Encaminhado para a Revista Brasileira de Educação Especial em 17 de agosto de 2009 (Normas da ABNT).
RESUMO
Objetivo: Realizar uma análise exploratória da Escala de Silhuetas Bidimensionais (ESB) e da Escala de Silhuetas Tridimensionais (EST), verificando qual das Escalas é a mais apropriada e representativa ao cego congênito.
Metodologia: Trata-se de uma pesquisa qualitativa e exploratória. A amostra foi composta por 20 sujeitos cegos adultos e congênitos. Foram entrevistados 10 homens e 10 mulheres, com idades entre 21 e 50 anos, do Instituto Benjamin Constant, no Rio de Janeiro e da Associação dos Cegos de Juiz de Fora, MG. Os Instrumentos para coleta de dados foram: ESB, EST e roteiro de entrevista semiestruturada. A estratégia adotada para tratar os dados foi a Análise de Conteúdo (BARDIN, 1977).
Resultados: Foram formadas três grandes categorias: 1) “Principais vias de informações sobre o corpo”, subdividida em: tato; informações sobre peso e altura; informações das pessoas do convívio; informações culturais; tamanho das roupas e atividade física como referência. 2) “Escala de Silhuetas Bidimensionais”, subdividida em: não reconhecimento da ESB; dificuldades; utilidades. 3) “Escala de Silhuetas Tridimensionais”: subdividida em: Reconhecimento da Escala; Relação consigo ou com o outro; Facilidades e preferências da EST. Foi constatado que 90% dos participantes não reconheceram a ESB, enquanto que todos os participantes reconheceram a EST.
Conclusões: A EST é a Escala mais apropriada e representativa para o cego congênito. Sugere-se a realização de estudos futuros que visem avaliar as qualidades psicométricas da EST.
ABSTRACT
Objective: to conduct an exploratory analysis of the Bidimensional and Tridimensional Silhouette Scales (BSS and TSS) so as to point out which one is more suitable and meaningful for the congenital blind.
Methods: qualitative and exploratory research. The sample was composed of 20 adult congenital blind subjects. Ten men and 10 women aged between 21 and 50 years of age from the Benjamin Constant Institute, in Rio de Janeiro and from the Blinds Association of Juiz de Fora, MG, were interviewed. The tools for the collection of data were: BSS, TSS and semi-structured interview guide. The strategy adopted for data construction was the Content Analysis (BARDIN, 2008).
Results: three large categories were formed: 1) “Main information paths about the body”, subdivided into: tact; data on weight and height; data on the people they live with; cultural data; clothes size ; and the physical activity as a reference. 2) “Bidimensional Silhouette Scale ”, subdivided into: Non recognition of the BSS; difficulties; utilities. 3) “Tridimensional Silhouette Scale”: subdivided into: recognition of the Scale; relationship with oneself or with others, easiness and preferences of the TSS. It was found that 90% of the participants did not recognize the BSS while all of the participants recognized the TSS.
Conclusions: the TSS is the most adequate and meaningful scale for the congenital blind. Further studies aiming to assess the psychometric qualities of the TSS are needed.
1 INTRODUÇÃO
Este artigo refere-se à parte de um estudo maior que visa discutir a avaliação da Imagem Corporal do cego congênito e propor alternativas metodológicas para tal. A Imagem Corporal pode ser considerada a forma específica e singular em que o sujeito constrói a representação mental de seu corpo existencial, ou seja, de sua identidade corporal. Ela não deve ser confundida com uma figuração unicamente visual do corpo, pois trata-se de uma representação mental bem mais abrangente e complexa do que simplesmente uma imagem visual. (CASH, 2004; KRUEGER, 2004; SCHILDER, 1999; TAVARES, 2003).
A Imagem Corporal do deficiente visual possui particularidades, o que a torna apenas diferente dos indivíduos que enxergam, sem perder sua significância. Isto porque Schilder (1999) considera que a visão possui papel preponderante na formulação da Imagem Corporal. As qualidades visuais de um fenômeno ou objeto são importantes atrativos para que o indivíduo experimente relações com o meio. Dessa forma, a visão é um importante orifício simbólico, que possibilita a entrada de diferentes informações, sobretudo do corpo, em sua relação ativa com o mundo e, consequentemente, atua na estruturação da Imagem Corporal.
Entretanto, cumpre esclarecer que “precisamos do corpo para ver, mas não apenas em função da experiência específica da visão” (SCHILDER, 1999, p. 109). Há uma simetria e um equilíbrio interno da Imagem Corporal, o que torna perigosa a valorização excessiva de apenas uma parte dela. O que deve ser valorizado é um aspecto multifacetado para a estruturação final dessa Imagem, já que, nela, atuam diferentes estruturas sensórias e perceptivas, as quais permitem a formulação de uma representação mental. Ademais, há influência das dimensões fisiológicas, sociológicas e libidinais, que não possuem a visão como um fator preponderante para o desenvolvimento da Imagem Corporal. Logo, a imagem do corpo é própria do sujeito histórico e existencial, em sua constante interação com o mundo, sentindo-o, reconhecendo-o e, principalmente, percebendo-o, o que torna possível ao cego a formulação de sua Imagem Corporal.
Frente ao exposto, qual seria o instrumento tátil mais apropriado e representativo para avaliar a Imagem Corporal do cego? A literatura recomenda que sejam feitas adaptações bidimensionais e tridimensionais para serem utilizadas como recursos que auxiliem a construção de imagens mentais dos deficientes
visuais (BATISTA, 2005; LAPLANE; BATISTA, 2003; NUNES, 2004; ORMELEZI, 2000). A tarefa em relação a este grupo é a de buscar as melhores formas de representação e os materiais mais adequados.
A linguagem bidimensional ou grafo-tátil é uma representação em alto relevo, sem a representação de profundidade, muito utilizada para a adaptação de figuras, letras, números e símbolos em uma leitura acessível ao deficiente visual. Ela exige um elevado grau de abstração da realidade. A linguagem tridimensional é aquela representada em forma de maquete ou miniatura. Ela pode ser entendida como uma acessível forma de “visão” do mundo pelo cego e um eficiente meio de representação gráfica, tendo em vista que o modelo em forma de maquete possui características de extensão e profundidade semelhantes e condizentes com a realidade, dado que esta é tridimensional (MORGADO; FERREIRA, 2009).
A insatisfação, por sua vez, é um componente atitudinal da Imagem Corporal. Ela é definida como uma alteração cognitivo-emocional (GARNER; GARFINKEL, 1981). A insatisfação com o corpo pode levar ao desenvolvimento de uma Imagem Corporal negativa, que diz respeito a um desgosto profundo com o corpo (CASH, 2004). Dessa forma, é relevante o desenvolvimento de estudos e pesquisas que se propõem rastrear traços de insatisfação corporal no público cego. Todavia, para tal, é necessário um instrumento de avaliação desta alteração apropriado ao cego, ou seja, que realmente represente a ele aquilo que se pretende com seu uso.
Já existem, no Brasil, duas Escalas que foram adaptadas e criadas com o propósito de avaliar a insatisfação corporal do cego congênito: Escala de Silhuetas Bidimensionais - ESB - e a Escala de Silhuetas Tridimensionais - EST - (MORGADO; FERREIRA, 2009). Tais Escalas seguiram a sequência de silhuetas proposta na Escala de Stunkard, Sorensen e Schlusinger (1983), comumente utilizada na literatura da Imagem Corporal (MORGADO et al., 2009). Vale lembrar que as Escalas adaptadas e criadas no Brasil ainda não foram exploradas por um público representativo de deficientes visuais.
Este estudo objetiva realizar uma análise exploratória da Escala de Silhuetas Bidimensionais e da Escala de Silhuetas Tridimensionais, verificando qual das Escalas é a mais apropriada e representativa ao cego congênito.
2 METODOLOGIA
Esta é uma pesquisa qualitativa e exploratória. Malhotra (2001) considera que a pesquisa qualitativa é a principal metodologia utilizada nos estudos exploratórios. A pesquisa exploratória, por sua vez, possui capacidade de examinar um problema de investigação pouco estudado ou que não tenha sido abordado antes (SAMPIERI; COLLADO; LUCIO, 1991).
2.1 Instituições
Foram selecionadas duas instituições: Instituto Benjamin Constant (IBC) e Associação dos Cegos de Juiz de Fora, por responder aos seguintes critérios: o IBC é referência nacional no atendimento às pessoas deficientes visuais e a Associação dos Cegos é referência no Estado de Minas Gerais; elas possuem diferentes contextos culturais e concentram um número relevante de sujeitos cegos.
2.2 População e Amostra
A população foi composta por cegos adultos e congênitos. Foram considerados cegos os indivíduos que apresentam desde ausência total de visão até a perda da percepção luminosa e que terão de fazer uso do Sistema Braille para o processo de ensino/aprendizagem (FERREIRA, 2007). Foram considerados congênitos os indivíduos que nasceram cegos ou se tornaram cegos até os cinco anos de idade (ALMEIDA, 1995; LEMOS, 1981). A amostra foi composta por 20 sujeitos adultos, com idades entre 21 e 50 anos, sendo 10 homens e 10 mulheres, cegos congênitos, da Associação dos Cegos de Juiz de Fora, MG e do IBC, no Rio de Janeiro, RJ. Em cada uma das Instituições, foram recrutados 10 sujeitos.
Os parâmetros para o cálculo do tamanho da amostra seguiram as orientações de Malhotra (2001). Este autor aponta que, em fases exploratórias e de pré teste, a população deve ser pequena, de 5 a 10 entrevistados, mas pode crescer na medida em que as entrevistas se sucedem. Dessa forma, se os resultados se apresentarem similares a partir da 5ª entrevista, pode-se entender como um ponto de saturação, ou seja, que já é o suficiente para responder aos objetivos do estudo.
Portanto, o tamanho exato da amostra deve ser suficiente para garantir a similaridade e a variedade da população e oferecer uma visão crítica do instrumento.
Três critérios nortearam a inclusão dos sujeitos: manifestar diagnóstico de cegueira congênita fornecido pelas Instituições selecionadas; não possuir outras deficiências associadas, conforme constar no diagnóstico analisado e possuir, ou já ter possuído, vínculo Institucional, não sendo necessário residir no local. Três critérios de exclusão foram adotados: manifestar algum distúrbio mental; estar ausente no dia da coleta de dados e recusar participar, livremente, da pesquisa.
Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). A assinatura foi feita através da impressão digital por aqueles que não aprenderam a assinar o nome com “tinta”. O TCLE foi disponibilizado em Braille, porém, aos sujeitos que não dominam esse código, foi oferecida a informação oral, sempre com a presença de uma testemunha. O projeto relativo a este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Juiz de Fora (CEP/UFJF) no dia 18 de dezembro de 2008, conforme Parecer no. 423/2008 e Relatório no. 1619.309.2008. Está inscrito no Sistema Nacional de Ética em Pesquisa (SISNEP) sob o número 222266.
2.3 Instrumentos
Os Instrumentos para coleta de dados foram a ESB (Fotografia 1); EST (Fotografia 2); roteiro de entrevista semiestruturada e gravador digital para gravação e transcrição dos relatos. O roteiro de entrevista era composto pelas seguintes perguntas: a) Ao observar a ESB, o que você reconhece? b) Há diferenças entre as figuras? Se houver, quais você identifica? c) Você acredita que se pareça com alguma figura numerada de 1 a 9? Qual? d) Ao observar a EST, o que você reconhece? e) Há diferenças entre os bonecos? Se houver, quais você identifica? f) Você acredita que se pareça com algum boneco numerado de 1 a 9? Qual? g) Em qual das Escalas (ESB ou EST) você achou mais fácil o reconhecimento? Por que? h) Como você faz imagem de seu corpo?
Fotografia 1: Escala de Silhuetas Bidimensionais. Fotografia 2: Escala de SilhuetasTridimensionais. Fonte: O autor (2008). Fonte: O autor (2008).
2.4 Coleta de dados
Foi aplicada a entrevista semiestruturada e solicitada a autorização dos participantes para a gravação desta, que foi transcrita na íntegra para posterior análise. A aplicação da entrevista foi feita mediante exposição das duas Escalas adaptadas, a ESB e a EST. Os participantes ficaram sentados à mesa e sobre esta foi apresentada uma Escala de cada vez. Eles começaram explorando a ESB, quando responderam às perguntas sobre esta. Em seguida, foi recolhido o primeiro exemplar e, então, a EST foi apresentada para que pudessem explorá-la e responder às perguntas da entrevista.
2.5 Análise dos dados
A estratégia adotada para tratar as entrevistas foi a Análise de Conteúdo. Para Bardin (1977), essa análise trata-se de um conjunto de técnicas que analisam as comunicações e visam obter, por meio de procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores – quantitativos e qualitativos – que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção e recepção dessas mensagens. Neste estudo, o conteúdo das entrevistas foi analisado com a técnica de formação de categorias, que permite ao pesquisador inferir algumas informações, destacando as que apareceram repetidas vezes em situações distintas, tornando possível uma análise exploratória do fenômeno.