A educação escolar é encarada, pelos assentados, como uma garantia de constituição de futuro diferenciado para seus filhos. Essa projeção encarada pelas famílias está não terem obtido condições de ingressarem em uma educação formal, projetam, para tanto, a possibilidade de mudança pela educação nas novas gerações.
Essa idéia está fundamentalmente no fato de todos os assentados, maiores de quarenta anos de idade, terem ingressado no ensino básico, mas muitos deles não terem conseguido terminar esse primeiro ciclo. Todos apenas foram alfabetizados. Orgulham-se do conhecimento adquirido nesse período, pois de acordo com eles, o ensino poderia ser considerado como mais rigoroso. O que aprenderam naquele momento até hoje não esqueceram. Além disso, o conhecimento adquirido possibilita suprir suas necessidades, como a de realizar contas matemáticas e também ler e assinar.
Os assentados que foram criados nas fazendas Ilha Grande e Marreca contavam, quando criança, com um grupo escolar, mantido pelo usineiro. Nessa escola os filhos dos trabalhadores agrícolas estudavam cerca de quatro anos seguidos. O ensino nessa escola era no formato multisseriado, em que a mesma professora ensinava, no mesmo espaço, diferentes matérias para alunos de diversas idades. Assim, enquanto os mais novos aprendiam as letras do alfabeto, por exemplo, aos mais velhos era ensinada a tabuada. Toda a educação era voltada para o aprendizado necessário para a vida agrícola, que, naquela época, o mais
importante, em se tratando de ensino, era aprender a ler, escrever e realizar contas básicas (adição, subtração, multiplicação e divisão).
Na década de 1970, esse grupo escolar, que funcionava na antiga fazenda Marreca, foi encerrado e as crianças passaram a estudar em escola mantida pela Prefeitura, próxima às fazendas. Essa escola ainda está em funcionamento e é nela que os filhos dos assentados do P.A. Che Guevara estudam. Já as crianças que residem no assentamento Ilha Grande, por este assentamento estar mais próximo de Babosa, eles estudam na escola desse lugarejo. Nesses dois locais, Babosa e Marreca, funcionam escolas municipais, que contam com todo o ensino fundamental, em dois turnos: manhã e tarde. Quando os alunos iniciam os estudos no ensino médio, são transferidos para escolas em Baixa Grande, que, por ser mais distante, implica em uso de transporte público para a locomoção.
Como não há na região escolas com “ensino do campo”, esses alunos são inseridos em escolas regulares, com disciplinas não voltadas para a realidade em que estão inseridos. Esse processo educacional foi, a partir dos anos 1990, contestado por militantes do MST em Araraquara. Estes reivindicavam a permanência dos grupos escolares, que antes existiam nas áreas que hoje são de reforma agrária, mas que foram fechadas ao longo dos anos. É o que ocorreu no assentamento Belo Vista, em Araraquara, em que os assentados se uniram para a criação de escolas voltadas para o ensino do campo:
Estavam presentes representantes da Secretaria Municipal de Educação, Universidades, Movimento Sindical, assentados do Bela Vista e do Monte Alegra, entre outros atores, que contribuíram na elaboração de um projeto que justificasse uma educação do campo de acordo com a realidade ao qual as escolas rurais de Araraquara estavam inseridas. Uma contribuição fundamental foi a do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) pelo avanço que estavam conquistando na luta pela educação do campo em âmbito nacional (FLORES; FERRANTE;
BEZERRA: 2011, 145)
Essa demanda, ocorrida em Araraquara, partiu da resistência para não deslocar o ensino da realidade na qual os alunos assentados estão inseridos. Desta forma, dentro do espaço do assentamento, crianças e jovens são educadas a partir de demandas da própria área agrícola. Esse não é o modelo educacional oferecido para os estudantes assentados, tanto no assentamento Ilha Grande e como no assentamento Che Guevara. Estes estão submetidos ao modelo curricular proposto tanto pela Prefeitura Municipal de Campos, como pelo Estado do Rio de Janeiro. Não recebem qualquer tipo de diferenciação por residirem em área rural. São submetidos ao mesmo tipo de ensino de crianças que moram na cidade.
Entre os assentados dos dois assentamentos – Ilha Grande e Che Guevara - prevalece à baixa escolaridade. Os filhos dos assentados, ao atingirem a maioridade, dezoito anos, por
necessidades financeiras, não privilegiam os estudos e partem para atividades remuneradas, ou na agricultura ou em área urbana, como apresentei neste capítulo. Algumas famílias conseguem manter seus filhos no ensino e poucos atingem o ensino superior, como ocorreu com o assentado Rafael de Souza, atualmente no P.A. Che Guevara.
Seus pais, assentados no assentamento Ilha Grande, sempre privilegiaram a educação como forma de garantia de futuro para seus filhos. Entretanto, como não possuíam condições financeiras para pagarem as mensalidades em faculdades particulares, esse projeto só passou a ser realizado no momento em que os filhos, já após estarem em empregos formais, obtiveram condições próprias de sustento. Os dois filhos do casal ingressaram em faculdades particulares, e eles próprios custearam todo o ensino.
Rafael de Souza, após constituir autonomia econômica e ter projetar um futuro, naquela época, distante da agricultura, começou o curso de fisioterapia em uma universidade particular. Naquele período, trabalhava como motorista de ambulância para a Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes e, muito por influência dos seus colegas de trabalho, decidiu que o melhor a fazer seria um curso superior para garantir melhor condição financeira.
Na época trabalhava na área Secretaria de Saúde de Campos dos Goytacazes e consegui, junto a Prefeitura, uma bolsa de estudos para estudar na Estácio de Sá.
Por isso optou pelo curso de fisioterapia. Nesse período, como motorista de ambulância, ainda trabalhava na agricultura com o meu pai, mas também como motorista. Minha escolha por fisioterapia foi porque já estava convivendo com as pessoas ligadas à área e percebi que seria mais fácil para mim.
Mas assim, mesmo eu formado em fisioterapia, quando terminei a faculdade, percebi que o mercado de trabalho era totalmente diferente do que esperava. Não era tão fácil entrar, porque a concorrência é muito grande. E eu já tinha experiência com lavoura, porque sempre trabalhei com isso, desde a época que morava com o meu pai. Então poderia ser mais fácil do que ficar tentando coisas por fora. (Entrevista realizada por Rodrigo Pennutt da Cruz, em junho de 2016).
Essa possibilidade de retorno ao assentamento fez com que, mais tarde, também se tornar um assentado. Entretanto, mesmo não tendo realizado curso superior não relacionado à agricultura, não o impediu de retornar às atividades no campo e, além disso, como ele mesmo observa, pode ter facilitado para que ele, junto com sua família, começasse a constituir projetos alternativos para o lote que ocupa atualmente.
Isso porque Rafael de Souza é considerado, por muitos outros assentados, como aquele que sempre procura inovar em suas práticas agrícolas. Após iniciar as lavouras em seu lote, continuou os estudos, mas desta vez não mais na área de saúde (fisioterapia), mas sim relacionado à agricultura. Está constantemente em busca de novas maneiras de produzir quiabo e cana, além de melhorar a criação de gado.
Rafael de Souza conseguiu aliar a dedicação aos estudos que obteve nos anos em que esteve na graduação, com as atividades agrícolas, pois, como ele mesmo descreve nas entrevistas, a atualização de novas práticas agrícolas permite não só a expansão da produção, como também até mesmo compreender melhor o mercado consumidor e, com isso, decidir o que plantar para garantir melhor comercialização.
A vivência em outro espaço de socialização, como entre os estudantes de fisioterapia e, até mesmo, o tempo em que realizou esse ofício, pode ser considerado como catalisador para a manutenção de Rafael de Souza no assentamento. Pois é justamente por estar em constante processo de aprendizagem que este assentado consegue gerir melhor o seu lote.
Continuamente busca alternativas para melhorar a sua produção, diferentemente dos demais assentados que não dispõem de tal recurso. Este também foi um dos motivos pelo qual Rafael de Souza decidiu não mais permanecer no lote com o seu pai e tentar adquirir o seu próprio.
Como ele mesmo argumenta:
Com 27 anos eu me casei e continuei trabalhando com o meu pai. Só que lá é pequeno para duas pessoas. Além disso, são idéias diferentes com relação ao trabalho. Papai já está velho e não aceita muita coisa e eu quero diferente. Então eu fui trabalhando em três lotes diferentes daqui, de 2007 a 2009, sempre como parceria em um e trabalhava por um tempo. Parceria é quando você trabalha no lote, na terra, e dá 20% do lucro para o dono do lote. Nessa época eu só plantava quiabo. (Entrevista realizada por Rodrigo Pennutt da Cruz, em junho de 2016).
Como seu pai foi socializado em outra forma de fazer agricultura, impasses surgiram para que os dois continuassem no mesmo lote. As inovações que dinamizavam a produção agrícola praticada por Rafael de Souza garantem maior comercialização dos produtos cultivados no seu lote. O oposto do seu pai que, assim como a maioria dos assentados, não busca novas alternativas para aumentar os ganhos com a produção.