Resumo do capítulo
2. Factores Contextuais e Satisfação Conjugal
2.3 Satisfação conjugal e preditores contextuais
2.3.2 Factores contextuais e satisfação conjugal
Na sua revisão de literatura sobre o estudo de processos conjugais, Gottman et al. (1998) e Gottman e Notarius (2000) mencionam uma vasta quantidade de estudos que pre- tendem evidenciar uma maior ou menor correlação com a satisfação conjugal em relação a variáveis como a estrutura de dominância, padrões de interacção, processos de reparação, formação de resolução de conflitos, categorias comunicacionais, respostas emocionais dos cônjuges, compromisso entre os cônjuges e processos atribuicionais. Todos estes estudos se centram, exclusivamente, em factores interpessoais ou intra-pessoais, e assistimos a escas- sos estudos que pretendam correlacionar factores contextuais com a satisfação conjugal. Mesmo na vasta revisão de literatura na área da satisfação conjugal, elaborada por Narciso (2001), ressalta a grande quantidade de estudos que tendem apenas a tomar em considera- ção características pessoais dos cônjuges ou aspectos relacionados com o holon conjugal. Existem algumas poucas excepções. Narciso (2001) menciona alguns estudos que revela- ram que a aprovação da relação, por parte de familiares e amigos, o apoio percebido da rede social dos cônjuges, o número de amigos em comum do casal e o gostar da rede social do parceiro, podem, de alguma forma, influenciar positivamente a qualidade da relação do casal. De igual forma, Relvas (1996) menciona factores contextuais, quando fala na abertu- ra do sistema, da comunidade, da família de origem e de forças exteriores à família. No entanto, estudos que tentam verificar em que medida factores contextuais podem influen- ciar a satisfação do casal, são muito menos frequentes comparativamente com estudos que enfatizam meramente características do casal.
Alguns autores têm estudado minorias étnicas residentes nos EUA, como, por exemplo, o estudo de Faragallah et al. (1997) que pretende verificar correlações entre variáveis macro ou factores contextuais, e a satisfação familiar33. Estes autores estudaram imigrantes árabes nos EUA. Verificaram que uma maior permanência nos EUA, uma menor idade no dia da imigração, uma ausência de visitas, nos últimos anos, ao seu país de origem e o contacto com a religião cristã, estavam correlacionados com uma maior acultu- ração e uma maior satisfação com a vida nos EUA, mas também com uma menor satisfação familiar. Ball e Robbins (1986) verificaram que a participação das mulheres afro-
33 Schumm et al. (1986) verificaram, num estudo realizado, que a satisfação familiar está associada a
-americanas em actividades sociais, estava positivamente correlacionada com a sua satisfa- ção conjugal.
Em relação aos estudos em casais biculturais, mencionados no capítulo anterior, verificamos, na maior parte das vezes, a presença de variáveis contextuais, mas poucos estudos tentam correlacionar estas variáveis com a satisfação conjugal do casal. Existem, no entanto, algumas excepções. Como já referimos, Weir (2003) constatou que a participa- ção nas actividades culturais dos cônjuges é um factor que promove o sucesso dos casa- mentos biculturais; Baltas e Steptoe (2000) verificaram que não havia relação entre o bem- -estar e um maior nível de aculturação de ambos os cônjuges e Negy e Snyder (2000) iden- tificaram, apenas para as mulheres, correlações significativas entre o nível de aculturação e a satisfação conjugal.
Com já referimos, Whisman (1997) afirma que se tem prestado pouca atenção à influência dos factores contextuais na satisfação conjugal. No mesmo sentido, Berscheid e Lopes consideram que “ao contrário das forças pessoais que influenciam a satisfação da interacção dos cônjuges, as forças ambientais – os contextos sociais e físicos – foram rela- tivamente ignorados” (Berscheid & Lopes, 1997, p. 137). Deste modo, os autores concluem que “sabemos relativamente pouco como as relações conjugais estão a ser afectadas pelo contextos sócio-culturais, nos quais estão inseridos” (Berscheid & Lopes, 1997, p. 137). Segundo estes autores, torna-se necessário no estudo da satisfação conjugal, verificar como diferentes níveis de análise estão interligados, isto é, como variáveis macro (normas cultu- rais) se interligam com variáveis micro (características dos casal). Pensamos que os rituais familiares e o domínio das línguas maternas em casais biculturais, poderão constituir preci- samente esta ponte entre um nível macro (cultura) e um nível micro (satisfação conjugal).
Estamos, pois, perante uma vasta área a ser investigada. Concretamente, interessa- -nos, aqui, saber em que medida os rituais familiares provindos de famílias de origens ou culturas diferentes, assim como o domínio das línguas maternas em casais biculturais pode- rão estar, ou não, correlacionadas com uma maior ou menor satisfação conjugal.
Resumo do capítulo
Realizámos uma revisão da literatura sobre os rituais familiares. Em primeiro, lugar, referimo-nos aos primórdios da conceptualização dos rituais e ao advento dos rituais fami- liares. Em seguida, tentámos definir o que são rituais ou rituais familiares, mencionando também os componentes dos mesmos. Descrevemos quatro categorias de rituais (rotinas, tradições, celebrações e rituais ligados ao ciclo de vida familiar) e mencionámos diversas funções que os rituais contêm. Caracterizámos as famílias em relação à forma como utili- zam os rituais (famílias subritualizadas, famílias com rituais rígidos, desequilibrados, obri- gatórios ou vazios, interrompidos e flexíveis). Reflectimos sobre as vantagens do estudo dos rituais familiares e apresentámos alguns instrumentos para a sua avaliação. Em seguida, mencionámos diversos estudos que apontam os benefícios dos rituais familiares, para pro- mover o bem-estar físico e psicológico das pessoas, em geral, e das famílias, em particular. Também referimos as diferentes abordagens de intervenção com rituais em terapia familiar. Finalmente, justificámos a pertinência de estudos sobre os rituais familiares em famílias biculturais.
Desenvolvemos também a temática ligada à língua e cultura. Vimos que vários autores consideram que língua e cultura estão interligadas. Assim, o estudo da língua em casais biculturais tem grande interesse em termos sistémicos, dado que permite estabelecer a ponte entre o indivíduo e o seu contexto cultural. Mencionámos vários estudos que apon- tam para o facto de diferentes línguas poderem estruturar e organizar de forma distinta, os fenómenos que vivivenciamos. De igual modo, verificou-se uma variabilidade inter-cultural nos estilos de comunicação e nos comportamentos não verbais. Outros estudos indiciaram uma outra identidade dos sujeitos quando falam na sua língua materna ou numa língua estrangeira, que está associada a diferentes narrativas, recordações, valores, estados emo- cionais, padrões relacionais, estatutos e mesmo comportamento, em resumo, a diferentes formas de ser e estar. Considerámos estes resultados muito pertinentes para os casais bicul- turais, onde, normalmente, um cônjuge fala a sua língua materna e o outro uma língua estrangeira. Por fim, enfatizámos a importância do conhecimento da língua materna do côn- juge em casais biculturais, o que não só pode possibilitar ou facilitar a comunicação intra e extra-familiar, como também proporcionar a porta de entrada para um entendimento e compreensão da cultura do cônjuge.
Com base no exposto, somos levados a pensar que os rituais familiares e o domínio da língua materna do cônjuge em casais biculturais constituem excelentes variáveis contex- tuais, que poderão estar correlacionadas com um maior ou menor grau de satisfação conju- gal, o que pretendemos estudar neste trabalho.