III. Felicidade e bem-estar subjetivo
III.1 Felicidade
III.1.1 Definição
Felicidade é um termo de origem latina felix representa sorte, destino. Segundo o dicionário Aurélio 1, significa qualidade ou estado de feliz; ventura; contentamento. Feliz por sua vez é descrito como aquele que desfruta de satisfação e ventura; intimamente contente, alegre, satisfeito; que prosperou; que teve bom resultado, bem sucedido; favorecido pela sorte; bem lembrado; em que há alegria. Para o filósofo alemão Immanuel Kant 2, “o conceito de felicidade é tão indeterminado que, embora todo mundo queira alcançá-lo, nunca se consegue dizer de forma definitiva e coerente o que realmente deseja e quer.”.
III.1.2 Perspectiva histórica
III.1.2.1 Filósofos da antiguidade
Este tema, intimamente associado à humanidade, é motivo de debate por pensadores desde a antiguidade3. O filósofo Democritus, do período pré-Socrático, foi um dos primeiros pensadores a se referir à felicidade. Segundo ele a vida feliz era prazerosa não por causa das posses da pessoa feliz, mas em função da forma como a pessoa feliz reagia às circunstâncias da vida 3. Existiam na antiguidade duas tradições filosóficas sobre felicidade: a versão eudaimônica e hedônica. No livro a História, de Heródoto, a procura pela felicidade está listada no registro dos “grande e maiores feitos” das questões humanas 2. A palavra grega
eudaimonia, é resultado da união de outras duas palavras gregas eu (bom) e daimon (deus, espírito, demônio), e contém em si uma ideia de fortuna, pois ter um bom daimon ao seu lado é ter sorte, ter um emissário divino que guia cada um de nós, agindo de modo invisível pelo bem dos olímpios 2. Acreditava-se, portanto, que a felicidade estava além da intervenção dos homens. Na história da felicidade, assim como na da filosofia, Sócrates é figura central. Sabe- se que viveu entre 470 a 399 a.C, e foi morto por governantes de Atenas sob acusação de ter renegado os deuses da cidade e corrompido a juventude 2. Sua história é contada por seu aluno Platão, em uma série de diálogos. Para Sócrates, ao contrário das correntes até então, a felicidade está ao alcance do ser humano. O desejo pelo prazer deve ser considerado uma característica universal tanto para animais quanto para homens, mas Sócrates entendia por felicidade uma meta superior que estava além da satisfação dos sentidos 2. Sócrates e Platão definiam felicidade como eudaimonia, o objetivo da vida humana, uma vida florescente, bem- sucedida, argumentando que “as pessoas deveriam refletir sobre suas vidas como um todo e identificar o que era mais importante ou valioso, planejar e viver suas vidas para alcançar este fim” 2. O eudaimonismo sustenta que é preciso escolher os desejos para ser feliz. Para o filósofo Aristóteles, ser um bom ser humano é viver de acordo com nossa virtude especial, a razão, e um bom ser humano é um homem feliz. Aristóteles reconhece que o prazer, embora não seja o único componente da felicidade, contribui para ela. Da mesma forma, os bens externos como dinheiro, amigos, filhos, boas origens e beleza física, são aceitos como componentes necessários da felicidade, já que “não podemos, ou não podemos com facilidade, realizar boas ações se não temos recursos” 2. Ele coloca ainda que a felicidade deve ser julgada depois da vida concluída pois ao longo dela podem ocorrer mudanças. Na visão eudaimônica portanto, a felicidade podia ser medida objetivamente pelo acúmulo de “bens”.
Aristipo, filósofo contemporâneo de Sócrates, tinha outra visão sobre felicidade e é considerado um dos precursores do hedonismo. Hedonê é uma palavra de origem grega que significa prazer, vontade. Na visão hedônica, a ênfase está nas experiências subjetivas do prazer e a felicidade seria a soma das experiências subjetivas vivenciadas. Neste sentido, a motivação primária do ser humano seria buscar prazer e evitar a dor.
Filósofos gregos estoicos do século III a.C acreditavam que o sofrimento humano resultava da incongruência entre vontade e desejo e que neste sentido o homem deveria adaptar e moldar os desejos ao curso dos acontecimentos. Segundo Epicteto, “não são as coisas em si mesmas que inquietam os homens, mas as opiniões que eles formam sobre estas coisas”.2
Os filósofos concordam sobre este aspecto: “Não é verdade que nós, homens, desejamos todos ser felizes?” 3. Segundo Platão “De fato, quem não deseja ser feliz?” 3. Os filósofos relacionavam ainda a felicidade ao conhecimento da verdade, à alegria que nasce da verdade3. Comte-Sponville 3 ainda diz: “A busca da felicidade é a coisa mais bem distribuída do mundo.”
III.1.2.2 Iluminismo europeu
O tema felicidade continuou a inquietar os pensadores do mundo e, no final do século XVIII, o iluminismo europeu veio trazer uma nova perspectiva sobre o tema. Ele pressupunha a existência de uma harmonia pré-estabelecida entre o progresso da civilização e o aumento da felicidade. O avanço do saber científico, o domínio crescente da natureza pela tecnologia, o aumento da produtividade e aprimoramento intelectual, contribuíram para a expectativa da
máxima felicidade para o maior número de pessoas. O filósofo político e químico inglês Joseph Priestley, co-descobridor do oxigênio afirmava que:
“A natureza, incluindo tanto os seus materiais como suas leis, estará mais sob o nosso comando e os homens tornarão a sua condição neste mundo enormemente mais tranquila e confortável; eles irão provavelmente prolongar a sua existência nele e tornar-se-ão dia após dia mais felizes, cada um em si mesmo, e também mais aptos, (e, creio eu, e dispostos) a transmitir felicidade aos demais. Dessa forma, seja qual tenha sido o princípio deste mundo, o final será glorioso e paradisíaco, além de tudo o que a nossa imaginação possa no presente conceber.4 ”
Para o filósofo Kant, a felicidade não é o bem supremo, ou o fim último, mas uma espécie de bônus ou prenda involuntária, coroando uma boa fé inquebrantável e a consciência do dever cumprido.
III.1.2.3 Reflexões contemporâneas
Gianetti 4, em seu livro “Felicidade”, instiga-nos a refletir sobre a questão: é possível comparar a felicidade do ser humano ao longo do tempo? Segundo ele “O bem-estar do ser humano é em parte objetivo, mas é também subjetivo – depende muito de como as pessoas estão se sentindo e avaliando as suas vidas à medida que o mundo à sua volta se transforma”.