4.1 A sequência de aulas 1 Explorando a charge em sala de aula
4.1.2. Explorando elementos específicos da composição visual
No encontro seguinte, a sequência do trabalho pauta-se no planejamento, priorizando o estudo dos recursos de saliência próprios da composição visual e, especificamente, presentes nas charges trabalhadas. A professora inicia as aulas com a projeção em data show da charge a ser apresentada em seguida. Os alunos, em sua maioria, demonstraram euforia ao ver a charge considerando que não iam sentir dificuldade na leitura. A professora discute, interativamente, com a turma a respeito da noção de saliência, priorizando a função da saliência no texto imagético. Ressalta algumas estratégias de saliência na imagem como cor, tamanho e posicionamento em primeiro ou segundo plano. De acordo com o planejamento, ela informou que o foco de análise das charges seria a saliência e a aula seria dividida em duas etapas. Uma fase de análise oral e coletiva da charge “Os craques da copa” e, posteriormente, uma análise em duplas de outra charge.
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Figura 15: Charge “Recursos de saliência”
A professora começa chamando a atenção dos alunos para os aspectos da saliência, agora, situando-os na charge analisada. Para tanto, ela se utilizou de três questionamentos previamente elaborados para encaminhar o estudo: I - Qual é o elemento mais saliente na charge? Por quê? / II - Que relação há (ou não) entre esse elemento e a crítica feita na charge? / III-O que essa charge denuncia ou critica?
Os alunos interagem positivamente em resposta aos questionamentos que ficaram expostos na lousa. A grande maioria destaca como elemento saliente a máquina que ocupa o centro da imagem e que, nas palavras dos alunos, “parece que vai engolir a mulher”. Alguns, porém, destacaram como saliente a palavra CRAC! tentando associar ao crack – droga. A professora, logo, foi direcionando o olhar dos alunos para os outros elementos da imagem, relacionando-os com a função de denunciar problemas alusivos às intervenções urbanas planejadas para viabilização da Copa, buscando, assim, mostrar, efetivamente, que a temática das drogas não caberia naquela argumentação.
Em relação à condução da professora de logo direcionar o olhar dos alunos, verificamos uma possível ansiedade de sua parte que, motivada pelo desejo de instigar os alunos a se apropriarem dos recursos imagéticos, em geral antecipava aspectos da imagem que ela havia lido/visto previamente. Associamos esse comportamento ao caráter de novidade que tinha aquela experiência para a professora, tanto do ponto de vista didático quanto
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teórico, uma vez que ela estava também vivenciando sua experiência de desenvolvimento do letramento visual quase em paralelo com os alunos.
Na sequência, os alunos acompanharam atentamente o raciocínio apresentado pela professora e a justificativa relacionada às drogas foi rapidamente “abandonada”. A partir daí a compreensão foi se ampliando e os alunos passaram a fazer considerações vinculadas ao contexto político social da época, mas argumentando a partir dos elementos imagéticos, como podemos constatar na contribuição - “pra fazer bonito na copa ninguém quer saber dos pobres não, tão botando pra descer” / “tratam os pobres como se fosse lixo”. Houve uma discussão intensa e até desordenada dificultando o controle da sala de aula pela professora. Todos queriam falar da situação do país, do roubo dos políticos, entre outros assuntos desse âmbito. A professora tentou organizar as falas pedindo que levantassem a mão para falar, o que acabou gerando ainda mais confusão, pois todos levantavam a mão ao mesmo tempo.
A professora, que parecia não esperar esse direcionamento da atividade, desvia o foco da discussão, ou seja, sem dar muita atenção ao tumulto, pede que voltem para os elementos imagéticos da charge e que justifiquem suas opiniões a partir da representação imagética (os alunos, na euforia de falar sobre a roubalheira do país, esqueceram a charge). Um aluno destacou as cores amarela para a máquina e verde para o chapéu do maquinista demonstrando que eram as cores do Brasil e que representavam o poder dos políticos que comandavam a destruição das casas dos pobres sem o menor remorso – “a mãe e o filho chorando, com medo e sem nenhuma ajuda eles querem é fazer os estádios pra roubar ainda mais”.
A professora concordou com o aluno aproveitando para enfatizar a significação das cores de tons cinzento e sombrio para dar a conotação de desespero e destruição, e aproveitou para esboçar uma reação de satisfação com a turma ao dizer – “nossa... hoje vocês estão me surpreendendo”. Entendemos que o elemento surpresa se dá em razão das características e do potencial dos alunos anteriormente informados pela professora - uma turma com alunos lentos e com baixo nível de letramento (cf. cap. III, p.86) e, naquele momento, a turma vai quebrando esse estereótipo.
Destaco a seguir, a partir das notas de campo, o momento final dessa primeira etapa de análise oral e coletiva da charge “Os craques da copa”:
[...] para encerrar esse momento, a professora faz oralmente, pedindo a colaboração dos alunos, uma leitura detalhada da charge como um todo, inclusive aproveitando para contemplar aspectos que não tiveram a devida exploração como a onomatopeia CRAC. Ela destaca a onomatopeia como um recurso importante para a construção do sentido da charge, em razão de significar o barulho de algo que se
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quebra estando, assim, em coerência com todo plano imagético. A professora aproveita, para rever as questões orientadoras da leitura e aproveita para dizer que os alunos se utilizarão das mesmas questões para a leitura em duplas que farão em seguida.
Notas de campo, 29/05/2014.
Na etapa seguinte, a professora apresenta a charge que seria analisada, retoma as questões orientadoras da leitura e ressalta a necessidade de observar a charge tendo como direcionamento da análise, o elemento de saliência. Foi esclarecido que, ao término da atividade, cada dupla faria a apresentação de sua análise para discussão coletiva. A seguir, reproduzimos a charge a fim de colaborar com o entendimento das análises.
Figura 16: Charge “Recursos de saliência”
Ao longo da atividade, observamos, efetivamente, dois comportamentos da turma: um relacionado às duplas que interagiram mais entre si, procurando uma justificativa engajada ou articulada com a composição da imagem e outro, referente a algumas duplas que, rapidamente concluíram a atividade, sem maiores questionamentos ou reflexões.
Nas apresentações, todas as duplas reconhecem os dois planos da imagem, enfatizando Dilma à frente como o elemento saliente da composição (nas palavras deles - “preocupada somente com a copa e com a eleição”). Em relação à charge como um todo, percebemos, ainda, pouca habilidade para lidar com a argumentação a partir da representação imagética. Algumas duplas destacaram elementos imagéticos importantes como os troféus, as cores, os
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bilhões gastos com a Copa, entre outros, mas sem apresentar a coesão necessária para construir a criticidade da charge.
A professora, então, se posiciona retomando a terceira pergunta orientadora: “O que essa charge denuncia ou critica?” e a partir das colocações dos próprios alunos começou a aprofundar a discussão relacionando os bilhões que o Brasil gastará na Copa, com a importância que o país dá ao futebol – temos cinco troféus e com o fato de nunca termos ganhado um prêmio Nobel - uma teia de aranha ocupa lugar vazio. Chegando, assim, ao teor da crítica feita pela argumentação visual da charge denunciar o pouco investimento do país nas áreas de educação e pesquisas.
No geral, os alunos se manifestaram dizendo que não haviam reconhecido aquele elemento como teia de aranha, o que teria prejudicado a compreensão da charge, inclusive argumentaram que discordavam de tal representação (alguns entenderam como uma pirâmide). A professora tirou o foco da discussão justificando com a presença da aranha na imagem.
As atividades desenvolvidas nas aulas, embora tenham gerado tumulto, em algum momento, o que impossibilitou a professora de aprofundar questões planejadas, conseguiram explorar elementos salientes da charge. No geral, os alunos demonstraram ter compreendido que a saliência é representada em relação ao tamanho, cor e localização no plano principal, ou através de enquadramento de destaque (KRESS E VAN LEEUWEM, 1996, p.183) e que denota informações importantes na composição imagética.
Em conversa com a professora, após o término das aulas, ela revelou-se surpresa com o desempenho produtivo dos alunos e mostrou-se muito motivada para a continuidade do trabalho.