O EXEMPLO DE OUTRAS ORGANIZAÇÕES SOCIAIS

No documento VISÕES INTERDISCIPLINARES SOBRE POLÍTICAS PÚBLICAS VOL. 1 (páginas 42-50)

Nem só de benefícios vivem as Organizações Sociais.A personalida-de personalida-de direito privado e a exploração personalida-de atividapersonalida-des que não caracterizam serviços públicos estatais fazem com que as organizações sociais não des-frutem das prerrogativas do poder público. Os seus atos não se beneficiam do regime jurídico administrativo e tampouco fazem jus às prerrogativas processuais da Fazenda Pública (ERHARDT, 2001). Mesmo em meio a tais intempéries, há Organizações Sociais bem-sucedidas, que merecem destaque:

• O Instituto de Desenvolvimento Tecnológico e Humano (Idte-ch) foi qualificado pelo Governo de Goiás, como Organização Social de Pesquisa Cientifica, que realiza um excelente trabalho no Hospital Alberto Rassi – HGG que é um hospital de ensino, que engloba tanto a parte assistencial quanto a parte de pesquisa, especialmente pesquisas inéditas na área de humanização, que é um dos pontos fortes do hospital (IDETECH, 2017);

• A EMBRAPII (Associação Brasileira de Pesquisa e Inovação In-dustrial) é uma Organização Social qualificada pelo Poder Públi-co Federal que, desde 2013, apoia instituições de pesquisa tecno-lógica fomentando a inovação na indústria brasileira. A assinatura do Contrato de Gestão com o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações – MCTIC ocorreu em 2 de dezem-bro de 2013, tendo o Ministério da Educação – MEC como insti-tuição interveniente. Os dois órgãos federais repartem igualmente a responsabilidade pelo seu financiamento (EMBRAPII, 2021);

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• O Instituto Mamirauá é singular em sua atuação na interface entre pesquisa, conservação da biodiversidade, desenvolvimento social, fortalecimento de cadeias produtivas, manejo de recursos naturais e gestão de áreas protegidas na Amazônia. Nos últimos 15 anos, o Instituto implementou sistemas pioneiros na Amazônia de manejo de recursos naturais, gerando conservação ambiental e renda para as comunidades ribeirinhas, totalizando 17 milhões de reais com o manejo de pirarucu, manejo florestal e turismo de base comunitária. Estima-se que mais de seis mil pessoas tenham sido beneficiadas (MCTIC, 2021).

Estes são apenas três de muitos dos exemplos de organizações sociais bem-sucedidas no Brasil, que podem servir de inspiração e modelo à trasn-formação doCentro de Biotecnologia da Amazônia em Organização Social.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em que pese não poderem desfrutar das prerrogativas do poder públi-co, visto que a personalidade de direito privado e a exploração de ativida-des não se caracterizam serviços públicos estatais, as organizações sociais são um modelo muito importante para os serviços públicos brasileiros, pois visam garantir a entrega de seus produtos ao cidadão, que é o seu cli-ente. Qualificadas pelo poder executivo, são entidades sem fins lucrativos que desenvolvem atividades relacionadas ao ensino, à pesquisa científica, ao desenvolvimento tecnológico, ao meio ambiente, entre outros.Uma organização social desenvolvida na Amazônia com tais prerrogativas, poderia ser aliada ao desenvolvimento do bionegócio na região. Pensando em tal possibilidade, o trabalho dedicou-se a apresentar os benefícios para o bionegócio amazonense da transformação do Centro de Biotecnologia da Amazônia em organização social

Traçou-se um panorama econômico-orçamentário do CBA, desta-cando a falta de recursos públicos necessários à boa gestão do centro e a impossibilidade de recebimento de recursos privados, devido a sua na-tureza jurídica.

Conclui-se que o CBA é fruto de uma política pública. Porém, a vin-culação do CBA na estrutura regimental da Suframa inviabiliza a operação

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e o desenvolvimento de suas atividades, cobrar pela execução de serviços tecnológicos, apoiar o empreendedorismo biotecnológico, celebrar parce-rias, patentear produtos, transferir tecnologia para o setor privado e captar importantes fontes de recursos privados e internacionais.

Destacaram-se alguns dos benefícios ao CBA, ao Estado, à sociedade e ao bionegócio amazonense, oriundos de sua possível transformação em Organização Social, tais como: autonomia, publicidade e transparência, segurança jurídica, discricionariedade, fiscalização, recursos mistos e dis-pensa de licitação.Ressaltou-se o avanço a passos lentos do bionegócio na Amazônia, decorrente de diversas restrições, entre as quais a simples per-sonalidade jurídica do CBA que se transformado em Organização Social poderia contribuir para o desenvolvimento mais acelerado desse segmento econômico. Para tanto, descreveram-se três exemplos de organizações so-ciais bem-sucedidas no Brasil: Instituto de Desenvolvimento Tecnológico e Humano (Idtech), EMBRAPII (Associação Brasileira de Pesquisa e Ino-vação Industrial) e o Instituto Mamirauá. Observou-se que, pelos motivos apresentados, embora haja desvantagens, os benefícios poderiam ser mais vantajosos em transformar o CBA em Organização Social.

Concluiu-se que é preciso buscar investimento financeiro para estimular o desenvolvimento tecnológico no âmbito do bionegócio amazonense e que o CBA poderia exercer importante papel como instituição catalizadora desse processo. Considerando que os recursos financeiros poderiam advir da iniciativa privada, a fim de habilitar o CBA com personalidade jurídica adequada para permitir acesso a es-ses recursos, é necessário que haja uma decisão do poder público em transformar o referido Centro numa organização social. Não obstante, cabe aprofundamento do trabalho, discorrendo sobre os desdobramen-tos legais de um futuro processo de transformação do CBA em orga-nização social.

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O IMPACTO DO REGIME DE METAS

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