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2. RESULTADOS E DISCUSSÕES

2.15 FERRO DISSOLVIDO

Os metais avaliados nas águas das áreas de influência direta e indireta relacionadas ao

empreendimento Porto Sul foram: alumínio dissolvido, cobre dissolvido, manganês total,

zinco total, cromo total, mercúrio total, cádmio total e níquel total. Estes parâmetros de

qualidade de água são apresentados a seguir, sendo o presente item destinado à apresentação

de resultados e discussão sobre ferro dissolvido.

As concentrações encontradas nas amostras coletadas para os parâmetros citados são

comparadas, quando estabelecida, com os critérios da Resolução Conama 357/05 e com os

critérios da National Oceanic and Atmospheric Administration - NOAA - Screening Quick

Reference Tables (BUCHMAN, 2006).

O ferro existe sob forma particulada e dissolvida, e pode estar sob forma reduzida Fe

2+

ou

oxidada Fe

3+

. Comumente, em ambientes aquáticos, prevalece Fe

2+

, que, por meio do

consumo do oxigênio dissolvido no meio, oxida-se a Fe

3+

. Com a oxigenação da coluna

d’água há a precipitação de fosfato férrico e a redissolução de fosfato ferroso durante períodos

de redução (TUNDISI & TUNDISI, 2008).

O ferro é um elemento importante e essencial nos processos de oxidorredução, como cadeias

de transporte de elétrons (respiração e fotossíntese), além de ser necessário nas hemoglobinas

e síntese de clorofila (PINTO-COELHO, 2002). Assim, o elemento ferro pode interferir no

metabolismo de diversas formas de vida, no fitoplâncton, por exemplo, é capaz de inibir a

absorção e os processos fisiológicos do fósforo (ALLOWAY & AYRES, 1994).

O ferro pode ser considerado como elemento limitante do crescimento do fitoplâncton em

áreas do oceano aberto com altos níveis de nutrientes, mas com carência de ferro. A adição de

ferro em ecossistemas aquáticos marinhos com estas características e consequentemente com

baixa produtividade primária pode elevar as condições favoráveis ao aumento das taxas de

bioestimulação do ferro em ambientes oceânicos remotos se dá em áreas que sofrem

ressurgência de correntes oceânicas profundas, que trazem todos os nutrientes essenciais ao

fitoplâncton, exceto o ferro - que está associado à drenagens continentais. O processo foi

descoberto a partir da análise de imagens de satélite que mostravam extensas florações de

algas após tempestades que sopravam areia do deserto do Saara (rica em ferro) para o meio do

Oceano Atlântico. Por isso, tora-se importante entender que o efeito de bioestimulação do

ferro no fitoplâncton ocorre em áreas ricas em N, P e outros nutrientes, mas pobres em Fe.

Esse entendimento é importante porque em águas continentais e marinhas costeiras, onde a

drenagem de solos ricos em ferro é freqüente, o Fe não pode apresentar o efeito de

bioestimulação do fitoplâncton porque há excesso de oferta deste metal.

Em relação aos seres humanos, o consumo em excesso de ferro pode ocasionar aumento na

produção de radicais livres de oxigênio no organismo, responsáveis por doenças

degenerativas e pelo processo de envelhecimento (SHIMMA, 1995).

A Figura 2.78 apresenta a distribuição dos valores absolutos de ferro dissolvido presentes nas

águas das Estações de Amostragem do Estudo de Impacto Ambiental do empreendimento

Porto Sul. Para a comparação com os critérios da Resolução Conama 357/05 (água doce -

Classe 2 e água salobra - Classe 1), foi representado em linha vermelha o valor limite de 0,3

mg/L.

 Lagoa Encantada (Campanhas 1 e 2 - 2010)

Os valores obtidos de ferro dissolvido nas águas amostradas durante a Campanha 1 de 2010

(Período Chuvoso) na lagoa Encantada oscilaram entre 0,42 mg/L Fe (LE2 Superfície e

Fundo) e 0,78 mg/L Fe (LE1 Superfície). Estes teores violam a Resolução Conama 357/05

para águas doces de Classe 2, que estabelece até o limite de 0,30 mg/L. Entretanto, as

concentrações de ferro dissolvido em ecossistemas aquáticos têm origem alóctone a partir de

rochas tais como, por exemplo: hematita, magnetita e siderita. Na Campanha 2 (período seco)

os resultados variaram entre 0,84 mg/L Fe (LE2 Superf.) e 1,58 mg/L Fe (LE3 Superf.).LE1

Fundo e LE2 Fundo apresentaram valores menores que o LDM (<0,03 mg/L).

Obs. Linha Vermelha indica limite estabelecido pela Res. Conamanº 357/05 para água doce (Classe 2) e salobra (Classe 1 e 2).

Figura 2.78 - Ferro Dissolvido nas Águas - Qualidade das Águas - Porto Sul -Período Chuvoso (1) e Seco

(2) de 2010 e Período Chuvoso (1) e Seco (2) de 2011 e Campanha Complementar de 2012

0,0 0,5 1,0 1,5 2,0 2,5 3,0 3,5 LE 1 S upe rf . LE 1 Fu ndo LE 2 S upe rf . LE 2 Fu ndo LE 3 S upe rf . LE 3 Fu ndo AL 1 AL 2 AL 3 AL 4 RA L 0 1 AL 5 /RA L 0 2 RA L 0 3 AL 6 P1 P2 C0 1 C0 2 C0 3 C0 4 C0 5 C0 6 C0 7

Lagoa Encantada Rio Almada Demais ecossistemas aquáticos continentais Fe rr o D is s ol v ido (m g L -1)

Ferro Dissolvido na Água

Ponta da Tulha Camp.1 ‐2010 Ponta da Tulha Camp.2 ‐2010  Aritaguá Camp.1‐2011 Aritaguá Camp.2‐2011 Aritaguá Camp.1‐2012

A presença do elemento ferro no ambiente lêntico, naturalmente, está condicionada às

concentrações e transporte proveniente do seu entorno e tributários, além dos ciclos

biogeoquímicos autóctones no qual, por exemplo, o Fe

++

(forma reduzida) libera precipitado

como fosfato férrico em potencial redox mais elevado (Tundisi & Tundisi, 2008).

O ferro dissolvido na água da lagoa Encantada (LES-LEN-500) apresentado pelo programa

Monitora variou entre 0,40 e 0,54 mg/L Fe. Estes valores também ultrapassaram o limite da

Resolução Conama 357/05.

 Rio Almada (Campanhas 1 e 2 - 2010)

Verificou-se a variação da concentração de ferro dissolvido no rio Almada de 1,00 mg/L

(AL6) a 1,80 mg/L (AL4) durante o período chuvoso de 2010 (Campanha 1). Valores de

0,32 mg/LFe (AL5) e 0,93 mg/LFe (AL4) foram obtidos durante o período seco, sendo que a

AL6 apresentou valor < 0,03 (LDM).

Durante a Campanha 1 de 2010, o valor médio de ferro dissolvido obtido entre as estações de

amostragem no rio Almada foi de 1,48 mg/L Fe, sendo superior ao observado para o

calculado entre as estações da Lagoa Encantada (0,53 mg/LFe). Entretanto, na Campanha 2 o

valor médio do ferro dissolvido avaliado nas águas do rio Almada foi de 0,59 mg/L Fe,

inferior ao observado para a lagoa Encantada (0,75 mg/LFe).

Como o Ferro é considerado um indicador natural de entrada de material terrígeno em

ambientes aquáticos, os elevados valores tidos na Campanha 1, podem ter sido originados a

partir das ações da precipitação na bacia do rio Almada, durante o período tido como chuvoso.

A diminuição das concentrações de ferro dissolvido durante a Campanha 2 se deve,

provavelmente, à redução de precipitação.

Com base na Resolução Conama 357/05 há violação para este parâmetro exceto para a

Estação AL6, amostrada no período seco.

Na estação de amostragem (LES-ALM-200) localizada a montante da AL1, de acordo com o

Programa Monitora, foram obtidas concentrações de 0,64 até 0,92 mg/L para ferro dissolvido.

A estação LES-ALM-300 (a jusante de AL1) do referido programa de monitoramento

apresentou amostras de água com valores de 0,38 a 0,83 mg/L Fe.

 Rio Almada (Campanha 1e 2 de 2011 e Campanha Complementar de 2012)

As concentrações de ferro dissolvido nas águas amostradas nas estações RAL01 (0,79 mg/L),

RAL02 (0,71 mg/L) e RAL03 (0,67 mg/L) da Campanha 1 de 2011 estão entre a amplitude

mínima 0,32 mg/L (Estação AL5, período seco) e máxima (1,8 mg/L AL4, período chuvoso)

das campanhas realizadas 2010. Contudo, no período seco de 2010 todos os valores

analisados foram inferiores a 0,93 mg/Le no período chuvoso superiores a 1,00 mg/L.

O aporte de Ferro no rio Almada pode ser garantido e influenciado pelas entradas oriundas do

intemperismo de rochas e carreamento de solos presentes na bacia hidrográfica no

ecossistema aquático através de uma maior precipitação. Ao se comparar as duas amostragens

do período chuvoso (Campanha 1 de 2010 e 2011) e período seco (Campanhas 2 de 2010 e

2011), se notou em média maior valor no período chuvoso de 2010 (1,48 mg/L) do que no

período seco de 2010 (0,58 mg/L) e no ano de 2011 também mais elevado no período

chuvoso (0,72 mg/L) em relação ao período seco (0,47 mg/L). Cabe ressaltar que uma das

principais fontes naturais de ferro para ecossistemas aquáticos provém do solo em seu entorno

e, porém, quando a origem é antrópica pode estar associada à utilização de agrotóxicos, tintas,

produtos de limpeza e no caso da área diretamente afetada pelo empreendimento Porto Sul a

mesma estará propícia às influências do transporte e armazenamento de minério de ferro. Os

dados aqui apresentados deverão ser usados como níveis basais para futuros estudos de

qualidade de água no rio Almada.

Como já apresentado na Figura 2.78, a maioria dos resultados obtidos de Ferro Dissolvido na

água do rio Almada foram superiores ao permitido pela Resolução Conama 357/05, contudo,

devido à amplitude observada durante o estudo, a origem deste elemento parece ser oriundas

de fontes naturais. Além disto, deve ser aqui lembrado que o Ferro é um micronutriente

necessário aos organismos autótrofos fotossintetizantes, como fitoplâncton, e de sua

disponibilidade no meio aquático dependem dos processos fisiológicos, além dos processos

geoquímicos. Para a Estação RAL01 a Campanha Complementar de 2012 apresentou 1,25

mg/L e RAL02: 0,95 mg/L.

 Demais Ecossistemas Aquáticos Continentais (Campanhas 1 e 2 – 2010)

No período chuvoso (2010), na estação P1 foi obtido o valor de 1,79 mg/LFe, enquanto que

na estação P2 foi quantificado 0,61 mg/L Fe. O Estudo de Impacto Ambiental do

Empreendimento Portuário da Ponta da Tulha realizado pela BAMIN (2009), apresentou

concentração de 1,49 mg/LFe (período chuvoso) na estação denominada LM5, localizada na

mesma área escolhida para a Estação P1, do presente estudo.

No período seco (2010), a Estação P1 apresentou 1,22 mg/LFe e a Estação P2 apresentou

0,68 mg/LFe.

 Demais Ecossistemas Aquáticos Continentais (Campanha 1 e 2 de 2011 e Campanha

Complementar de 2012)

Dos ecossistemas aquáticos continentais em ambas as Campanhas de 2011 situados na ADA,

a Estação C07 (Campanha 1: 0,25 mg/L; Campanha 2 0,11 mg/L) foi a única que não

ultrapassou o limite estabelecido pela Resolução Conama 357/05. A oxigenação da coluna

d’água pode ser, por exemplo, um dos motivos para a precipitação de fosfato férrico e

diminuição da parte dissolvida na coluna d’água. Outra interpretação está associada ao pH

mais básico que ocorre em águas com influencias salinas.

Durante a Campanha 2 de 2011, os valores absolutos de Ferro Dissolvido da Estação C02

foram os mais elevados (Campanha 1: 1,90 mg/L; Campanha 2: 3,00 mg/L) quando

comparado aos demais resultados apresentados em todas as campanhas (2010 e 2011)

realizadas no presente estudo. Este fato pode estar relacionado à influência das áreas úmidas

no rio Tiriri, neste trecho a montante (Estação C02). As únicas influências antrópicas mais

plausíveis de justificar valores tão elevados de ferro dissolvido na Estação C02 podem estar

relacionadas ao “lixão” a montante ainda da Estação C01, além do uso de fertilizantes e

agrotóxicos na área que é dominada por plantação de cacau-cabruca. Cabe ressaltar que a

causa mais provável da elevação do Fe na estação C02 é o chorume ácido liberado do lixão. A

depender do tipo e volume de lixo, pode chegar a um pH de 4,0, suficiente para ocasionar

lixiviação ácida de metais adsorvidos aos solos e rochas na zona de percolação. O que pode

ser elucubrado é que a drenagem subterrânea do chorume não passe nas proximidades da

estação C01 e sim pela estação C02, mas isto não pode ser confirmado.Além disso, a Estação

C04 que não sofre influência do referido “lixão”, durante a Campanha 2012 apresentou o

maior pico (3,3 mg/L) dentre todas as estações e campanhas.

Os valores baixos de oxigênio (Figura 2.64) na água na Estação C02 durante a Campanha 2

de 2011, e nas Estações C02, C04 e C06 durante Campanha Complementar de 2012 podem

teoricamente, ter sido um dos motivos para solubilização do Ferro. Isto pode significar que os

elevados resultados nestas Estações (Figura 2.78) podem estar mais relacionados com a

dinâmica de difusão e produção primária do oxigênio por macrófitas e fitoplâncton, possível

estratificação vertical da massa de água e acúmulo de matéria orgânica de origem vegetal e

antrópica (chorume) nos mananciais avaliados

No documento TOMO X - APÊNDICE 9 - QUALIDADE DA ÁGUA (páginas 181-185)