3 QUEM NÃO VIAJA, FICA – LUIZ GONZAGA E OS INTINERÁRIOS DA CULTURA BRASILEIRA
5 ENTRE O QUE É E O QUE VEM, ENTRE O QUE MUDA E O QUE FICA O TRADICIONAL E O MODERNO NA OBRA DE LUIZ
5.2 Parte 2 A Terra
5.2.6 Existe a identidade nordestina?
O Nordeste, enquanto região recortada e inscrita geograficamente, e sua conseqüente identidade cultural, provocou
estudos críticos, onde os questionamentos são uma constante e, até certo ponto,recorrentes. Na verdade, a grande questão ficará sempre por conta da compreensão do Nordeste, como identidade espacial, construída pela sua própria história e representada pela sua cultura.
Torna-se necessário levantar as condições históricas de possibilidade dos vários discursos e práticas que deram origem ao recorte espacial Nordeste. Longe de considerar esta região como inscrita na natureza, definida geograficamente ou regionalizada “pelo desenvolvimento do capitalismo, com a regionalização das relações de produção”, que é outra forma de naturalização, ele busca pensar o Nordeste como uma identidade espacial, construída em um preciso momento histórico, final da primeira década deste século e na segunda década, como produto de entrecruzamento de práticas e discursos “regionalistas” (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2001, p. 20).
Quanto aspecto da visão de si mesmos, enquanto região, o Nordeste e os nordestinos defrontar-se-iam com o problema de busca de identidade própria. Já advertimos, neste trabalho, no capítulo sobre a identidade cultural brasileira, que a identidade é algo que se forma fora do indivíduo e trata-se de um estado da mente. Construímos a identidade em nossa mente, como uma comunidade imaginada, pelo desejo de perpetuar a herança cultural e viver em com junto, alimentando o sentido de pertencimento.
Mas a grande questão é: existe realmente este nós, esta identidade nordestina? Existe realmente esta nossa verdade, que os estereótipos do cabeça-chata, do baiano, do Paraíba, do nordestino, buscam traduzir? O Nordeste existe como essa unidade e essa homogeneidade imagética e discursiva propalada pela mídia, e que incomoda a quem mora na própria região? Se existe, desde quando? (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2001, p. 20).
Gonzaga foi um nômade que girou o Brasil em busca do ser humano. Essa é a principal característica do artista nômade, expressa nos versos “minha vida é andar por esse país, prá vê se um dia me sinto feliz. Guardando as recordações das terras, onde passei, andando pelos
sertões e os amigos que lá deixei”..Esses sertões inserem-se, inclusive, no urbano imaginário, na espacialidade e na transitoriedade das regiões.
O tempo em que dura à viagem e aventura nômade permitem ao artista atravessar o conhecido, ou seja, a realidade objetiva, como um movimento de aproximação infinita, recriando a noção de “lugar” como aporte das resoluções dos enigmas de sua subjetividade. Para o artista nômade, a contemporaneidade do fazer, desloca-se no tempo, na transição, sem hierarquias em relação ao já feito, a experiência de vida. Ao artista nômade, a arte do improviso permite abandonar o contemporâneo, deslocando-se para o extemporâneo ao qual está ligada a aventura de sua arte.
Portanto, a formulação do Nordeste, na obra de Gonzaga, surge permeada pelos conceitos de contemporâneo e extemporâneo, deslocados no espaço e no tempo, na tradição e na transição dos valores humanos, que se tornam nômades quando traduzidos pelas identidades a que pertencem.
A formulação, Nordeste, dar-se-á a partir do agrupamento conceitual de uma série de experiências, erigidas como caracterizadoras deste espaço e de uma identidade regional. Essas experiências históricas serão agrupadas, fundadas num discurso teórico que pretender ser o conhecimento de uma região em sua essência, em seus traços definidores, e que articula uma dispersão de experiências cotidianas, sejam dos vencedores, sejam dos vencidos, com fragmentos de memórias de situações passadas, que são tomadas como prenunciadoras do momento que se vive, de “ápice da consciência regional” (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2001, p. 22).
A nossa visão a cerca do Nordeste, enquanto espaço, passa pela subversão da temporalidade cotidiana, onde Gonzaga procura conhecer novos limites para transgredi-los, sabendo que todos esses novos limites remetem a um tempo limitado. Na obra de Gonzaga, percebe-se uma profunda vinculação entre o nômade e o artista. Se dúvida que essa busca, objetivando uma nova realidade, uma nova situação, que
provocasse as mudanças necessárias, no sentido de melhorar a qualidade de vida dos nordestinos, numa transformação processada pela obra de arte. Claro, nos parece, que essa superação levou Gonzaga, sem dúvida, aos aspectos universais da natureza humana.
A obra de Luiz Gonzaga dentro dessa visão de mundo, desse movimento, dessas transformações, buscava mudanças qualitativas na vida do homem, transitando no espaço movediço do conceito moderno de região.
Enfatizamos o conceito de espacialidade, como aspecto importante para a compreensão dos caminhos produtores da idéia de Nordeste, dentro do complexo de formação da cultura brasileira. Ha, sem dúvida, uma espacialidade nordestina, recortada pelos múltiplos aspectos dos sentimentos, linguagem, práticas discursivas e todo o complexo de relações que formam o tecido da cultura brasileira e que nos permitem uma melhor compreensão do homem e sua relações dentro da sociedade.
Entendamos por espacialidade as percepções espaciais que habitam o campo da linguagem e se relacionam diretamente com um campo de forças que as institui. O geográfico, o lingüístico e o histórico se encontram, nas diversas linguagens que, ao longo de um dado processo histórico, construíram uma geografia, uma distribuição do espacial dos sentidos. É preciso para isso, rompermos com as transparências dos espaços e das linguagens, pensarmos as espacialidades como acúmulo de camadas discursivas e de práticas sociais, trabalharmos nessa região em que linguagem (discurso) e espaço (objeto histórico) se encontram, em que a história destrói as determinações naturais, em que o tempo dá ao espaço sua maleabilidade, sua variabilidade, seu valor explicativo e, mais ainda, seu calor e efeitos de verdade humanos (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2001, p. 23).
Todo pensamento crítico da comunicação reflete a linguagem como fator de extrema importância. Nossa abordagem da obra de Luiz Gonzaga tem a linguagem como base de análise, e o espaço Nordeste, como objeto histórico, considerando-se que a cultura produzida no sertão
nordestino se constitui de características próprias, de linguagem própria, dentro de uma espacialidade quer permite deslocamentos do sujeito.
No espaço do diálogo, do debate, da interação, buscamos o consenso que se estabeleceu entre iguais do sertão, uma comunicação de consenso, uma possibilidade de uma razão constitutiva do conhecimento, colocando a razão em situação, a cultura em movimento. Uma cultura que se formou a partir do cotidiano e da produção de conhecimento advinda da vivência da realidade social pelas pessoais que habitam a região.
Neste ponto, partindo do conceito de espacialidade, podemos colocar a proposta pedagógica de Paulo Freire, amplamente difundida e utilizada no Nordeste, principalmente na alfabetização de adultos, partindo de valores e da linguagem do sertão. Embora Paulo Freire tenha se dedicado mais à pedagogia, é importante notar que sua percepção da linguagem sertaneja propiciou o processo de conscientização política, através da cultura popular. É importante salientar que Paulo Freire elaborou sua teoria, estribado pensamento crítico que gerou toda uma experiência revolucionária nas transformações sociais e políticas do Nordeste. Para Paulo Freire, a transformação social era um ato profundamente político e que a transformação cultural resulta da prática de atos comunicativos, efetuados pelo homem, buscando, dentro da sua relação com o mundo, transformá-lo, a partir da admiração de um objeto entendimento de forma comum a ele e ao outro, uma relação dialógica de construção de nova realidade.