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PARTE I – DISCURSOS SOBRE FEMINILIDADE E CAMINHO METODOLÓGICO

CAPÍTULO 1 ENUNCIADOS SOBRE FEMINILIDADE

1.1 Séries discursivas

1.1.4 Feminilidade: maternidade e harmonia do lar Discurso religioso

Estudos desenvolvidos por Perrot (2005) mostram como se deu o processo de urbanização e industrialização, as importantes mudanças causadas na organização social, e desvelam os processos que levaram à constituição da família como núcleo da vida privada que, separada das atividades econômicas e da esfera política, promovem o confinamento das mulheres e das crianças no privado, consentindo assim afirmar que essa polaridade entre a vida pública e a privada é fruto do discurso liberal da Europa do século XVIII.

Perrot (2005, p. 456) alega que o privado é, na verdade, mais do que uma linha, é uma zona delimitada por duas fronteiras: de um lado a intimidade do eu, a câmara escura, a fortaleza do forte interior; de outro lado, os territórios do público e do privado os quais o século XIX se esforçou para dar consistência de esferas, por razões e com modalidades variáveis nos diferentes países europeus, sendo talvez mais interessante tratar o público e o privado como dimensões presentes em todas as relações sociais e não como mundos ou universos, conceitos que definem espaços, que delimitam lugares e pessoas.

Nesta perspectiva, a divisão entre essas esferas - a distinção de atividades econômicas e características ou ainda lugares públicos e privados - não pode ser aplicada, como afirma Carvalho (1998, p. 384), a todas as sociedades em todas as épocas. É necessária uma classificação que tem sua emergência na organização social ocidental europeia que se expressa no pensamento filosófico liberal, como polaridades rígidas.

Assim como Perrot (2005), outros historiadores assinalam a Revolução Francesa como um período de grande flutuação das fronteiras entre a vida pública e a vida privada. Os domínios do público invadiram aqueles habitualmente privados, passando a existir uma relação intrínseca entre o desenvolvimento do espaço público e a politização da vida cotidiana com a redefinição mais clara do espaço privado no início do século XIX.

O domínio da vida pública ampliou-se de maneira constante como preparação para o movimento romântico de fechamento do indivíduo sobre si mesmo e da dedicação à família, em um espaço doméstico determinado com maior precisão. E é esse o âmbito em que se faz mais evidente a invasão da autoridade pública no espaço privado. Passando a legislar sobre a vida familiar, os governos revolucionários mostram sua preocupação em conservar o equilíbrio entre a proteção da liberdade individual, a preservação da unidade familiar e a consolidação do controle do Estado.

A família configura-se agora na fronteira entre o público e o privado, evidenciando a invasão da autoridade pública na vida familiar.

A partir do momento em que o casamento civil é instituído e a cerimônia para sua legalização deveria se realizar na presença de um funcionário municipal e não de uma autoridade religiosa apenas, a autoridade pública passou a ter participação na formação familiar: definindo os impedimentos de união, regulamentando as adoções, definindo os direitos dos filhos naturais, propondo educação por meio da criação de um sistema de educação nacional e um código civil. O Estado passa a garantir os direitos individuais, encoraja a união familiar e limita o poder paterno ampliando o seu próprio, substituindo a igreja como autoridade máxima nas questões da vida familiar. Entretanto, na segunda metade do século XIX, aumentava cada vez mais o número de pessoas que desejavam uma convergência entre casamento e felicidade.

Sobre a economia familiar, é preciso dizer que até o início dos anos de 1800, as esposas participavam na administração dos negócios, faziam a contabilidade da empresa, preferiam que o dinheiro fosse investido na indústria, e não na compra de vestidos de seda, apesar de não gozar de igualdade de direitos.

Contudo, as modificações de habitat consolidaram o afastamento das mulheres da esfera econômica para isolar-se em casa, na medida em que a burguesia deixa de morar próximas de suas fábricas e constroem bairros novos e luxuosos distantes.

As mulheres, do meio urbano, passam a administrar a casa, um grande número de empregados, uma família numerosa e uma moral doméstica cujos principais eixos são: a fé contra a razão, a caridade contra o capitalismo e a reprodução como autojustificação fruto do atendimento aos preceitos da fé católica e das estratégias matrimoniais do setor têxtil na sociedade francesa, tendo em vista que as mulheres encontram na vida privada (do lar) compensações que favorecem seu consentimento: uma relativa proteção, o luxo ostensivo, principalmente das burguesas, que estão incumbidas das aparências.

Aos olhos de uma sociedade pautada em princípios utilitaristas, os papéis femininos de uma maternidade social apresentados pela Igreja e pelo Estado, no cuidado com os filhos, e das tarefas do lar, são constantemente valorizados, dando uma ideia geral de um equilíbrio harmonioso e uma continuidade do trabalho dos dois sexos, onde a mulher cuida das despesas e exerce um poder eficaz.

Assim, o biológico se inscreve no social sob uma moral mais simbólica que econômica. São as burguesas senhoras do lar responsáveis por essa moral doméstica através

da função materna de muitos filhos, que dá conta do asseio, da decoração do lar, da observância quase religiosa de uma moda tirânica, as contas da casa.

Algumas descrições, segundo Perrot (ibidem, p. 129), ajudaram a elucidar os papéis e o lugar da mulher na sociedade rural francesa do século XIX: a preparação do enxoval, a relação entre mãe e filha, por exemplo, são apenas na opinião dessa autora alguns papéis culturais enraizados em seu destino biológico. A mulher agora administra a casa, o grande número de empregados e a família numerosa, atividades que não estão encerradas dentro de casa.

Na literatura religiosa, os homens representam o caos e a morte com seu gosto destrutivo pelo poder e dinheiro, ao passo que a mulher, anjo do lar, loiras heroínas, restauram a harmonia do lar. Um modelo de vida doméstica, marcado por uma visão angelical por assim dizer, mas que varia segundo os níveis sociais com suas devidas proporções e um novo modelo de feminilidade está sendo desenhado.

No Brasil, o investimento em um modelo normativo de mulher e de feminilidade se evidencia durante o século XX, modelo esse, construído tanto, por uma nova preocupação especial com a infância, instituindo o que Rago (1997, p. 75) denominou de ―o mito do amor materno‖ associado ao arquétipo da ―esposa-dona-de-casa-mãe-de-família‖, quanto pelos discursos religioso e médico na condução da mulher ao lar como sua guardiã e cuidadora.

Para a autora, é no discurso médico-sanitarista, recorrendo à questão do aleitamento materno e ao discurso religioso, que se formula um discurso da medicina de valorização ao papel da mulher com uma missão sagrada e uma vocação natural: a procriação, o qual se utiliza de argumentos de cunho moral, dá sustentação à construção de uma visão heróica e romântica de mulher com o lugar na sociedade e identidade definida.

Como campo de atuação, diferentemente para o homem, para o qual está reservada a esfera pública, o lar se configura no espaço para a realização dos talentos femininos, pois, como acrescenta Rago (1997, p. 47), no discurso médico, dois caminhos conduzem a mulher ao território da vida doméstica: o instinto natural à procriação e o sentimento de sua responsabilidade na sociedade. ―Tudo que ela tem a fazer é compreender a importância de sua missão de mãe, aceitar o seu campo profissional; as tarefas domésticas, encarnando a esposa- dona-de-casa-mãe-de-família‖ (ibidem, p. 75).