1 DA OBRIGATORIEDADE À UNIVERSALIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO
1.2 EXPANSÃO DO ATENDIMENTO DO ENSINO ELEMENTAR NO
1.2.1 Expansão do Ensino Elementar no Brasil (1931-1964)
A Constituição Brasileira de 1934 foi imbuída de princípios sociais-democratas e referenciada no Manifesto dos Pioneiros de 1932, que defendia a progressiva gratuidade e obrigatoriedade da educação escolar até os 18 anos. Estabelece um capítulo próprio à educação, que prevê a elaboração de um Plano Nacional de Educação que contemple, entre outros direitos, o ensino primário integral gratuito e de frequência obrigatória, extensivo aos adultos (artigo 150, parágrafo único “a”).
Segundo Flach (2011, p.289), essa Carta previu a gratuidade e a frequência compulsória, todavia não estabeleceu a oferta obrigatória, de modo que o poder público não se viu obrigado a envidar esforços para que a população tivesse real acesso à escola elementar. Somado a isso, previu a limitação da matrícula à capacidade didática do estabelecimento, além da seleção por meio de provas de inteligência e aproveitamento (artigo 150, alínea „a‟ do parágrafo único).
Ribeiro (1979, p.111) demonstra que a previsão do ensino elementar gratuito e obrigatório promoveu uma significativa ampliação das matrículas; de 1932 a 1936, as matrículas subiram 32%; com 73,3% das escolas mantidas pelo poder público. Entretanto, os avanços na escolarização não foram os esperados, uma vez que 81% dos estabelecimentos funcionavam em escolas isoladas, multisseriadas, e a taxa de reprovação subiu de 40%, em 1932, para 42% em 1936.
No Brasil, a Constituição de 1934 teve vida efêmera, em razão da situação política do país, que resultou na Ditadura do Estado Novo, cuja Constituição de 1937 aponta como primeiro dever natural dos pais a educação escolar dos seus filhos, sendo que o Estado passa a ter papel supletivo, auxiliar. Então, como analisa Horta (1998, p.20), “o conceito de obrigatoriedade escolar, tal como se apresentava na legislação, não implicava dever do Estado perante o individuo, mas somente dever do indivíduo perante o Estado”. Ademais, o artigo 246 do Código Penal de 1940 (Decreto-Lei n. 2.848) estabelece o crime de abandono
intelectual que se dá quando os pais ou responsáveis, sem causa justa, deixarem de prover a instrução primária de filhos em idade escolar. Nesse contexto, cabe aos pais fazer cumprir a obrigatoriedade escolar prevista na Carta Magna de 1937.
Werebe (1994, p.58) reconhece que houve uma relativa expansão do ensino primário entre os anos 1930 e 1940; em 1935, a matrícula era de 2.413.594, passando para 3.238.949 em 1940. Entretanto, a autora chama a atenção para a alta seletividade da escola elementar; dos alunos matriculados no 1º ano em 1935 (1.389.771), apenas 180.506 concluíram o curso em quatro anos; dos 1.758.465 matriculados em 1945, apenas 260.811 concluíram o curso quatro anos depois.
Em 1946, uma Constituição democrática recuperou os direitos da Carta de 1934, resgatando o princípio da obrigatoriedade do ensino primário (artigo 168, I). Não obstante, será o Decreto-Lei n. 8.529, denominado de Lei Orgânica do ensino primário, que traçará as diretrizes para esse nível de ensino, desdobrando-o em ensino primário fundamental, para crianças de 7 a 12 anos; sendo quatro anos para o primário fundamental e dois anos para o primário complementar.
A lei ainda previa o ensino primário supletivo destinado a adolescentes e adultos, com dois anos de duração. Para Romanelli (1986, p.161), a reforma possibilitou uma organização mais unitária do ensino primário em todo país e possibilitou um avanço na luta contra o analfabetismo, pois os cursos supletivos contribuíram para a diminuição da taxa de analfabetismo no final da década de 1940 e em toda a década de 1950. Entre a população maior de 15 anos, no período de 1940 a 1960, a taxa de analfabetismo cai de 49,3% para 39,5%.
Quanto à gratuidade, Flach (2011, p.291) lembra que a Lei Orgânica previa, em seu artigo 39, o ensino primário como gratuito, mas permitia a organização de caixas escolares com a contribuição das famílias dos alunos. Será a Constituição Federal de 1946 que colocará a educação como direito de todos (artigo 166) e o ensino primário como obrigatório e gratuito (artigo 168, I e II). Para a garantia desse direito, a Carta prevê a aplicação percentual de recursos públicos no setor educacional, sendo União, Estados e Distrito Federal de nunca menos de 10% e os Municípios nunca menos de 20%.
Essa Constituição preconiza também a necessidade de um planejamento político- educacional para todo o país, determinando que “Compete à União legislar sobre as diretrizes e bases da educação nacional” (artigo 5º, inciso XV, alínea „d‟); porém, o dispositivo somente se concretizará com a Lei 4.024, de 20 de dezembro de 1961, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDBEN.
Atendendo aos preceitos constitucionais e da LDBEN, em 1962, o Conselho Federal de Educação aprovou o Plano Nacional de Educação que teve, dentre inúmeras metas, a de garantir a matrícula até a quarta série de 100% da população escolar de 7 a 11 anos. Para Flach (2011, p.294), apesar de não alcançada, essa meta é importante “por demonstrar a necessidade de assegurar que as crianças em idade escolar tivessem, pelo menos, acesso à escolarização formal”.
De 1946 a 1964, o Brasil vivenciou um período de liberdade democrática, com eleições livres para todos os níveis e participação de organizações representativas de diversos setores sociais. Tratou-se de uma democracia limitada e restrita; em 1947, o Partido Comunista foi posto na ilegalidade, os analfabetos não votavam e as desigualdades na distribuição de renda e da propriedade da terra impossibilitavam a participação dos mais pobres.
Neste período, o Brasil passou por governos eleitos pelo povo, dentro de um Estado nacionalista e populista, com forte influência do trabalhismo getulista: Eurico Gaspar Dutra - PSD (1946-1949); Getúlio Vargas – PTB (1950-1954); Café Filho, vice de Vargas (1954- 1955), Juscelino Kubitschek – PSD-PTB (1956- 1960), Jânio Quadros – UDN-PTN (1961) e João Goulart, vice de Jânio (1962-1964).
A plataforma política de JK foi embasada na manutenção da ordem legal e na difusão de um exagerado otimismo em relação ao desenvolvimento nacional. Seu Programa de Metas propunha-se a dotar a Nação de infraestrutura básica para a industrialização, em que a educação atrelava o ensino às necessidades do desenvolvimento industrial, incentivando o ensino técnico-profissional.
Em tal governo, não só o ensino médio deveria cuidar da profissionalização, como também o Primário já teria que “educar para o trabalho”. Desse modo, os recursos para o ensino industrial, de 1957 a 1959, foram quadruplicados; no entanto, metade da população não dominava os conhecimentos básicos da leitura e da escrita. Esse quadro caótico motivou o surgimento da Campanha em Defesa da Escola Pública, que pretendia, a partir da nova lei de educação nacional, obrigar o governo a investir na educação pública, dando-lhe expansão quantitativa e qualitativa.
Jânio Quadros assumiu o governo em plena efervescência da campanha pelo ensino público e, embora tenha passado somente sete meses no poder, acenou para a criação de uma vasta rede de escolas técnicas profissionais e para o combate ao analfabetismo. Quando João Goulart chegou à presidência, a situação da educação brasileira era de calamidade, pois persistiam os índices de analfabetismo e somente 7% dos alunos do curso primário chegavam
à 4ª série; o ensino secundário detinha apenas 14% da população escolarizada e 1% chegavam à universidade.
Gerenciando o país sob o fogo cruzado dos conservadores e assistindo ao desmoronamento das instituições democráticas, o presidente, João Goulart, conseguiu desenvolver importantes medidas nas áreas sociais. De 1961 a 1964,aumentou em 5,93% os gastos com educação e, em 1962, anunciou o Plano Nacional de Educação que, seguindo a lei nº 4.024/61, impunha a obrigatoriedade ao governo federal de investir no mínimo 12% dos recursos na educação. Esse plano, que mantinha a retórica da educação para o desenvolvimento, visava expandir o ensino primário a toda a população com a inclusão do ensino de artes industriais, reduzir o número de professores leigos e ampliar o período escolar.
No campo da educação, a LDBEN nº 4.024 de 1961, embora não refletisse os anseios dos setores mais progressistas, surgiu em meio a diversas iniciativas e lutas sociais em torno da ampliação da escolarização. Desse período, destacam-se a Campanha de Educação de Adultos, o Movimento de Educação de Base e o Programa Nacional de Alfabetização que contavam com o patrocínio do governo federal. Este último, estruturado em 1963 e oficialmente instituído em janeiro de 1964, sob a coordenação de Paulo Freire, mobilizaria estudantes, professores, sindicatos e associações para alfabetização das populações urbanas e rurais com a utilização do seu método. O método Paulo Freire alcançou repercussão nacional e internacional pelo compromisso com a conscientização e mobilização do povo rumo à transformação da realidade.
De 1955 a 1965, a ampliação da rede escolar no Brasil foi relativamente grande, embora muitas deficiências e insuficiências persistissem. As matrículas no ensino primário sofreram um incremento de mais 100%: de 4.545.630 para 9.923.183; o número de professores normalistas subiu de 76.802 para 181.863, embora os leigos (sem formação normal) também tenham aumentado muito (de 65.154 para 131.180). O secundário e superior também experimentaram crescimentos vultosos; o secundário ampliou suas matrículas de 752.106 para 2.114.305, sendo 75% delas no ramo propedêutico; o superior cresceu mais de 100%(WEREBE, 1987, p. 67).
Esses números não empolgam Romanelli (1986,p.181), que destaca o pouco crescimento da rede de escolas face às necessidades da população; a autora informa que, no ano de 1964, três anos após a promulgação da LDBEN, o Censo Escolar apontava que 33,7% das pessoas de 7 a 14 anos não frequentavam escolas; em sua maioria, pela falta delas. Já Flach (2011, p.294) reconhece que a extensão da escolaridade foi uma meta muito importante, todavia a produtividade do sistema deixou a desejar, pois os “altos índices de reprovação
faziam com que os alunos se evadissem ou permanecessem no sistema sem avanços significativos”.
O Reformismo político de João Goulart, especialmente as denominadas reformas de base que visavam atender a alguns anseios populares, notadamente seu comprometimento com a reforma agrária, não resistiu à reação da burguesia. Os setores de direita e os grandes proprietários sentiram-se ameaçados pelas propostas e aliaram-se ao exército para um golpe de estado. Com o apoio da classe média, os militares assumiram a direção do país, numa ditadura que durou21 anos.