A FICÇÃO MELODRAMÁTICA DE CAROLINA

No documento Carolina Maria de Jesus: projeto literário e edição crítica de um romance inédito (páginas 84-95)

AS INTENÇÕES LITERÁRIAS DE CAROLINA ESCRITORA

A FICÇÃO MELODRAMÁTICA DE CAROLINA

No projeto literário de Carolina de Jesus os romances ocupam lugar importante. Ela escreveu seis, mas apenas um, Pedaços da fome, foi publicado. Carolina escrevia os romances nos mesmos cadernos nos quais escrevia os diários, e da mesma forma: o enredo é entrecortado por anotações do cotidiano, listas de compras, contas matemáticas e frases aleatórias, normalmente de protestos contra ou a favor dos políticos, além de repúdios ao racismo.

Os romances inéditos são: Dr. Sílvio, Diário de Martha ou Mulher diabólica,

Dr. Fausto, Rita, O escravo e dois romances sem título. Todos eles apresentam

características marcantes da escritora e algumas típicas da sua ficção: descrições românticas da natureza no início dos capítulos, personagens semelhantes aos da prosa romântica e folhetinesca do século XIX, enredo linear e maniqueísta, discursos de denúncia social, divisão acentuada entre pobres e ricos. Tais características nos permitem afirmar a semelhança da prosa de Carolina com o melodrama, gênero que remete à expressão popular, e com o romance-folhetim.

O melodrama, de origem francesa, surgiu no Brasil no século XIX e permanece em várias formas dramáticas cultivadas ainda hoje no teatro, cinema, literatura e outras artes. A telenovela brasileira, por exemplo, mesmo a atual, é marcada pelo gênero. Sua estética moralizante é a principal característica que Carolina cultiva em sua prosa de ficção. Além desta, há ainda outras marcas, como a luta entre o bem e o mal, o chamado maniqueísmo, que termina com a vitória da virtude sobre a maldade.

Em O Melodrama, Jean-Marie Thomasseau (2005) explica que a palavra

traz ao pensamento a noção de um drama exagerado e lacrimejante, povoado de heróis falastrões derretendo-se em inutilidades sentimentais ante infelizes vítimas perseguidas por ignóbeis vilões, numa ação inverossímil e precipitada que embaralha todas as regras da arte e do bom senso, e que termina sempre com o triunfo dos bons sobre o maus, da virtude sobre o vício (p. 9).

Os enredos dos manuscritos de Carolina e de seu romance publicado possuem essas características, heranças, com certeza, de leituras dos clássicos folhetins do século XIX, especialmente aqueles encontrados na biblioteca da casa em que trabalhava como doméstica e depois os livros achados no lixo. As características do folhetim, que se misturam às do melodrama, também estão presentes em sua ficção.

Segundo Flávio Luiz Porto e Silva, o romance-folhetim, assim como o melodrama, é contemporâneo das grandes transformações sofridas pela sociedade francesa no século XIX. Ele afirma:

As apropriações feitas pelo folhetim em relação ao melodrama são inúmeras: enredo, personagens, linguagem, ambientação. Nele também a luta entre o Bem e o Mal calca-se em três personagens básicos: o herói, a heroína e o vilão. Definidas claramente para o leitor, as personagens em geral não são aprofundadas em sua psicologia e nem por isso deixam de seduzir o público (...) (2005, p. 48).

O sentimentalismo e o conflito, que privilegiam as emoções, permanecem no folhetim. Constatando-se que este realmente sofre influência do melodrama, Silva lembra que foram homens de teatro, como Alexandre Dumas, que aprimoraram a técnica do folhetim.

A palavra, segundo Marlyse Meyer (1996), origina-se de le feuilleton, que designa um lugar preciso do jornal, o rés-do-chão, rodapé, geralmente na primeira

página. “Tinha uma finalidade precisa: era um espaço vazio destinado ao entretenimento” (Meyer, 1996, p. 57). Inicialmente pretendia-se ocupar o lugar com frivolidades, seria o objetivo do folhetim, mas o espaço “engoliu” o jornal e os folhetins

tornaram-se o grande chamariz desta época, escola e espaço de grandes nomes da literatura mundial, como Alexandre Dumas e Balzac e os brasileiros José de Alencar,

Machado de Assis e Aluísio Azevedo: “Brotou assim, de puras necessidades

jornalísticas, uma nova forma de ficção, um gênero novo de romance: o indigitado,

nefando, perigoso, muito amado, indispensável folhetim ‘folhetinesco’” (Meyer, 1996,

p. 59).

O folhetim se caracterizava primeiramente por ser publicado em série, com

garante que a obra seja um “romance-folhetim”. Com isso a pesquisadora quer dizer que

há características que são típicas do gênero como: diálogos vivos, senso de corte de capítulo, relação com o melodrama e com o drama romântico, previsíveis e redundantes narrativas, sentimentalismo, pieguice, lágrimas, emoções baratas, suspense e reviravoltas, linguagem retórica e chapada, personagens e situações estereotipadas, entre

outras. O gênero é também conhecido pelo nome de “romance rocambolesco”, que

semanticamente refere-se a uma aventura delirante, “enrolada como o bolo ao qual deu

nome” (Meyer, 1996, p. 157)

Vários dos traços folhetinescos citados podem ser encontrados nos romances de Carolina de Jesus, especialmente os personagens estereotipados ou tipificados, os dramas, a pieguice e o sentimentalismo, como veremos nos exemplos que seguem.

As marcas sociais em Pedaços da fome

Muitos dos temas encontrados nos diários publicados por Carolina são também notáveis em sua ficção. O romance Pedaços da fome, de 1963, surgiu quando Carolina já não experimentava mais os louros da fama. O livro é marcado pelo maniqueísmo na divisão de classes sociais. A protagonista, filha de um importante fazendeiro, torna-se pobre ao se casar com um golpista e experimenta o outro lado das relações de classe. Segundo Eduardo de Oliveira, que prefacia o livro,

Carolina conserva a mesma forma de escrever dos seus diários: sua palavra continua tosca, mas admiravelmente clara. O enredo é ingênuo, leve, correntio e o estilo é despido dos monumentos da retórica. Ainda assim, “Pedaços da fome” tem esse sopro de vida, traz lampejo de verossimilhança. É arrancado do mesmo barro que foi feita a humanidade (Oliveira, 1963, p. 12).

Maria Clara, a protagonista, é uma menina mimada, filha de um importante coronel do interior do Brasil. Como filha única, é privilegiada pela fortuna e pelo respeito imposto pelo pai, mas é infeliz, porque não pode desfrutar da vida por ser extremamente protegida. No trecho a seguir, o narrador nos revela a superproteção à qual Maria Clara era submetida:

Recolhida nos seus aposentos, construido especialmente para ela, Maria Clara evocava o seu passado na escola, com grande ressentimento. Era considerada a melhor aluna da classe. Se errava nas lições não era castigada. Era aprovada em tudo. Reinava na classe e nunca foi castigada e recebia as melhores notas. Ninguém mencionava seu nome. Dizia: “-A filha do coronel”. Quando atingiu a juventude com seus sonhos deslumbrantes, a reserva com que lhe tratavam foi magoando-lhe profundamente. Ninguém ousaria tocar-lhe. A filha do coronel era uma boneca de porcelana (Jesus, 1963, p. 22).

É essa menina que conhecerá o farsante Paulo Lemes, por quem se apaixona, e que pensa ser um importante dentista da capital. Entretanto, o rapaz, além de mentir para ela e para sua família, leva Maria Clara para morar em um cortiço na cidade grande, onde vivia às custas de uma tia. É assim que Carolina vai traçar a formação da

protagonista. A moça será obrigada a, corajosamente, sobreviver em um mundo que ela nem sabia que existia e forçadamente aprenderá a valorizar a independência e perceber que a vida é bem mais difícil do que pensava. Sua opinião sobre ricos e pobres muda e ela conhece a hipocrisia e a solidariedade humanas, vindas de quem menos espera. A história, portanto, assemelha-se aos bildungsromane, os romances de formação, gênero que tem sua origem marcada no século XIX, com obras consagradas como Os anos de

aprendizado de Wilhelm Meister, de Goethe, e As aventuras de Robinson Crusoé, de

Defoe. Na literatura escrita por mulheres, o gênero tem tratamento diferente, especialmente na literatura de escritoras negras, como Conceição Evaristo, em seu

Ponciá Vicêncio, um romance de formação marcado pela escrita afro-brasileira29. Também a personagem de Carolina percorre uma bildung (palavra em alemão para

“formação”) diferente dos demais personagens folhetinescos do gênero literário e

especialmente diferente dos personagens masculinos, como Meister.

O maniqueísmo entre riqueza e pobreza é muito enfatizado em Pedaços da fome. Alguns personagens se mostram avessos aos ricos e isso pode ser percebido em vários trechos, como na fala de Paulo, quando conhece Maria Clara e ainda não sabe que ela é

a filha do coronel, “dono” da cidade: “– O Cel deve ser o dono da cidade. É mania dos

super-ricos mandar nas cidades atuando como dragões” (Jesus, 1963, p. 30). Em

seguida, Paulo Lemes afirma que “o homem para ter valor é preciso ter inteligência”

(Jesus, 1963, p. 33). Os bons valores, no livro, são muitas vezes associados aos pobres e

os ruins aos ricos, fruto da visão simplista da autora.

O coronel, pai da protagonista, é um exemplo de rico temido pelos conterrâneos, pela esposa e filha. Seu patriarcalismo é notável na cidade e em casa. Quando descobre que a filha está namorando um desconhecido que se diz doutor, ele afirma que quem faz as leis em casa é ele, e que só permitiria que a filha saísse de casa casada com quem ele quisesse. A fórmula romântica e shakespereana do amor proibido pela família entre mocinha e mocinho parece se repetir, mas não é o que acontece depois. Maria Clara foge com Paulo e o tom do romance muda. O enredo, então, se concentra na formação da protagonista, antes mimada e rica, agora pobre e casada com um malando que não

29

Este foi o tema de minha dissertação de mestrado, intitulada Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo,

um Bildungsroman feminino e negro, defendida em 2007 no Programa de Pós-Graduação em Estudos

Literários da UFMG, e disponível em:

http://www.bibliotecadigital.ufmg.br/dspace/bitstream/handle/1843/ECAP- 76RF2H/aline_alves_arruda_texto.pdf?sequence=1

pode sustentá-la.

É assim que vemos a questão de gênero se desenvolver na narrativa. Maria Clara sempre ouviu da mãe que a mulher deve obedecer ao marido e ser submissa, como ela era ao coronel, pai de Maria Clara, mas agora a protagonista se vê diante de uma prisão: o casamento com alguém que não era quem pensava. Esse tipo de engodo elaborado

pelo “conquistador” sobre as mocinhas ingênuas é recorrente nos romances-folhetins do

século XIX. Na literatura brasileira, já na fronteira com o Modernismo, podemos lembrar, por exemplo, o conhecido Cassi Jones, exímio conquistador, personagem de

Clara dos Anjos, romance de Lima Barreto. Maria Clara toma a decisão de sobreviver

mesmo diante de toda decepção e surpresa no ambiente do cortiço, para onde o marido a leva. Em São Paulo conhece o outro lado da vida: como pobre, descobre um mundo

novo, seu “berço de ouro” não lhe vale para as surpresas que encontra, como podemos

ver quando ela chega ao cortiço e descobre que Paulo estava mentindo quando disse que

era dentista rico: “Era a primeira vez que ela entrava num lugar tão pobre. Desconhecia

as classes sociais; não sabia que existia paupérrimos, médios e ricos. [...] Eu não estou

habituada com as preocupações da vida” (Jesus, 1963, p. 71). Começa então o martírio

da mocinha rica, com um sentimentalismo tipicamente melodramático e folhetinesco. A denúncia social levantada por Carolina Maria de Jesus em seus diários permanece por vezes em seus romances, como no trecho a seguir:

(...) os pobres entendem de tudo um pouco. Somos felizes porque não escolhemos serviços. Enfrentamos as contingências da vida com seriedade e resignação. Vocês ricos podem escolher profissão, tem meios, podem estudar. Têm possibilidades de transformar o sonho em realidade(Jesus, 1963, p. 74).

A defesa dos pobres é feita quase sempre por Paulo, que geralmente se vitimiza e se justifica por não trabalhar e não possuir nada na vida. Muitas vezes o narrador de Carolina se posiciona diante desses fatos e opiniões, como quando se refere a Maria Clara em:

Ela também fora feliz quando estava aos cuidados de sua mãe e de seu pai, como dentro de uma muralha, protegida dos infortúnios da vida. Os ricos deviam permitir o introsamento dos pobres no seu núcleo para que seus filhos não ingnorassem os dramas da vida. E os dos pobres (Jesus, 1963, p. 75).

A assertiva, com tom declarativo, é comum em Pedaços da fome, e Carolina parece se apropriar da literatura, muitas vezes, para se manifestar a favor dos pobres.

Os traços melodramáticos de Pedaços da fome começam no título. Segundo Thomasseau (2005), um bom melodrama tem um título de efeito. Neste caso, o título dado pela autora inicialmente seria “Felizarda”, mas a editora a convenceu a mudar.

Sabemos que a palavra “fome” é marca da obra publicada anteriormente por Carolina,

especialmente Quarto de despejo. A associação da fome com o nome e o prestígio da autora poderia ajudar a gerar êxito no lançamento do livro e a chamar o público já conquistado pelo diário best-seller. O tema da perseguição é outro aspecto melodramático importante que se encontra no romance da autora mineira. Maria Clara é vítima inicialmente da mentira deslavada de Paulo, que depois se torna, de certa forma, seu algoz, pois as consequências dessa mentira são sofridas principalmente por ela, obrigada a trabalhar para sobreviver e criar os filhos, afastada da família por causa do marido. Além de Paulo, também perseguem Maria Clara a tia dele, Raquel, e seu filho Renato, que abusam da simplicidade e da ingenuidade da menina bonita e impõem a ela serviços domésticos, os quais a moça rica nunca havia feito, bem no estilo de histórias

infantis como “Cinderela” e também das folhetinescas até hoje representadas em

telenovelas. A grande perseguidora da protagonista é, portanto, a pobreza, é com ela que a menina tem de lidar ao sofrer o choque social que o falso casamento lhe proporciona.

Interessante também é a visão da autora sobre o cortiço no livro. É bem semelhante ao ponto de vista da favela que Carolina nos mostra nos diários: de um lado,

a falta dos “gêneros alimentícios”, expressão que usa muito; de outro, as confusões

causadas pelos moradores, as fofocas e intromissões. Maria Clara vive no cortiço

momentos semelhantes aos vividos pela autora: “– Como é insípida a vida das habitações coletivas. Uns querem saber a vida dos outros. E as discórdias” (Jesus, 1963,

p. 92). A tia de Paulo chega a lamentar a vida da moça de origem nobre naquela

“pocilga”: “Você aqui é como uma flor da estufa” (p. 92). Quanto a este cenário, a

alusão ao clássico O cortiço do maranhense Aluísio Azevedo é inevitável. A segunda metade do século XIX trouxe para nossa literatura as teorias filosóficas e políticas do contexto histórico de então. O Naturalismo tratou as aglomerações de pessoas como argumento para seus desvios de caráter, baseados na teoria determinista. No romance de

Azevedo não há heróis e mocinhos, a natureza humana e seus defeitos são exaltados, ao contrário do romance de Carolina, em que, apesar da preguiça de Paulo e das desvirtudes citadas no trecho anterior, Maria Clara encontra apoio e alento em personagens como Dona Maura, que a protege e auxilia nos momentos difíceis. A visão de Carolina parece conter uma mistura entre aspectos inerentes ao Naturalismo e ao Romantismo, pendendo, no caso da descrição de personagens e da condução do enredo, ao sentimentalismo romântico.

Pedaços da fome foi publicado com parte do dinheiro que a escritora ganhou

pelas publicações e traduções de Quarto de despejo, mas foi um fracasso de vendas. Provavelmente por isso ela e as editoras não tenham investido mais na publicação de romances e demais textos que permaneceram inéditos.

Os romances inéditos

Os inícios dos capítulos da prosa de ficção de Carolina são quase sempre marcados pelas descrições da natureza, com muitos adjetivos e metáforas para compor o cenário romântico que quer apresentar. Em Dr. Silvio, a narrativa começa desta forma:

“Os pássaros entoavam suas canções maravilhosas e voavam na amplidão. As nuvens

percorriam o espaço numa carreira vertiginosa. O sol estava semioculto entre as nuvens e a viração impedia-lhe de transmitir o seu calor na atmosfera”. A clara referência romântica de idealização da natureza está confirmada nos adjetivos “maravilhosas” e

“vertiginosa”. No início de “Dr. Fausto”, o narrador usa metáforas instigantes para se referir ao sol como “o astro rei” e “o king número um”. Tais descrições lembram as dos

romances românticos brasileiros, como esta, retirada de Iracema, de José de Alencar:

“Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba” (s/d, p. 20); ou esta, de A Moreninha: “Raiou o belo dia, que seguiu a sete

outros, passados entre sonhos, saudades e esperanças” (Macedo, s/d, p. 124).

O mesmo tom romântico e folhetinesco é comum nas descrições dos ambientes e dos personagens, como no capítulo 1 de Dr. Silvio, quando o narrador descreve Maria Clara, a protagonista e heroína do romance: “A menina era esbelta, cabelos pretos, olhos verdes, a pele nívea e aveludada como pétalas de rosas. Era a lenidade em pessoa. Todos lhe devotavam uma amizade sincera e desejavam-lhe um brilhante futuro”. A idealização da personagem confirma as características mais conhecidas do romance- folhetim que Carolina tanto preza e que são evidentes em seu estilo. Além dos adjetivos

empregados para descrever a linda moça, como “esbelta”, “nívea”, “aveludada”, a

autora utiliza também o vocabulário rebuscado, conservador, como “lenidade”, pouco comum inclusive para sua época, porém muito utilizado pelos clássicos romances que ela lia. Em um trecho de O Guarani, Alencar assim descreve Cecília, a musa de Peri:

“Os grandes olhos azuis, meio cerrados, às vezes se abriam languidamente como para se embeberem de luz, e abaixavam de novo as pálpebras rosadas” (s/d, p. 37).

Segundo Meyer o romance-folhetim retratava principalmente a mulher:

[o romance] dá evidentemente grande lugar aos personagens femininos, que vão também se transformando no decorrer do tempo,

das grandes e fortes figuras femininas do folhetim romântico, até as fracas e sofridas mulheres da última fase do folhetim, não por acaso intitulado “romance da vítima” (1993, p. 103).

As heroínas de Carolina costumam apresentar semelhanças com essas heroínas folhetinescas e românticas. Além da beleza rica de detalhes e idealizada, elas apresentam em suas trajetórias o lugar marcado de vítimas, como as citadas por Meyer anteriormente, que sofrem perseguições e cujas histórias visam levar o leitor à piedade e ao sentimentalismo. Em Pedaços da fome, Maria Alice é exemplo desse aspecto: sua vida no cortiço é difícil, depois de ter nascido em família rica e ser enganada pelo homem que amava. Em Dr. Silvio, Maria Clara sofre com um amor não correspondido, com uma gravidez antes do casamento, com o preconceito da família rica do marido e com seu desdém. Maria Luiza, em Dr. Fausto, é filha da governanta do conde Fausto e, apesar de ser uma menina perspicaz e inteligente, sofre preconceito por ser pobre e filha da empregada, mesmo sendo tratada como filha pelo patrão. Vanda, de Diário de

Martha ou mulher diabólica tem a vida destroçada quando perde o marido num desastre

de avião, estando com uma filha recém-nascida para cuidar. Rita, do romance homônimo, sofre desde seu nascimento, pois é rejeitada pelos pais. Glória, de um dos romances sem título, sofre com a doença de Chagas e é explorada pelas primas.

Quanto aos personagens masculinos, muitos são fúteis e mimados, outros, fracos e preguiçosos, embora alguns tragam qualidades de caráter. Os protagonistas Silvio e Fausto, personagens dos romances que levam seus nomes, são homens ricos e de prestígio. Silvio é filho de fazendeiros latifundiários, Fausto é homem nobre, um conde. Não só no título apresenta nobreza, mas também no caráter. Viúvo, é pai zeloso e homem de bom coração. Já Silvio carrega a proteção dos pais, especialmente da mãe que é viúva, e apresenta-se bastante frívolo diante das situações, como o amor e a

lealdade que Maria Alice lhe devota. “Rita” apresenta um tipo masculino nada

surpreendente dos folhetins (e da vida real, lembrando que a história da menina assemelha-se à biografia da autora): o pai da protagonista é um músico de boa lábia, malandro que vive corrompendo e seduzindo as mulheres, fazendo-lhes filhos e abandonando-as. Carlos, marido de Vanda, de “Martha ou a mulher diabólica”, é conservador e obriga a esposa a abandonar o emprego para se casar com ele. Ciumento, não aceita que outros homens se aproximem dela.

Carolina tende, portanto, a apresentar personagens femininas que, mesmo não sendo totalmente independentes, são obrigadas a sobreviver ao contexto masculino em que vivem e, de certa forma, conseguem se impor nele.

Portanto, mesmo escrevendo no contexto literário da segunda metade do século

No documento Carolina Maria de Jesus: projeto literário e edição crítica de um romance inédito (páginas 84-95)