3. DOS MATERIAIS E SUSPENSÕES ÀS ENTREVISTAS

3.2 Entrevistas: o que você vê, sente e pode contar?

3.2.3 Fichas de Entrevistas

Figura II Modos de ser Escola do campo

Fonte: DUTRA, 2021

A Figura mostra a primeira ficha de entrevista em que proponho conversar com os/as entrevistados/as sobre como percebem as possibilidades dos processos educativos, tendo em vista aquilo que o campo pode oferecer como meio, recurso, relações, saberes que podem constituir a Escola do Campo. A ficha de entrevista foi construída com uma fotografia de uma intervenção realizada pela professora e diretora de uma Escola do Campo (Escola Padre Fidêncio). A partir da fotografia me propus a pensar nos vários momentos que havia estado nessa e em outras escolas do campo como professora de Educação Especial itinerante.

Assim, preenchi a ficha com um acontecimento, uma história a qual presenciei, que considerei surpreendente pela singularidade e disponibilidade.

Acompanhando a fotografia desenhei crianças brincando, asas (uma ideia de

12 As fichas de entrevistas têm dimensão total da folha A4, em papel cartonado de diferentes cores, cada uma caracterizada conforme o tema de discussão.

possibilidade) e o sol, como energia do momento. Ainda escrevi a cena que observei um dia, em uma ida de trabalho à escola Padre Fidêncio:

No intervalo, dois meninos da pré-escola chegaram e perguntaram à professora: - tia! Diz pra eles brincarem comigo (se referindo aos outros alunos maiores). A professora então surpreende: - vamos jogar? Quem é bom goleiro? E lá se foram brincando de bola e os outros brincando de se esconder. A professora-diretora despida de qualquer cargo, jogando livremente com crianças de quatro anos (pela autora).

Figura III Abrindo mão das Escolas do Campo

Fonte: Dutra, 2021

Na figura acima fiz o recorte de duas imagens retiradas de um livro de registros da Secretaria de Educação, de 1992, em um capítulo onde se coloca o transporte escolar como uma inovação do município. Na primeira foto podemos ver uma pequena frota ilustrando o resultado do investimento. Na segunda foto, dois alunos carregando uma faixa no Desfile de 7 de setembro, trazendo a mensagem do transporte como acesso dos filhos do campo à uma educação de qualidade.

Juntamente com as fotos desenhei uma faixa representando os vários quilômetros em que as crianças viajam saindo de suas casas de manhã cedo, ou até mesmo antes do almoço, para conseguir chegar a tempo da aula, bem como o retorno tardiamente, com horário estendido. Além das características da faixa, como placas de sinalização (BR/ERS), desenhei também o cifrão e um cofre de porquinho representando a lucratividade dos cofres públicos com a nucleação das Escolas do Campo. O gráfico que também desenhei na figura, com os vetores X e Y, demonstra o exponente crescimento da nucleação em contraste com o cenário atual, em que temos apenas quatro escolas multisseriadas do campo.

Figura IV Vamos Jogar?

Fonte: DUTRA, 2021

Essa figura traz dois recortes escritos. O primeiro é um registro meu no próprio texto da qualificação, onde proponho me aventurar no espaço do campo, e me dispor a viver experiências inusitadas, estando aberta ao que surgir. Nesse sentido, o “estar disponível” requer o não julgamento do que é observado e sensibilidade suficiente para perceber, nas pequenas ações, uma rede de

diferenças culturais que podem proporcionar um outro olhar à escola multisseriada. No outro recorte trago a letra de uma música intitulada “Ainda existe um lugar”13, representando a noção de resistência, em que o estar no espaço do campo não signifique falta, falha, incompletude, mas lugar de potência para a educação.

Juntamente com os recortes de texto trago uma figura com crianças brincando de roda, representando a possibilidade das brincadeiras na Escola do Campo, do compartilhar e da coletividade, me propondo e propondo ao outro a possibilidade de jogar dentro dessa rede de relações. Além disso, pensando não só no visual, mas em outros sentidos, trago no canto superior da ficha café torrado, que traz à lembrança do estar em casa e da proximidade que a Escola do Campo oferece.

Figura V - A escola é, sobretudo, gente

Fonte: DUTRA, 2021

13 Composição: Ivo B. Brum / Miguel Marques/1990.

Na presente figura trago duas fotos tiradas por mim em um trajeto percorrido para buscar os alunos da escola Padre Fidêncio. Na primeira foto é possível visualizar a capela da comunidade, em que são feitas missas mensais e onde as pessoas se unem em festas e até mesmo promoções realizadas pela escola. Na época do ensino remoto ela serviu para distribuir as atividades e cestas básicas às famílias.

Na outra foto temos o primeiro prédio da escola Padre Fidêncio, um chalé construído para acolher mais de 40 alunos na época. Ele foi fechado para reformas e nunca mais voltou a funcionar. A escola ainda é ativa em uma casa alugada na comunidade. Juntamente com as fotos escrevi algumas palavras e citações que nos remetem a esses espaços, principalmente para que os entrevistados rememorem lembranças e experiências de estar nesse local, aqui representado pela escola, mas que também pode representar tantas outras características.

É importante pontuar aqui que a viagem na qual tirei as fotos apresentadas na ficha foi a do retorno ao transporte escolar depois do ensino remoto. O que rendeu anotações afetadas de sentimento em forma de áudio, reproduzidas na sessão na qual apresento minhas afetações como pesquisadora.

Figura VI O que você mais gosta na sua escola?

Fonte: DUTRA, 2021

Na figura acima trago desenhos de crianças de 4, 10 e 11 anos estudantes da escola Padre Fidêncio. Para a produção dessa materialidade perguntei a elas sobre o que mais gostavam na escola e assim representaram com desenhos. O primeiro desenho é de uma menina que representou a casa na árvore, na antiga sede, muito precária, mas que era lembrada devido as brincadeiras com os colegas. O segundo desenho é de uma criança de 4 anos, primeiro ano de escolarização, e o que representou foi o transporte escolar e o futebol com os amigos. No terceiro desenho, o menino de 11 anos já representa a escola com a sede nova, apresentando as brincadeiras preferidas, como esconde-esconde, pega-pega e futebol.

Trago a experiência infantil também para o material das entrevistas, pois é uma outra perspectiva de se olhar para a escola. É uma tentativa de perceber o que eles valorizam, quais são as suas experiências e o que os motiva a estarem nesse espaço.

Figura VII A coletividade no Campo

Fonte: DUTRA, 2021

Nessa figura , trago como tema a multisseriação. Apresento um excerto de Parente (2014), onde o autor coloca a questão da multisseriação como mazela da escola, da lógica urbana na estrutura do campo, do olhar de menos valia por essa característica. Ao mesmo tempo, no segundo excerto trago uma das características da coletividade, como o compartilhar, que é potente na escola multisseriada devido à aproximação maior dos alunos e das famílias.

Figura VIII Nucleação Escolar

Fonte: DUTRA, 2021

A figura apresentada acima traz a questão na nucleação escolar como inovação, projeto proposto pela Secretaria de Educação juntamente com a prefeitura municipal. São duas notícias veiculadas nos jornais da região colocando essa “inovação” como investimento em educação. Pensei nessa ficha para problematizar a lógica de fechamento das Escolas do Campo multisseriadas e questionar os entrevistados sobre o que acontece nas comunidades em que as escolas estão fechadas, o porquê que estar no campo já não é mais tão atrativo como antes.

Figura IX Brizola ainda vive

Fonte: DUTRA, 2021

A figura IX traz duas fotos de escolas que foram fechadas e que foram construídas na época das escolas Brizoletas14. Essas fotos foram retiradas do arquivo da Secretaria de Educação correspondente ao ano de 1992, em uma seção de manutenção, do que havia sido feito de melhorias, como a cerca na primeira imagem e a caixa d’água na segunda, tendo em vista que o problema da falta de água era um problema recorrente entre as escolas mais afastadas.

Juntamente com as fotos trago a charge do Brizola, de certa forma raivoso, vendo seu projeto esmorecer diante da nucleação e da ideia inicial de “nenhuma criança sem escola no RS”, em 1962, quando o ensino não era obrigatório, a taxa de analfabetismo era alta, e, na tentativa de minimizar os efeitos da não alfabetização e do êxodo rural, a construção de muitas escolas no campo havia sido uma solução encontrada.

14 Instauração do projeto das Brizoletas, também conhecidas como escolinhas do Brizola, fruto do projeto “Nenhuma criança sem escola no Rio Grande do Sul”, em 1959

Figura X Noções de falta - os "pseudo-diagnósticos"

Fonte: DUTRA, 2021

A figura X nos traz um excerto do projeto de qualificação, onde, em uma das suspensões, trago as justificativas do insucesso escolar, seja pela forma de organização, como também do início dos rótulos do aluno “não aprendente”, em que a desnutrição era incluída entre os fatores. É importante registrar que nessa época havia muitas crianças com dificuldades de vida no campo, onde a assistência social não era tão presente como agora. Então passar fome ou ter refeição somente na escola era, e ainda é, muito comum.

Além disso, observa-se também o início dos pseudo-diagnósticos quanto à aprendizagem dos alunos. Rótulos como "deficiência na leitura" ou "muito lento para aprender" ganham espaço no cenário da Escola do Campo posicionando o aluno e a aprendizagem em um lugar de falta e de incapacidade.

Figura XI - Por que não trabalhas? A lógica do capital no campo.

Fonte: DUTRA, 2021

E para finalizar o material de entrevistas trago um excerto do livro Urupês (Monteiro Lobato, 1918) sobre o personagem do Jeca Tatu15, para problematizar o que muitos professores apontam como justificativa para o fracasso escolar: a cultura familiar do não trabalhar, do não ter uma horta, do não empreender no campo. Tais alegações sobre o não sucesso na escola se sobressaem ao desempenho do aluno. Trago junto com o excerto a imagem do personagem sentado com o cachorro, e a árvore representando a sombra e o descanso. Na lógica do capital e trabalho, sombra e água fresca não combinam com trabalho e esforço.

No documento A EDUCAÇÃO DO CAMPO EM CAÇAPAVA DO SUL: EXPERIÊNCIAS QUE SE PRODUZEM NA HISTORICIDADE (páginas 44-53)