Para além da monitorização, foi realizado um estudo sobre alguns fatores que poderão levar a que os colaboradores que se encontram expostos aos agentes químicos tenham maior probabilidade de contração de doenças profissionais. Os dados podem ser consultados no Anexo VIII.

Os dados recolhidos permitiram perceber que existe um total de 42 trabalhadores do sexo masculino na área e que a média de idades é de cerca de 29 anos. Tendo em conta os postos de trabalho, verificamos que os misturadores abertos correspondem ao posto que requer maior número de colaboradores, correspondendo a um dos equipamentos que existe em maior número, sendo necessários um total de 13 colaboradores. Logo a seguir aos misturadores abertos, o posto com maior número de colaboradores expostos corresponde aos Banbury’s, sendo necessários um total de 9 colaboradores. Estes dados apresentam-se designados na Tabela 6:

Tabela 6. Número de colaboradores por posto de trabalho.

POSTO DE TRABALHO

MISTURADOR ABERTO 13

BANBURY 9

TEAM LEADER 6

PRENSA DE MOLDE 5

PRENSA DE CORTE 4

FCE’s 3

GERAL 2

TOTAL 42

No que diz respeito ao consumo de tabaco, podemos verificar que 26 trabalhadores são consumidores, correspondendo este valor a cerca de 62% dos colaboradores totais (Gráfico 3):

Gráfico 3. Percentagem de fumadores e não fumadores na CRM.

Para o estudo em questão foi também importante perceber a antiguidade de cada colaborador no setor em questão (Gráfico 4):

Gráfico 4. Antiguidade dos colaboradores no setor CRM (em anos).

62%

38%

CONSUMO DE TABACO

FUMADORES NÃO FUMADORES

21%

5%

74%

ANTIGUIDADE NO SETOR (ANOS)

1 ANO 2 ANOS 3 ANOS

6 DISCUSSÃO

Perante os resultados obtidos verificamos que nenhum dos valores excede o valor-limite de exposição, porém, foram encontrados alguns agentes químicos da indústria da borracha, ainda que em reduzidas quantidades, que podem acarretar perigos para a saúde e despoletar o desenvolvimento de doenças profissionais, nomeadamente o 1,3-butadieno e o estireno, tal como comprovado, por exemplo, nos estudos de Delzell, Macaluso, Sathiakumar, Matthews (2001), referente ao butadieno, e de Sathiakumar, Brill, Leader e Delzell (2015), em relação ao estireno.

Segundo o estudo realizado por Sathiakumar et al (2015), cerca de 86,8% dos colaboradores de uma fábrica de borracha sintética na América do Norte contraiu leucemia quando expostos a uma dose média de 379,5 ppm/ano de 1,3-butadieno (médias de 66 anos de idade e 34 anos trabalhados), 80,9% contraiu Linfoma “Não-Hodgkin” quando expostos a uma dose média de 236,5 ppm/ano (médias de 69 anos de idade e 37 anos trabalhados) e 70,8% contraiu Mieloma Múltiplo quando expostos a 359,6 ppm/ano (médias de 71 anos de idade e 37 anos trabalhados).

No estudo realizado por Graff et al (2005), na indústria de borracha sintética, cerca de 88% da população contraiu um tipo de leucemia para uma dose mediana de cerca de 185 ppm/ano de 1,3-butadieno (médias de 61 anos de idade e 17 anos trabalhados), 81% contraiu NHL para uma dose de cerca de 139 ppm/ano (médias de 64 anos de idade e 21 anos trabalhados), 85% para MM com cerca de 123 ppm/ano (médias de 66 anos de idade e 19 anos trabalhados) e 46% contraiu a Doença de Hodgkin quando expostos a 55 ppm/ano (médias de 53 anos de idade e 14 anos trabalhados).

Em relação ao estudo realizado por Delzell, Macaluso, Sathiakumar & Matthews (2001), no mesmo tipo de indústria dos estudos anteriores, desenvolveram-se vários tipos de leucemia em cerca de 88% dos colaboradores expostos para um valor mediano de dose de cerca de 209,3 ppm/ano (médias de 61 anos de idade e 17,2 anos trabalhados). Já no estudo realizado por Cheng, Sathiakumar, Graff, Matthews & Delzell (2007), cerca de 71,4% da população contraiu leucemia quando expostos a um valor médio de dose de 396,8 ppm/ano (médias de 63,5 anos de idade e 29,5 anos trabalhados). Em relação ao estudo realizado por Nalini Sathiakumar, Brill & Delzell (2009) para uma dose média de 292,0 ppm/ano de 1,3-butadieno, cerca de 78,8% dos expostos contraíram cancro do pulmão (médias de 67,2 anos de idade e 17 anos trabalhados).

No caso do estireno, no estudo realizado por Sathiakumar et al (2015), 91,2% dos colaboradores expostos a estireno contraiu leucemia a uma dose média de 64,3 ppm/ano (médias de 66 anos de idade e 34 anos trabalhados), 88,8% contraiu Linfoma “Não-Hodgkin” a uma dose média de 43 ppm/ano (médias de 69 anos de idade e 37 anos trabalhados), e 77,1% contraiu Mieloma Múltiplo a uma dose de 89,9 ppm/ano (médias de 71 anos de idade e 37 anos trabalhados). Em relação ao estudo realizado por Graff et al (2005) sobre a indústria de borracha sintética, verificou-se que para uma dose mediana de 32 ppm/ano, cerca de 91% dos colaboradores expostos contraíram leucemia (médias de 61 anos de idade e 17 anos trabalhados), 90% contraiu NHL para uma dose mediana de 30 ppm/ano (médias de 64 anos de idade e 21 anos trabalhados), 85% contraiu MM quando expostos a uma dose mediana de 15 ppm/ano (médias de 66 anos de idade e 19 anos trabalhados) e 54% contraiu Doença de Hodgkin para uma concentração mediana de 6 ppm/ano (médias de 53 anos de idade e 14 anos trabalhados). Os resultados obtidos no estudo de Delzell, Macaluso, Sathiakumar & Matthews (2001), revelam que para uma concentração

mediana de 36,6 ppm/ano de estireno, 92% dos colaboradores contraiu leucemia (médias de 61 anos de idade e 17,2 anos trabalhados). No estudo realizado por Nalini Sathiakumar, Brill &

Delzell (2009) verificou-se que para um valor de dose média de 56,4 ppm/ano de estireno, cerca de 85,8% dos colaboradores contraiu cancro do pulmão (médias de 67,2 anos de idade e 17 anos trabalhados).

Tendo em conta os valores anteriormente mencionados, e para que se pudesse realizar uma comparação com os resultados obtidos, foi calculada a dose para os valores de 1,3-butadieno e estireno, utilizando a Equação 2:

𝐷𝑜𝑠𝑒 = 𝑡 × 𝐶 2. Cálculo da dose

Os valores de dose obtidos para 1,3-butadieno correspondem a 83,95 ppm/ano para a referência E, 87,60 ppm/ano para a referência K e 8,40 ppm/ano para a referência X. Foi detetado estireno numa das monitorizações de PAH’s e o valor de dose obtido corresponde a 40,15 ppm/ano.

Estes valores são relativamente reduzidos em comparação com os valores obtidos nos estudos anteriormente apresentados e estes valores de dose são estimados para uma produção diária destas referências para um ano, o que não se verifica, tendo em conta que o planeamento é sempre distinto, não sendo estas massas produzidas todos os dias. Por outro lado, são produzidas referências que poderão ser similares. Em relação aos estudos anteriormente apresentados, a incidência de doenças recai sobre idades mais avançadas (entre os 53 e os 71 anos de idade) e sobre um número considerável de anos trabalhados (entre 14 e 37 anos trabalhados, o que não se verifica neste caso tendo em conta que temos uma população jovem (média de 29 anos) e um máximo de 3 anos trabalhados, sabendo que este setor se encontrou na unidade de Corroios até 2015, ano em que foi deslocado para Mozelos (Santa Maria da Feira).

No que diz respeito aos resultados de N-nitrosaminas, estes podem ser verificados no Anexo VII. Relativamente a este agente, não estão definidos valores limite de exposição. Em relação a N-nitrosodimetilamina, os efeitos toxicológicos associados passam por cancro do fígado e do rim e lesão hepática. Para este agente, foi verificada a existência de valores limite de exposição em alguns países, sendo que as concentrações obtidas foram inferiores ao valor mais exigente apresentado pela Alemanha (0,000075 mg/m3)23. Este agente deve ser avaliado segundo um efeito combinado (efeito aditivo), no entanto, e sabendo que não se encontra nenhum VLE definido, o mesmo não foi calculado.

As nitrosaminas são formadas pela reação de aminas secundárias com agentes nitrosantes do tipo NOx:

23 https://www.dguv.de/en/index.jsp (consultado a 13/06/2018)

AMINAS SECUNDÁRIAS + AGENTES NITROSANTES + CALOR = N-NITROSAMINAS

As aminas secundárias surgem dos ingredientes pertencentes à família dos aceleradores de vulcanização e dos dadores de enxofre, que contém o grupo amina secundária na sua constituição.

Como aceleradores de vulcanização temos as aminas (BA, HMTA), os tiazóis (MBT, MBTS e ZMBT), as sulfenamidas (MBS, DIBS e OTOS), as sulfenimidas (TBSI), os tiureias (ETU, DETU, DBTU, DPTU e TMTU), os xantatos (ZIX), as guanidinas (DPG, DOTG e OTBG), os tiurames (TMTM, TMTD, TETD, MPTD, DPTT), os ditiocarbamatos (ZDMC, ZDEC, ZDBC, ZSMC, ZEPC, ZMPC, TDEC, ZBEC) e os ditiofosfatos (ZBPD). A família dos dadores de enxofre é a fonte de enxofre que vai estabelecer as ligações químicas entre as cadeiras macromoleculares e atua também como agente de vulcanização, melhorando as propriedades dos vulcanizados. Como exemplos de dadores de enxofre geradores de nitrosaminas temos o DTMD e o MBSS.

São vários os tipos de nitrosaminas formadas na indústria da borracha, sendo dominantes as seguintes: nitrosodimetilamina (Grupo 2A), nitrosodietilamina (Grupo 2A), N-nitrosodipropilamina (Grupo 2B), N-nitrosodi-isopropilamina, N-nitrosodibutilamina (Grupo 2B), N-nitrosopiperidina (Grupo 2B), N-nitrosomorfolina (Grupo 2B), N-nitrosopirrolidina (Grupo 2B), N-nitrosometilfenilamina, N-nitrosoetilfenilamina24. Alguns tipos de N-nitrosaminas estão classificados, segundo a IARC, como pertencentes aos Grupos 2A e 2B, apresentando também alguns sintomas associados, nomeadamente: comichão, ardor nos olhos, hemorragias nasais, ardor na garganta e secura, rouquidão, tosse seca grave, náuseas e dores de cabeça (Lena S. Jonsson et al., 2009). Em relação ao local onde se realizou a monitorização das N-nitrosaminas (estufas), o mesmo não constitui um posto de trabalho, e desta forma a exposição é muito reduzida, não sendo, portanto, possível concluir se existe algum tipo de sintoma associado a este local e ao fenómeno de formação deste agente. No entanto, foram realizados levantamentos de sintomas dos colaboradores que estão associados às tarefas realizadas na zona das estufas. Num total de 6 colaboradores, verificou-se que 4 não apresentam sintomas (2 fumadores e 2 não fumadores).

Apenas um referiu que já sentiu irritação ocular, sendo esse colaborador fumador. Um dos colaboradores referiu que tem algumas irritações dérmicas. Perante estes sintomas, verifica-se que a irritação ocular é um dos sintomas que se assemelha aos que são referidos por Lena S. Jonsson et al. (2009), devendo ser dada atenção a este relato, apesar de poder não estar associado à exposição química ocupacional.

No que diz respeito aos fatores potencialmente condicionantes, foram recolhidos alguns dados, nomeadamente no que diz respeito à distribuição dos colaboradores pelos postos de trabalho, o sexo, a idade, o consumo de tabaco e a duração de empregabilidade no setor em questão.

Em relação aos postos de trabalho onde os colaboradores se encontram, verificamos que os que requerem maior afluência de trabalhadores são os postos dos misturadores abertos (porque existe um número considerável destes misturadores no processo), com um total de 13 colaboradores, e os misturadores fechados (Banbury’s), com um total de 9 colaboradores expostos.

Vlaanderen et al (2013) observou, durante a realização dos seus estudos, que existe uma incidência significativa de cancro no pulmão em trabalhadores que se encontravam na “preparação de materiais”, processo esse que inclui a pesagem e mistura, a moagem e a calandragem. Este processo descrito pelo autor em tudo se assemelha às tarefas que são realizadas nos misturadores

24 https://ctborracha.com/?page_id=13318 (Consultado a 3/06/2018)

abertos e fechados, estando estes 22 colaboradores em postos de trabalho onde existe uma quantidade considerável de agentes químicos libertados, sejam eles poeiras ou gases e vapores libertados após a mistura dos diferentes produtos.

Também o sexo e a idade são dois fatores relevantes. Neste estudo, a média de idades ronda os 29 anos e os colaboradores, na sua totalidade, são do sexo masculino. Estes fatores têm sido alvos de estudo, porém ainda não existem estudos concretos que comprovem que estes são fatores que realmente podem influenciar na contração de doenças profissionais. Apesar disto, idades mais avançadas estão mais associadas a um maior número de mortes por doenças profissionais.

No que toca ao consumo de tabaco, neste setor, cerca de 62% dos colaboradores são fumadores. Os resultados obtidos por Gemitha & Sudha (2013) são idênticos a outros que sugerem uma associação entre o tabagismo e a exposição ocupacional, podendo estes 26 colaboradores estar mais suscetíveis à contração de doenças profissionais. No que diz respeito aos colaboradores que são fumadores, não fará sentido, neste caso, realizar um estudo sobre os sintomas que se possam fazer sentir nos mesmos, tendo em conta que poderão estar associados ao próprio consumo de tabaco. No que diz respeito aos sintomas por parte dos colaboradores não fumadores, na sua maioria não são apresentados sintomas, num total de 10 colaboradores. Alguns referiram alguns sintomas, nomeadamente: enjoos (1), sangramento pelo nariz (1), irritação ocular (2), irritação dérmica (2), dificuldades em respirar (2) e garganta irritada (1). Apesar de se fazerem sentir estes efeitos, os mesmos poderão não estar diretamente associados à exposição química ocupacional que se faz sentir no setor, podendo estar outros fatores associados à origem dos mesmos, o que não invalida de se ter em conta e em atenção os relatos dados por parte dos colaboradores.

Em relação ao tempo de empregabilidade, a maioria dos colaboradores trabalha há cerca de 3 anos no setor, sendo que este é o tempo máximo, tendo em conta que o setor em questão se encontrava na unidade de Corroios até 2015, ano no qual foi movido para a Amorim Cork Composites. Segundo os estudos realizados no que diz respeito a este tema, cada doença apresenta um intervalo no qual é mais relevante, não sendo possível comparar com este caso em específico tendo em conta que o tempo de empregabilidade é muito reduzido. Porém, segundo Vlaanderen et al. (2013), existe uma maior taxa de mortalidade por cancro do pulmão em colaboradores com duração de empregabilidade compreendida entre 1 e 9 anos.

No documento AVALIAÇÃO E IDENTIFICAÇÃO DE CONTAMINANTES QUÍMICOS NO PROCESSO DE AGLOMERAÇÃO DE CORTIÇA COM BORRACHA (páginas 67-72)