1.3 A situação vivida pelos animais de tração nas cidades brasileiras que permitem seu uso.

1.3.1 Falta de alimentação adequada.

A alimentação é primordial ao desenvolvimento de qualquer ser vivo, visto ser nela onde se encontram as proteínas e vitaminas necessárias ao desenvolvimento e crrescimento adequado a cada espécie.

A quantidade de alimentos que um cavalo pode ingerir varia de acordo com o teor de matéria seca dos alimentos, com o peso vivo do animal, com seu desempenho,

64 DIAS, Edna Cardoso. SOS Animal: Liga de Prevenção da Crueldade contra o animal. Belo Horizonte:

Ed. Littera Maciel Ltda, 1983. p. 62.

65 SILVA, Maria Cristina Torres da. Veículos de tração animal no Distrito Federal: dos invisíveis ao

paradigma da governança ambiental como trilha para construção de um ideário socioambiental e respeito a todas as formas de vida. Dissertação (mestrado) – Universidade Católica de Brasília. Orientação: Paulo Ricardo da Rocha Araújo. 2011. p. 144.

40 com o seu estado fisiológico e nível de atividade física exercida, mas pode variar de

1,5% a 3,0% do peso vivo do animal em teor de matéria seca. Assim como o alimento

sólido, a água também é um fator importante para manter as condições fisiológicas normais dos cavalos, sendo que suas necessidades variam conforme suas perdas. Os cavalos necessitam de uma fonte de água limpa, principalmente nos períodos quentes, evitando o consumo somente momentos antes e após exercícios prolongado s, a ingestão deve ser de 2 a 3 litros de água/kg de matéria seca ingerida, porém estes itens não são atendidos de forma adequada na alimentação de muitos equideos utilizados pelos

carroceiros.66

De forma geral, a quantidade de alimento fornecido deve ser aquela capaz de manter os eqüinos em uma condição corporal ideal. O peso corpóreo e a condição física ideais são atingidos quando as costelas não podem ser vistas, mas podem ser palpadas sem sentir-se nenhuma gordura entre elas. Os problemas nutricionais podem ter início desde antes do nascimento até a maturidade. A égua mal alimentada vai retirar de seus depósitos os nutrientes necessários ao desenvolvimento fetal. Ele vai ocorrer normalmente, a não ser que as carências sejam crônicas e graves, o que estar á evidente

em seu estado físico67.

Ocorre que não há um cuidado do carroceiro para manter seu animal bem nutrido e alimentado e o que se verifica, in loco, são animais totalmente desnutridos e esqueléticos, que não tem condições de suportar o execesso de trabalho, mas mesmo assim são obrigados e forçados a esgotar todas as suas forças na atividade de tração . Na imagem abaixo, se constata a magreza do animal, que mesmo com essa deficiência alimentar que o impede de ser saudável, não foi liberto da atividade exploratória da tração animal:

66

STRUGAVA, Lucimara. ROSSA, Ana Paula. HILLEBRANT, Rhuanna Sabrina. DECONTO, Ivan. FINGER, Mariana Angélica Pommerening. Levantamento de dados sobre o manejo nutricional de

equinos de tração da cidade de Pinhas-PR. 42º Congresso Bras. de Medicina Veterinária e 1º

Congresso Sul-Brasileiro da ANCLIVEPA - 31/10 a 02/11 de 2015 - Curitiba - PR. P. 1979.

67

FILHO, José Monteiro da Silva. PALHARES, Maristela Silveira. MARANHÃO, Renata de Pino Albuquerque. REZENDE, Heloisa Helena Capuano de. MELO, Ubiratan Pereira. Manejo Alimentar dos

Animais de Tração da Regional Pampulha - Belo Horizonte. Anais do 2º Congresso Brasileiro de

Extensão Universitária Belo Horizonte – 12 a 15 de setembro de 2004. P. 2. Diponível em: https://www.ufmg.br/congrext/Desen/Desen16.pdf Acesso em 21 de Dez 2017.

41

Animal com deficiência na sua alimentação68

Em 1965, o Relatório do Comitê Brambell, no Reino Unido, trouxe a primeira definição de bem-estar animal. Esse Comitê constituiu uma forma de avaliação do bem- estar animal, através das “Cinco Liberdades”, que foram revisadas em 1993 pelo FAWC Farm Animal Welfare Council.

As “Cinco Liberdades” consistem em permitir ao animal de tração ser: livre de fome e sede; livre de dor, lesões e doenças; livre de desconforto, livre de medo e de estresse; e, livre para expressar comportamento natural. Considerando que para afirmar que ao animal foi garantindo ser bem-estar quando contempladas as “Cinco Liberdades”, tem-se que o não atendimento delas traz reflete conseqüências de um estado pobre de bem-estar, entre outras, podem ser: reduzida expectativa de vida; reduzida habilidade para crescer, produzir ou se reproduzir; lesões corporais e doença; imunossupressão; patologias comportamentais e supressão do comportamento normal; alteração do

processo fisiológico normal e do desenvolvimento anatômico.69

Para Donald Broom70 resta claro que não alimentar o animal, ou alimentá-lo de

forma incorreta ou insuficiente é considerado maltrato, explicando que:

(...) Uma vez que ni ninguém deve criar um animal a menos que tenha tido o trabalho de descobrir como atender suas necessidades, o proprietário que oferece ao cavalo pasto ou outro alimento em quantidades insuficientes está fazendo algo que é evitável e cruel. A oferta de uma dieta desbalanceada a um equídeo também é uma causa de baixo grau de bem-estar. A alimentação

68 Imagem obtida do site Defensores dos Animais. Fonte:

https://defensoresdosanimais.files.wordpress.com/2010/07/cavalocarroca2.jpg Acesso em: 22 de dez. 2017-12-22

69 SOUZA, Mariângela Freitas de Almeida e. Implicações para o bem-estar de eqüinos usados para tração

de veículos. Revista Brasileira de Direito Animal. v.1 n.1. 2006. p. 193

70

BROOM. D. M. FRASER. A.F. Comportamento e bem-estar de animais domésticos. Tradução Carla Forte Maiolino Molento. 4.ed. Barueri: Manole, 2010. p. 313

42 incorreta é relativamente rara na produção animal, mas não incomum entre aqueles que mantêm um cavalo como animal de estimação.

Constata-se, assim, que a ausência de comida e água para o animal de tração é uma forma de maltrato, visto que impede que ao animal seja garantida uma das “Cinco Liberdades” necessárias para afirmar que ao mesmo foi assegurado o seu bem -estar. A falta de alimentos suficientes para garantir a boa nutrição do animal acaba por ser uma agressão a integridade do animal, visto que impede que seja garantindo o seu bom funcionamento vital, o que pode inclusive levar o animal a óbito, gerando assim grande sofrimento ao mesmo.

1.3.2 Lesões e doenças adquiridas pelos animais utilizados para tração no

No documento Animais de tração: a responsabilidade civil do estado pela sua omissão frente aos maus-tratos praticados contra essas espécies (páginas 42-45)