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FÁBULAS, CHARADAS, PROFECIAS, AFORISMOS (2006)

antologia da editora HUCITEC (VINCI, 1997). Um livro de bolso (13 x 18 cm, 92 páginas), formato que vai se repetir em duas outras edições, que vamos ver daqui a pouco.

Nessa obra fica evidenciada no título a poética aforismática que as antologias dão a Leonardo. Aquilo que a editora HUCITEC chama de pensamentos, aqui é chamado de aforismos. É que os textos selecionados pela editora Zit foram buscados na antologia de Massimo Baldini, publicada em 1993 (aqui referida como VINCI, 1999b). Ao menos é o que consegui apurar por meio de comparação, já que essa edição não menciona as fontes. Mas o livro da editora Zit não segue a ordem dos textos como se encontram na obra de Baldini. Ou seja, enquanto a editora HUCITEC traduziu integralmente a antologia de Marinoni, a editora Zit embaralhou um pouco a obra de Baldini antes de traduzir. Mas se trata, em substância, de mais uma antologia traduzida.

A tradutora, creditada discretamente na folha de rosto, é Celina Portocarrero, que o Linkedin me informa ser uma “tradutora e poeta, pesquisadora e antologista.” O currículo dela é considerável: traduz há 40 anos do inglês, francês, espanhol e italiano. Montou duas antologias, Amar, verbo atemporal: 100 poemas de amor (2012) e Vou te contar: 20 histórias ao som de Tom Jobim (2014). Tem um livro de poesia, Retro- retratos (2007) e, junto com a ilustradora Juliana Fiorese, publicou um livro infantil chamado A princesa e os sapos (2013). E agora veja a lista dos muitos autores e autoras que ela traduziu (cf. Dicionário de tradutores [e tradutoras] literários [e literárias] do Brasil, DITRA): André Gide, Guy de Maupassant, Elie Wiesel, Tahar Ben Jelloun, Mark Twain, Mario Bennedetti, Luigi Pirandello, Rosa Montero, Tolstoi, Maya Angelou, Georges Simenon, Miranda July, Jane Austen, além de Marcel Proust.

Na antologia da editora Zit, quem se destaca é Flávio Moreira da Costa, cujo nome aparece na capa creditado como autor da seleção e da apresentação do livro. Uma pesquisa simples já nos apresenta a vasta obra dele, que tem inclusive uma página para si na Wikipédia, onde é bastante elogiado. É difícil saber quem escreveu sua página na Wikipédia, mas a simples existência de uma é digna de nota. Existe também um verbete dedicado a ele no DITRA, em que se pode ler uma lista de diversas obras que ele escreveu, traduziu e antologizou. Nessa lista constam 21 antologias organizadas por ele, mas Fábulas, charadas, profecias e aforismos não foi computada.

A fama de Flávio Moreira da Costa, portanto, justifica o destaque dado a seu nome na capa. E é ele que faz a apresentação do livro, falando do Renascimento como “um movimento humanista” em que figuram “gênios” como

Erasmo de Roterdã e os pintores dos Países Baixos, os ingleses William Shakespeare e Thomas Morus, o espanhol Miguel de Cervantes [...] os italianos Dante Alighieri, Machiavel, Boccacio, Michelangelo e...”. (VINCI, 2006: 7).

Depois das reticências, Flávio Moreira da Costa fala então de Leonardo, comentando que “a expressão do humanismo nas artes, letras, filosofia e ciência, tem nele um nome-síntese. [...] Um Leonardo escritor, portanto? Sim, mas longe do sentido moderno de ‘um homem de letras’.” (VINCI, 2006: 8). Ou seja, Costa está ciente da advertência feita pelo próprio omo sanza lettere. De fato, no prólogo está citado um trecho do Traité de la Peinture [sic], em que Leonardo diz que não tem “cultura” (VINCI, 2006: 9).

Essa menção a uma edição francesa com textos de Leonardo da Vinci poderia levantar a suspeita de que os textos componentes dessa antologia tenham sido traduzidos do francês, e não do italiano. No entanto, as semelhanças com a antologia de Massimo Baldini (VINCI, 1999b) militam contrariamente a essa hipótese. Por exemplo, o primeiro aforismo apresentado pelo livro da editora Zit é “... Ó estudantes, estudai as matemáticas, e não construís sem fundamentos.” (2006: 60), tradução do oitavo aforismo da antologia de Baldini: “... O studianti, studiate le matematiche, e non edificate sanza fondamenti.” (1999b: 3). A manutenção das reticências iniciais, que indicam o recorte feito por Baldini a partir de um trecho maior, é um forte indício de que Aforismi, novelle e profezie foi mesmo usada como fonte para a criação de Fábulas, charadas, profecias e aforismos. Nota-se também que a tradução ficou bastante próxima do texto italiano e manteve inclusive a pontuação. Um outro aspecto digno de menção é a escolha por traduzir a pessoa verbal voi por vós, em vez de vocês. Isso pode indicar uma visão “elevada” de Leonardo, já que voi em italiano (mesmo no florentino “pouco culto” de Leonardo) não tem a carga que vós tem em português brasileiro. Vós, no Brasil, remete a um discurso antigo, rígido, é o pronome da Igreja Católica e da época em que ainda se escrevia como se estivéssemos em Portugal. Hoje em dia o pronome de segunda pessoa plural no Brasil é vocês, e sobre isso não há polêmica, diferentemente do caso de tu, que é sim usado

na vida atual. Traduzir voi por vós, então, projeta uma imagem de Leonardo como alguém que fala de um tempo e de uma cultura tradicionais, uma autoridade que a história legitimou com as canonizações. A imagem não é de um Leonardo coloquial e confuso, mas a de um pensador bastante culto. Esse projeto não é explicitado, mas fica explícito quando vemos que o gênio (assim chamado na quarta capa do livro da editora Zit), surpreendentemente capaz de dizer baixarias como fece gran strepido col culo (“fez grande estrépito com o cu” – VINCI, 1999b: 20, tradução minha), vem mostrado na publicação da editora Zit um pouco mais polido, embora nonsense: afinal de contas, esse Leonardo consegue imaginar alguém fazendo “estrépito com as nádegas” (VINCI, 2006: 38). Verifiquei que essa espécie de censura é comum nas traduções brasileiras de Leonardo, que evitam traduzir culo por “cu”, ou mesmo por “bunda” (isso será exemplificado novamente mais adiante nesta dissertação).

No prefácio, a única coisa relacionada à tradução que se diz é “[...] “fábulas & charadas, profecias & aforismos” que publicamos aqui em (nova) tradução de Celina Portocarrero.” (2006: 8). O que esse (nova) entre parêntes significa é um mistério, mas podemos imaginar que Flávio Moreira Costa tinha notícia de alguma outra edição brasileira de textos de Leonardo da Vinci, ou que pelo menos não quis se comprometer anunciando uma tradução inédita.

Para ilustrar aqui o que chamo de poética aforismática, veja uma sequência do livro editado pela Zit (VINCI, 2006: 61). Coloco aqui em imagem, e não em texto transcrito, porque seria importante que pudéssemos observar a diagramação, além das frases escritas. A diagramação da dissertação, porém, prejudica minha análise.

Figura 14 – Página da antologia da editora Zit (2006). Digitalizada por mim.

O que me parece evidente, em primeiro lugar, é a ordenação das frases seguindo um critério poético de afinidade morfológica (sequência de frases começadas pela palavra quem). Depois, a economia de vírgulas dá um tom fluido característico de aforismos e sinaliza a aproximação com a sintaxe escrita italiana. Assim se projeta e imagem de um Leonardo com ideias nítidas, um filósofo com bom poder de síntese. De fato, nessa antologia não consta a menção à desordem dos manuscritos dele, provavelmente porque não foram consultados: o trabalho de Massimo Baldini já havia resolvido essa questão. Mas essa edição não cita nem mesmo a fonte a partir da qual foram traduzidos os textos. O máximo que se chega disso é aquela inserção entre parênteses do adjetivo “nova” referente à tradução de Celina Portocarrero.

As orelhas do livro são assinadas por Luíz Horácio, apresentado como escritor e jornalista (hoje ele também é tradutor e, inclusive, doutorando na PGET/UFSC, dedicado à obra de François Rabelais). Como em geral acontece em orelhas de livro, Luíz Horácio trata aqui de instigar o “arguto leitor”, mencionando “milhares de folhas com anotações” de onde “saíram estas ‘fábulas, charadas, profecias e aforismos’, por enquanto do conhecimento de pouquíssima gente”. Nesse trecho, parece então haver uma sinalização indireta para o trabalho de recomposição que é feito por toda antologia. E uma curiosidade: Luiz Horácio explica, na orelha do livro, que “da Vinci” não é sobrenome, e sim que isso “significa apenas que ele era natural da aldeia de Vinci”.

Por fim, não se credita nenhum revisor ou revisora, apenas Vladimir Calado, que fez a capa e o projeto gráfico.

3.8 SÁTIRAS, FÁBULAS, AFORISMOS E PROFECIAS (2008)