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Ethos discursivo e a imagem de si

No documento 2012ItatianeChiaradia (páginas 63-68)

1 LINGUAGEM E TRABALHO: INTERFACE SINGULAR

2.2 Ethos discursivo e a imagem de si

Abordamos, neste momento, noções de ethos, observando a herança retórica desse conceito para, depois, referir a proposição dos estudos relacionados ao ethos discursivo com base em Dominique Maingueneau e outros estudiosos sobre o assunto.

Conforme Carvalho (2010, p. 36, grifo da autora),

[...] o conceito de ethos advém da Retórica de Aristóteles como uma imagem que o locutor projeta por meio de seu discurso. Esta noção tem sido examinada por várias perspectivas teóricas na atualidade, devido à evolução das condições de exercício da palavra proferida publicamente.

Dessa forma, Aristóteles, em sua Retórica, apresenta a noção de ethos como a prova de persuasão baseada na imagem que o orador evidencia de si ao seu ouvinte, desconsiderando a opinião prévia que se tenha sobre ele.

Amossy (2005ab) menciona que, na Retórica de Aristóteles, ethos designava a construção de uma imagem de si, que visava a garantir o sucesso da oratória do orador. Tratava-se da imagem que este transmitia de si, em situação de fala pública, por meio de sua maneira de dizer, com o objetivo de conquistar a confiança do auditório. Entretanto, não se trata da apreensão dos traços de um sujeito psicológico que decide assumir certo modo de dizer para mais facilmente convencer seu interlocutor a aderir às suas teses. Tudo se dá em nível do discurso. É o posicionamento discursivo no qual o enunciador está inscrito que lhe confere um determinado ethos. O discurso “cria” o corpo de um fiador que, por meio de sua enunciação, produz certos efeitos na comunidade discursiva pressuposta e, ao mesmo tempo, validada por aquele discurso.

Segundo Carvalho (2010, p. 37, grifo da autora), “enquanto imagem de si no discurso, o ethos é um fenômeno enunciativo do qual não se pode escapar, pois, ao se utilizarem palavras no processo de comunicação, não há como fugir das imagens discursivas criadas pelos modos de dizer que remetem a uma maneira de ser”. Portanto, não há meios de se esquivar do ethos ou dos ethé29 criados na incorporação pelo coenunciador.

Maingueneau (2008c, p. 13) destaca que Aristóteles assim versava a respeito do ethos: “causar boa impressão pela forma como se constrói o discurso, a dar uma imagem de si capaz de convencer o auditório, ganhando sua confiança. O destinatário deve, então, atribuir certas propriedades à instância que é posta como fonte do acontecimento enunciativo”. Logo, o ethos está ligado ao orador, à sua virtude e ao seu caráter no momento da enunciação, e não a um saber extradiscursivo sobre o locutor. De acordo com esse autor, “o ethos é uma noção discursiva”, sendo construído, portanto, a partir do discurso.

Maingueneau (1997a, p. 45-46), ao se referir ao ethos retórico, propõe dois deslocamentos: o primeiro consiste em que os efeitos que o enunciador pretende causar sobre seu auditório por meio de sua imagem são impostos pela formação discursiva, e não pelo sujeito em si. O segundo é que “se deve recorrer a uma concepção do ethos que seja transversal à oposição entre o oral e o escrito”. Nesse sentido, o autor extrapola a ideia de ethos advinda da antiga Retórica, quando ressalta que ele não é construído exclusivamente a partir da vontade de um sujeito e que mesmo os textos escritos possuem um tom, uma vocalidade. Conforme Maingueneau (1997a), esse tom se associa a um caráter e a uma corporalidade, os quais recobrem as dimensões vocal, física e psíquica do ethos, constituindo uma representação do corpo do enunciador e garantindo a autoridade do que é dito por ele.

Segundo Piris (2007, p. 183, grifo do autor),

[...] podemos compreender o corpo do enunciador como a manifestação discursiva de uma voz e um corpo historicamente investido de valores compartilhados socialmente e captados por meio de estereótipos. O ethos é uma noção associada à imagem da instância subjetiva que assume a enunciação do discurso, o enunciador.

Com isso, percebemos que o ethos constitui-se pela e na história do sujeito, por meio da cenografia. Assim, quando falamos em um modo de dizer, falamos em um modo de ser e de se movimentar no mundo, construído no e pelo discurso.

De acordo com Possenti (2008, p. 150), “a semântica global de um discurso também define um ethos característico (doce, duro, irônico...) e, em decorrência, em boa medida, seu léxico que, por sua vez, é um dos elementos que dão concretude ao ethos”. Isso nos permite afirmar que o léxico poderá evidenciar o ethos a partir de seu sentido no texto ou seu tom na oralidade.

Na mesma perspectiva, Amossy (2005a, p. 9) afirma que “todo ato de tomar a palavra implica a construção de uma imagem de si”, a qual provém do estilo do locutor, de suas competências linguísticas e enciclopédicas, de suas crenças etc., que, intencionalmente

ou não, levam a que o locutor realize uma apresentação de si em seu discurso. Dito de outro modo, o locutor se mostra em seu discurso.

Ao abordarmos o ethos, pensamos a condição do sujeito entendido como efeito de identidade que se pode depreender dos textos. Para isso, mecanismos de construção do sentido possibilitam uma imagem de quem diz mostrada pelo modo característico de dizer, que é reconstruída pelo coenunciador. Esse efeito de identidade é adquirido por meio do diálogo com o outro, portanto, em relações históricas socialmente delimitadas. Além disso, compreendemos o ethos como uma noção intuitiva que envolve uma percepção afetiva do coenunciador que se utiliza do verbal e do não verbal na construção dessa noção. É pertinente enfatizar, ainda, que o ethos visado pelo locutor nem sempre é o ethos identificado pelo destinatário.

Maingueneau (2005, p. 70) ressalta que “duas razões o levaram a recorrer à noção de ethos: a) seu laço crucial com a reflexividade enunciativa; b) a relação entre o corpo e discurso que ela implica”. Entendemos, então, que a subjetividade revelada ocorre por meio do discurso, manifestando-se como voz, corpo enunciante a partir de uma história e de uma situação, que é pressuposta e validada progressivamente.

Como vemos, ao tratar da questão do ethos, Maingueneau (2005) procura evidenciar a importância de abordá-lo como uma construção discursiva, passível de ser reconhecida a partir das marcas enunciativas do discurso. Torna-se, então, possível fazer a distinção entre o

ethos pré-discursivo e o ethos discursivo da seguinte forma: o ethos pré-discursivo seria a

imagem que o coenunciador faz do enunciador, antes mesmo que este último tome a palavra para si. Em relação ao ethos discursivo, Maingueneau (2008c, p. 17, grifo do autor) estabelece três princípios mínimos, quais sejam:

[...] – o ethos é uma noção discursiva, ele se constrói através do discurso, não é uma “imagem” do locutor exterior a sua fala; – o ethos é fundamentalmente um processo

interativo de influência sobre o outro; – é uma noção fundamentalmente híbrida

(sociodiscursiva), um comportamento socialmente avaliado, que não pode ser apreendido fora de uma situação de comunicação precisa, integrada ela mesma numa determinada conjuntura sócio-histórica.

Dessa maneira, o autor aponta que esses três princípios envolvem o sujeito do discurso. Essa construção do ethos dá-se, assim, por meio da cenografia, na situação de enunciação.

De acordo com Maingueneau (2005, p. 71-82), podemos distinguir cinco tipos de ethos, a saber:

a) Ethos pré-discursivo: o coenunciador já detém ou constrói representações do

ethos do enunciador antes mesmo que ele fale. Isso se concretiza, especialmente, em discursos midiáticos, em virtude do conhecimento prévio do coenunciador sobre o ethos do enunciador, o que lhe permite, a cada novo acontecimento discursivo, confirmar ou não os traços que o identificam: “no domínio político [...] os enunciadores, que ocupam constantemente a cena midiática, são associados a um ethos que cada enunciação pode confirmar ou infirmar”;

b) Ethos discursivo: o autor admite que o ethos tenha uma “vocalidade

específica”, um “tom” que permite relacioná-lo com uma fonte enunciativa. Sobre a corporalidade do enunciador, explica que se trata de “um conjunto difuso de representações sociais valorizadas ou desvalorizadas, de estereótipos sobre os quais a enunciação se apoia e, por sua vez, contribui para reforçar ou transformar”;

c) Ethos dito: segundo esse autor, “vai além da referência direta do enunciador a

sua própria pessoa ou a sua própria maneira de enunciar.” Ele esclarece, ainda, que o ethos dito pode “também incidir sobre o conjunto de uma cena de fala, apresentada como um modelo ou um antimodelo da cena do discurso”.

d) Ethos mostrado: o autor explica que é “impossível definir uma fronteira clara

entre o ‘dito’ sugerido e o mostrado não ‘explícito’”;

e) Ethos efetivo: construído pelo coenunciador no seu discurso, “resulta assim da

interação entre diversas instâncias, cujo peso varia, segundo os discursos”.

Complementando o exposto, Souza-e-Silva (2008a, p. 263), a respeito de ethos, assim se manifesta: “a noção de ethos é pensada como um comportamento socialmente avaliado que não pode ser apreendido fora de uma conjuntura sócio-histórica”. Consequentemente, para pensar o ethos é preciso partir de aspectos que constituirão e transformarão o sujeito, numa relação contínua de trocas, em sociedade.

Segundo a mesma autora, num discurso o ethos resulta da interação de vários fatores: o enunciador lembra a própria enunciação, ethos dito, diretamente “é um amigo que vos fala” ou indiretamente, por meio de metáforas ou alusões a cenas de outras falas. A distinção entre ethos dito e mostrado se inscreve nos extremos de uma linha contínua, uma vez que é impossível definir uma fronteira nítida entre o “dito” sugerido e o puramente “mostrado” pela enunciação. O locutor mostra e não diz a sua maneira de ser. Destacamos, ainda, em relação ao ethos, que este se evidencia no mostrado e algumas vezes no dito e, de alguma forma, envolve-se na enunciação sem ser explicitado no enunciado.

Maingueneau (1997a, p. 48, grifo nosso) acredita que “por estar diretamente associado à questão da eficácia de um discurso o ethos tem um status particular, ele tem a

capacidade de suscitar a crença na linguagem, mediada pela enunciação”. Desse modo, o coenunciador não adere a um discurso apenas porque são apresentadas ideias ligadas aos seus possíveis interesses, mas porque esse enunciador é alguém que tem acesso ao dito, por meio de uma maneira de dizer, a qual tem suas raízes numa maneira de ser, o imaginário de um vivido.

Na sequência, apresentamos os procedimentos metodológicos reportados à realização deste estudo, pelos quais descrevemos e analisamos os corpora, bem como os motivos que incentivaram a autora a torná-los seus objetos de estudo.

No documento 2012ItatianeChiaradia (páginas 63-68)