ao lado do meu irmão, que trabalhava consertando bicicletas e numa fábrica de móveis. Com 15 anos me casei com um metalúrgico de 24. Aos 16 tive o primeiro lho, o Willian e aos 18 uma menina, a Evelin. Quando z 19, meu pai morreu e resolvi me mudar para Campinas. Era a primeira vez que saia de
Mirassol e foi assustador chegar numa cidade grande sem emprego e sem amigos e com dois lhos pequenos para criar, mesmo que tivesse apoio do meu marido.
Comprei em uma banca de revistas um modelo de currículo e preenchi sozinha, mesmo tendo pouca prática na escrita e vocabulário ruim. Distribui em hospitais, casas de família, lojas, universidades. Procurava uma vaga de copeira, faxineira, algo sim. Sabia que, naquele momento, não podia querer muito.
Passamos aperto, até que conseguisse um emprego. Morávamos num cortiço com banheiro coletivo e pagávamos o aluguel com diculdade. Finalmente, dois meses depois, consegui uma vaga de diarista na casa de dois professores universitários. Era a Educação cruzando meu caminho.
Eles me receberam mesmo sem ter nenhuma referência, porque contei minha história e eles perce- beram minha vontade de crescer. Com o tempo nos tornamos amigos e eles sempre me incentivavam a procurar um emprego melhor, estudar, porque sentiam que eu tinha capacidade.
Ficaram muito felizes quando consegui uma vaga como faxineira na Unicamp, para ganhar mais do que eles podiam me pagar. E disseram que eu poderia voltar a qualquer momento. Imagina, o em- prego era justamente na Faculdade de Educação!
Lembro do primeiro dia em que pisei na universidade. Me encantava ver todos aqueles alunos e professores discutindo, lendo. Passou a ser um hábito car na soleira das portas das salas para ouvir algum pedaço de aula. Adorava também sentir o cheiro dos livros quando ia limpar tudo.
Minha rotina era puxada. Limpava os banheiros, pátios, salas de aula. Cuidava, ainda, da manutenção dos jardins.
Queria mudar -
Queria mudar - Tinha feito até a quarta série na roça, então conseguia ler e escrever mesmo com um pouco de diculdade e meu vocabulário era muito limitado. Tinha também muitos vícios da fala do campo. Por exemplo, ainda falava “bassoura” em vez de “vassoura” e “cuié” em vez de “colher”. Nunca tive problema em fazer amigos e acabei conhecendo muita gente na universidade. Tive ami- zades com professores, alunos, outros funcionários. Quando conversava, sentia que não conseguia discutir com aquelas pessoas no mesmo nível. Faltava vocabulário, leitura, capacidade para me ex- pressar mesmo, sabe? Tinha parado a escola muito cedo. Resolvi que ia mudar isso.
Por vontade própria, me matriculei no programa de Ensino de Jovens e Adultos (EJA) da Unicamp. Nessa altura já tinha 23 anos, os lhos estavam mais grandinhos. O maior tinha 8 anos e a menor 6. Voltei, então, para a sala de aula.
Nossa, foi muito emocionante! Pensar que a última vez que eu tinha assistido uma aula e sentado numa carteira de escola tinha sido aos 10 anos! Completei o Ensino Fundamental e o Ensino Médio em seis anos. Foi um dos períodos mais felizes da minha vida. Adorava ver minhas redações destaca- das no mural da sala. Fui muito acolhida pelos professores e isso é fundamental no EJA. Imagina, você sai menina e volta mulher! É preciso muito carinho, atenção. Voltei a ser criança, crescendo com meus erros e acertos, sendo corrigida. Acho que não importa a idade, todo mundo precisa disso.
No meio do caminho, me separei do meu marido e quei com a guarda dos lhos. Ele nunca pagou pensão e tive que segurar as pontas sozinha. Assim que me formei, z um concurso para técnico administrativo da Unicamp e fui aprovada em primeiro lugar. De lá, consegui uma promoção em 2003 e hoje sou uma das chefes na Secretaria de Pós-Graduação da universidade, que é uma das maiores do país.
Comando uma equipe de 6 técnicos e estagiários. Cuido da matrícula, de relatórios ociais e distribuo as tarefas, faço tudo no computador. Me formei em nível superior em Recursos Humanos e z um curso técnico em Informática, com bolsa paga como mérito pelo meu desempenho no trabalho. Tra- balho no mesmo prédio onde fui faxineira.
Nunca descuidei da Educação dos meus lhos, apesar de todas as diculdades. Eles estudaram em escola pública, mas nunca repetiram nenhum ano. Meu lho está com 19 anos e está fazendo fa- culdade de Logística, para trabalhar na administração de fábricas. Minha menina está com 17 anos e terminando o Ensino Médio. Ela está decidindo entre Biologia e Pedagogia. Faço questão sempre de chamá-los pelo nome, nunca por apelidos como meus pais me chamavam.
Minha mãe morreu há quatro anos e um dos maiores orgulhos dela era contar para as amigas que a lha tinha se formado e trabalhava na universidade. Isso era uma grande conquista para ela que era analfabeta.
Minha próxima meta é fazer um mestrado em Pedagogia. Quero trabalhar com Educação de Jovens e Adultos.
As pessoas dizem que fui muito corajosa e sou especial. Não acho. Todo mundo tem capacidade e, se falta oportunidade, basta querer. Nunca é tarde para correr atrás.
CONSIDERAÇÕ
CONSIDERAÇÕES ES FINAISFINAIS
Ao término dessa unidade, você deve ter percebido que a escolarização passou a ser uma, entre outras, pré-condições para sobreviver na lógica da sociedade capitalista. O povo é obrigado a trabalhar para sobreviver e tem de lutar pelos instrumentos que o conduza até o trabalho.
A escola é um desses instrumentos. Entretanto, deparamos com a contradição: o mesmo trabalho que exige do indivíduo um certo nível de escolaridade, muitas vezes é responsável pela evasão escolar, pois o educando jovem ou adulto, encontra dificuldades de conciliar os estudos com as atividades profissionais da qual, na maioria dos casos, provem sua subsistência.
Nos últimos anos, o Ministério da Educação preocupado com o analfabetismo, investiu uma quantia significativa na educação de jovens e adultos e lançou campanhas para estimular a população evasiva a voltar para a escola.
Porém, conseguir a permanência dos inscritos até a conclusão, pelo menos do ensino fundamental é um grande desafio para o professor. A evasão se dá por diversos motivos: dificuldades financeiras, doenças, mudanças de bairro, cansaço devido ao trabalho e desinteresse pelo curso, o que na maioria das vezes demonstra o despreparo do professor que não oferece recursos atrativos capazes de prender o aluno na sala de aula. É evidente que a qualidade da educação de jovens e adultos não depende da boa vontade de voluntários dentro da unidade escolar, ou de instituições solidárias.
É necessária a formação de políticas que priorizem de fato a qualidade desta modalidade de ensino. Que garantam a contratação de profissionais qualificados, formados especificamente para este fim. O grande especialista, inovador na educação de jovens e adultos, Paulo Freire, há décadas já condenava a utilização de métodos infantilizados na alfabetização dos educandos. A qualidade do educador e dos métodos utilizados na educação de jovens e adultos influencia muito na permanência ou não do aluno em sala de aula. Abordar temas pertinentes à realidade do aluno, fazer conexões entre as disciplinas e suas relações culturais, econômicas e sociais, é primordial para prender a atenção do aluno, pois torna o aprendizado mais atraente, despertando o seu interesse, e fazendo com que descubra na educação um verdadeiro significado, um poder transformador da sociedade e de sua própria vida.