• Nenhum resultado encontrado

Faculdade Nutritiva e Ser Animado/Ser Vivo

Ao apresentar a faculdade nutritiva como condição necessária e suficiente para a manifestação da vida em um corpo adequado, Aristóteles reivindica a definição de alma enquanto forma que causa essa primeira atualidade (faculdade nutritiva) para a caracterização do ser animado.

Então, é através da atualização da faculdade nutritiva, em um corpo adequado para recebê-la, que a alma causa a vida animada; e tal vida perdura enquanto ocorrerem diversas atualizações dessa faculdade. Nesse sentido, é possível perceber a estreita relação entre alma e corpo natural orgânico por meio de

26Sobre a alma ser causa do ser animado: “Aquilo que estando presente em tais coisas, e igualmente

não é predicada de um sujeito, é a causa de seu ser, como a alma é do ser de um animal” (Metafísica, 1017b15).

27

Acerca do “ser animado” ou “ser vivente”, diz Aristóteles: “Assim, o predicado ‘ser vivente’ é verdadeiro daquele do qual ‘ter alma’ é verdadeiro, e ‘ter alma’ é verdadeiro daquele do qual o predicado ‘ser vivente’ é verdadeiro; e assim, ‘ter alma’ seria uma propriedade de ‘ser vivente’” (Tópicos, 132b15-seguintes).

28

Rememorando: “(...) a alma dos animais (pois esta é a substância de um ser vivo) é sua substância conforme a forma, isto é, a forma e a essência de um corpo de uma certa espécie” (Metafísica, 1035b10-12 e seguintes).

tal faculdade elementar e, portanto, da vida. A relação entre alma e corpo poderá também ser verificada através do funcionamento/atualizações das demais faculdades da alma.

Sobre a capacidade da manifestação da faculdade nutritiva em um ser vivo primeira e independente do surgimento das demais faculdades da alma, como se dá no caso das plantas, e sobre a dependência dessas demais faculdades quanto à faculdade nutritiva, diz Polansky:

Se ter capacidade nutritiva é suficiente para a vida, e as outras faculdades da alma também suficientes para a vida estão em sucessão, de modo que elas pressupõem a capacidade nutritiva, então a capacidade nutritiva, que pertence a todos os seres animados, é a condição necessária e suficiente para a vida mortal. E desde que os outros tipos de vida que ele considera estejam ligados com a vida nutritiva, a alma pode abranger todos os tipos de vida de seres mortais (POLANSKY, 2007, p.171).

Então, além de ser necessária e suficiente para a vida, a faculdade nutritiva pode ter existência independente das demais faculdades em certos organismos, como nas plantas. No entanto, todas as demais faculdades da alma dependem da manifestação de tal faculdade, o que endossa a afirmação de que a alma, como determinante da faculdade nutritiva, participa de todos os exemplares de vida mortal, identificando-se, portanto, como princípio vital.

Nota-se, então, que as faculdades da alma apresentam a seguinte hierarquia: i. A faculdade nutritiva é a faculdade necessária para a caracterização do ser animado/vivo e, por ser a primeira das faculdades, pode se dar independentemente das demais;

ii. A faculdade sensoperceptiva necessita da presença da faculdade nutritiva, entretanto pode se manifestar desvinculada da faculdade intelectiva em muitos seres animados. E ainda: o sentido do tato é o sentido que primeiro caracteriza o animal, diferenciando-o das plantas, e pode se manifestar independentemente da manifestação dos demais sentidos em certos seres animados/vivos;

iii. A faculdade intelectiva/pensamento depende da manifestação das duas faculdades anteriores.

Tais faculdades representam os diversos modos em que são considerados os seres animados, de maneira que se percebe a abrangência do conceito de alma enquanto princípio explicativo, causa, forma ou atualidade daquilo que pode ser tal (De Anima, 414a 13-14) aos mais diversos tipos de seres animados.

É importante reafirmar que Aristóteles não concebe a existência da alma separada do corpo no qual ela se dá29, nem que ela seja um corpo (De Anima, 414a19-20). Pelo contrário, ele afirma a interligação entre alma e corpo, sendo esse corpo de um tipo específico, como já visto, e não persistindo um aquém ou além do outro. A união ou coexistência entre alma e corpo natural orgânico é o ser animado, que é o único modo pelo qual alma e corpo natural orgânico tem existência.

O filósofo, enfim, tem êxito na tarefa a que se propôs: a de expandir a definição de alma atingida no Segundo Capítulo do Livro  do De Anima, explicando a sua relação com a noção de vida e mostrando a alma como causa das faculdades e do viver.

Na análise da faculdade nutritiva, como dito, nota-se que se trata da faculdade primordial do corpo natural orgânico que participa da vida, pois a vida se dá nesse tipo de corpo natural que se nutre por si mesmo, cresce e decai. É uma sucessão de atualizações que permite que a vida se dê em um corpo natural orgânico: a atualidade primeira o determina como organismo vivo, determinando a faculdade nutritiva, e as inumeráveis atualizações posteriores, que se dão nos órgãos, o determinam enquanto ser vivo no decorrer da sua vida.

Tanto a primeira atualidade, quanto as demais atualizações só são possíveis graças à potencialidade inerente à matéria – que, por natureza, é indeterminada –, de receber ou ser atualizada de acordo com a disposição dos contrários que possui.

29

↑ale reler a seguinte afirmação de Aristóteles sobre o tópico em questão: “Se agora esse algo que constitui a forma do ser vivente é a alma, ou parte da alma, ou algo que sem a alma não pode existir; como pareceria ser o caso, parece de qualquer forma que quando a alma ‘parte’, o que é deixado não é mais um animal vivente, e que nenhuma das partes permanece o que era antes, exceto em mera configuração, como os animais que na fábula são transformados em pedra; se, digo eu, isto é assim, então viria dentro da obrigação do filósofo natural informar-se acerca da alma, e tratar dela, ou em sua totalidade, ou, de qualquer forma, da parte dela que constitui o caráter essencial de um animal; (...) é no último desses dois sentidos [como essência] que ou a alma toda ou parte dela constitui a natureza do animal; e considerando que é a presença da alma que habilita a matéria a constituir a natureza do animal, muito mais que a presença da matéria que então habilita a alma, o investigador naturalmente está destinado em todo estudo aplicado a tratar antes da alma que da matéria”. (Das

É a alma que realiza tais atualizações, que são relativas ao composto corpo- alma, uma vez que é necessário que essas atualizações se deem no corpo natural orgânico. Ou seja, é através dos órgãos (dispostos a receber os contrários) que a forma do ser animado atualiza a matéria (o próprio órgão), que constitui o organismo, o todo do corpo natural orgânico que possui vida.

Ressalta-se que:

A alma permite o envolvimento do corpo vivo em suas funções naturais; [que] o corpo deve ser do tipo certo para suportar tais operações [as operações relativas a cada função e faculdade] (POLANSKY, 2007, p.547).

A alma, enquanto forma (morphé) determinante de um ser vivo, determina suas funções naturais e atualiza a matéria (hylé) de acordo com sua potencialidade de ser de um modo ou de outro. A título de esclarecimento, pode-se dizer que o corpo de uma planta foi determinado pela forma/alma como sendo daquele tipo, seguindo a sua potencialidade de ser tal. Do mesmo modo, suas funções foram determinadas de acordo com sua potencialidade, e ainda, com a potencialidade do seu corpo de receber e desempenhar tais funções e/ou faculdades. Alma aqui é entendida como causa, como forma que atualiza a matéria apropriada para recebê- la, como aquilo que dá ser e unidade ao ser animado.

Sobre a faculdade nutritiva, diz Aristóteles:

A alma nutritiva pertence tanto ao homem como aos outros seres vivos, sendo a primeira e a mais comum das faculdades da alma; através dela pode a vida ser concedida a todos os seres animados (...). (De Anima, 415a25).

Há nessa citação uma confirmação da relação entre alma, vida e corpo natural típico dos seres animados. É por meio da faculdade nutritiva que a vida é primeiramente atualizada nos seres animados de acordo com a disposição potencial de viver. Assim, como visto, essa faculdade pode existir em um ser vivo separadamente das demais faculdades e qualquer outra faculdade da alma depende dela para se manifestar em um ser vivo.

2.3 Breves Considerações Acerca da Diferença Entre Faculdade Nutritiva e