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André Luiz Gobatto, Beatriz Daniele Pavan, Elisabeth Giordani, Fernanda Marcelino Galvani, Isabela Karoline Ribeiro Dias, Mariana Priscila Veneziani de Toledo, Mariane Santos Ducatti e Raquel Aparecida Passaretti.

Introdução

O Jardim Botânico Municipal de Bauru (JB), fundado em 1994, possui um importante papel na conservação de ecossistemas naturais e sua área, de 321 hectares (ha), é um dos últimos fragmentos protegidos de vegetação nativa da região.

Embora a vegetação predominante seja o cerrado, o JB conta com fragmentos de mata de brejo e floresta estacional semidecídua4 (mata atlântica), que abrigam muitas espécies de mamíferos, aves, répteis, anfíbios e insetos.

Além de contribuir com a conservação da flora regional, promove pesquisas científicas e proporciona momentos de lazer por meio da visitação gratuita, sendo um local que oferece diferentes espaços para o desenvolvimento de atividades voltadas para a educação ambiental e o ensino de Ciências, como a trilha ecológica, o viveiro de mudas, o jardim sensorial, entre outras instalações.

É com a finalidade de ensino que apresentamos a atividade “Explorando os sentidos no Jardim Botânico”, como uma sugestão metodológica que pode ser utilizada por professores de Ciências e Biologia que visitam o local.

Uma vez que existe uma grande variedade de atividades que podem ser desenvolvidas nesse espaço não escolar, decidimos selecionar alguns pontos específicos para a execução de nossa proposta, os quais: a trilha ecológica e o jardim sensorial.

Nesse sentido, cabe salientar que o professor não necessita explorar com seus estudantes todas as instalações do JB, mas pode organizar suas atividades de acordo com o fenômeno, conceito ou conteúdo que pretende abordar.

4 Refere-se à parte lenhosa de uma comunidade vegetal, que perde parte de suas folhas nos períodos desfavoráveis. Decídua quer dizer “que deixa cair suas folhas”, equivale à expressão caducifólia.

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Para a execução desta proposta, traçamos como objetivo explorar as fisionomias vegetais de cerrado e mata atlântica. Assim, fazendo uso de outros sentidos, além da visão, realizamos atividades relacionadas à ecologia, à morfologia e à fisiologia vegetal.

Para o planejamento da atividade, contamos com a colaboração do biólogo Vinícius Sementille Cardoso, funcionário e monitor do local. Essa parceria foi muito importante, pois a experiência desse profissional facilitou o trabalho da proposta elaborada e deu maior suporte para a abordagem do tema.

Embora a proposta tenha sido planejada para os alunos do 5° ano do curso de Licenciatura em Ciências Biológicas da UNESP de Bauru, a dinâmica utilizada pode ser adaptada a qualquer grupo escolar de acordo com o nível de ensino no qual se encontram. O importante é manter a ideia central, de explorar a natureza e aprender com outros sentidos que não o da visão. Portanto, esse relato de experiência visa apresentar uma possibilidade de trabalho e não uma sequência rígida a ser seguida.

Desenvolvimento

Iniciamos os trabalhos com uma breve explanação das informações contidas no quadro abaixo (figura 02), com o intuito de compartilharmos com os demais alunos nossos objetivos, dentre os quais: discutir o uso dos sentidos no processo de ensino e aprendizagem de conceitos ecológicos.

Como utilizamos nossos sentidos?

Aprendemos Retemos

1,0% pelo paladar 10% do que lemos

1,5% pelo tato 20% do que escutamos

3,5% pelo olfato 30% do que vemos

11,0% pela audição 50% do que vemos e ouvimos

83,0% pela visão 60% do que ouvimos e discutimos

70% do que vemos, ouvimos e discutimos 90% do que vemos, ouvimos, discutimos,

realizamos Figura 02 – quadro síntese sobre o uso dos sentidos5

5 Informações disponíveis em:

http://arquivos.unama.br/nead/pos_graduacao/direito_processual/met_ens_sup/aula4/oque.htm

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Essa introdução fez-se necessária uma vez que buscamos explorar cada sentido individualmente mostrando a relação entre as diferentes sensações e seus estímulos dentro da natureza.

Em seguida, caminhamos em direção ao Jardim Sensorial, onde executamos a primeira atividade de nosso plano de aula. Nesse momento, a turma com 26 estudantes, foi separada em pequenos grupos e a cada um deles foi atribuído um monitor (membro da equipe).

Após algumas orientações sobre como guiar um deficiente visual, dadas pelo monitor do JB, os participantes dos grupos foram vendados e, fazendo uso do piso tátil presente em grande parte do Jardim Sensorial, cada grupo se aproximou de pelo menos três canteiros de plantas.

Por meio do tato, deveriam descrever as plantas apontadas pelo monitor (principalmente as formas e as texturas das folhas) e através do olfato tentar adivinhar quais vegetais estavam analisando. Também tentaram identificar o nome das plantas nas placas em relevo e em braile.

Nesse momento, pudemos constatar certa euforia por parte dos alunos, bem como as dificuldades que sentiram ao terem suprimido o sentido da visão.

Demonstraram, por exemplo, perda da noção de espaço e muita dificuldade em se locomoverem com os olhos vendados. Também foi possível constatar que os alunos aumentaram a percepção auditiva e tátil, ou seja, passaram a prestar mais atenção em outros sentidos que muitas vezes são sobrepostos pela visão.

Esse contato mais profundo com os sentidos, que raramente são explorados em aulas que ocorrem no espaço escolar, é proveitoso e de grande valor para o próprio autoconhecimento e para ampliar a capacidade de entender os fenômenos naturais.

Após essa primeira atividade, os estudantes puderam perceber o quão raramente utilizam os sentidos do tato e do olfato na caracterização morfológica dos vegetais e o quanto dependem da visão. Essa discussão possibilitou com que os alunos aguçassem os demais sentidos na atividade da trilha ecológica, realizada em sequência.

Outro aspecto que poderia ser discutido, mas que, no entanto, não foi o foco da proposta é a questão da acessibilidade e inclusão social. Tivemos a informação de que a escola visitante pode agendar uma visita ao Jardim Sensorial, monitorada por

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voluntários do Lar Escola Santa Luiza para Cegos, entidade que oferece assistência aos deficientes visuais de Bauru-SP. Fica aqui nossa sugestão aos professores.

Continuando a atividade, os alunos tiraram as vendas e seguimos para a trilha ecológica. Nela havíamos definido previamente alguns pontos de parada, onde a observação dos alunos pudesse ser direcionada através das seguintes instruções e questionamentos:

 observar/sentir a umidade presente no solo da entrada da trilha, antes de se aproximarem do córrego.

 Observar as espécies vegetais que ali se encontram, tentando estabelecer alguma relação com a característica do solo.

 Colocar a mão no chão e observar a textura e a umidade do solo, de modo a utilizar o tato.

 Observar a umidade do terreno antes e depois da ponte. Buscar fazer relações com a profundidade do lençol freático.

 Fechar os olhos e tentar ouvir a grande quantidade de folhas que estão caindo.

Questionar qual a relação dessa queda de folhas com a denominação dada a este tipo de vegetação (mata estacional semidecídua).

 Durante a trilha é essencial que o professor oriente os alunos para que utilizem a visão e o tato, e reflitam como estes sentidos nos possibilitam caracterizar os dois tipos de vegetação predominantes na trilha (mata estacional semidecídua e cerrado).

 Destacar a presença de serrapilheira6 e a variedade de folhas presentes no solo (formato e textura).

 Pela manhã é possível observar a presença de orvalho no caule das goiabeiras.

Os troncos ficam molhados e é um momento propício para se trabalhar o tema sobre condensação.

 Sentir a textura das folhas (cartáceas, membranáceas ou coriáceas) e comparar se há diferenças entre as plantas de cerrado e de mata.

 Observar os troncos, mais eretos e menos espessos na região de mata e mais tortuosos e suberosos na região de cerrado.

6 Cobertura que se forma na superfície do solo composta por restos de vegetação, como folhas, caules e cascas de frutos em diferentes estágios de decomposição. Fazem parte dela também restos de animais e suas fezes. Esta camada é a principal fonte de nutrientes para ciclagem em ecossistemas florestais, enriquecendo o solo e sustentando a vegetação presente nele.

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 A visão também possibilita observar o porte das árvores dessas duas composições vegetais (mata estacional semidecídua e cerrado).

 Através do olfato é possível sentir odores característicos de frutos e flores, como o fruto da espécie Siparuna guianensis (nome popular: cafezinho fedido ou limãozinho bravo).

Em dois momentos distintos, vendamos um aluno voluntário antes de chegar a um ponto pré-determinado. Este aluno recebeu uma prancheta com uma folha, lápis e borracha e ficou posicionado de costas para uma determinada planta/vegetação e outro estudante descreveu a árvore/paisagem da melhor maneira possível para que o primeiro desenhasse.

Essa atividade possibilitou o desenvolvimento de habilidades, como descrição, interpretação de dados e abstração de informações. A mesma foi concluída satisfatoriamente, pois as espécies vegetais foram descritas de forma clara, possibilitando a representação assertiva pelo aluno ouvinte.

Em outro momento, um aluno voluntário foi vendado e percorreu parte da trilha guiado com a ajuda de um dos monitores. A intenção foi que posteriormente o estudante descrevesse sua experiência sensorial naquele ambiente, ao ter o sentido da visão suprimido.

Resultados e considerações finais

Ao longo do desenvolvimento da atividade, notamos que os alunos participaram bastante, interagindo de forma satisfatória com o que foi proposto. Reforçamos que a visita ao local pelo professor antes da realização da aula é imprescindível. Através dela pudemos aproveitar melhor o que o Jardim Botânico de Bauru oferece, além de calcularmos melhor o tempo gasto com cada situação.

Vimos que o momento mais propício para sua aplicação é o período da manhã.

Por ser um local aberto, em dias quentes o calor excessivo pode atrapalhar o desempenho dos alunos, deixando-os cansados antes da finalização dos trabalhos. É importante também que os alunos sejam orientados quanto à vestimenta e uso de protetor solar, além de se manterem sempre hidratados.

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A atividade no jardim sensorial foi bastante marcante. Muitos alunos ficaram impressionados em como a imaginação pode fluir quando não estamos vendo o local onde estamos. Muitos imaginaram que os canteiros fossem diferentes antes de vê-los e também perceberam que é possível aprender sem utilizar o sentido da visão. Os pontos na trilha ecológica em que um aluno desenhou uma planta/vegetação com a descrição dada por outro colega também foram interessantes.

No ato de encerramento da atividade discutimos brevemente uma crônica de Rubem Alves que trata da importância dos sentidos, O sexto sentido7. Nela o educador, descreve que os cinco sentidos (tato, paladar, audição, olfato e visão) nos permitem conhecer o mundo e nos informam sobre ele. No entanto, haveria outro, que ao contrário dos demais sentidos, não exige a presença do objeto a ser conhecido. Este sentido que, segundo Rubem Alves, tem propriedades “mágicas” tem também o poder de chamar à existência coisas que não existem e de tratar coisas que existem como se não existissem. Seu nome é “pensamento” e, portanto, a função da educação estaria em introduzir os estudantes no mundo mágico do pensamento, nosso sexto sentido!

Informações adicionais

Localização

Rodovia Comandante João Ribeiro de Barros, Km 232, Bairro Tangarás. Acesso pela entrada do Zoológico Municipal de Bauru-SP.

Agendamento de visitas e solicitação de monitoria

De segunda à sexta-feira, das 8h às 16h através do telefone (14) 3281-3358.

Horário de funcionamento

Todos os dias, das 8h às 16h30, inclusive aos sábados, domingos e feriados. A trilha ecológica também está aberta a visitações todos os dias, porém das 8h às 16h.

Site/blog

www.jardimbotanicobauru.com.br / www.jbbauru.blogspot.com

7 Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/sinapse/sa2607200506.htm.

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