2 Contexto Mundial 27
2.1 Processos em Mudança 27
2.1.5 Fim do neoliberalismo ou a volta do Estado liberal? 41
A primeira década do século XXI apresentou diversas mudanças no cenário apresentado até aqui. Dessa forma, apresentamos algumas reflexões e referências que nos ajudarão a entender os rearranjos do ponto de vista geopolítico e econômico, tais como mudanças de pouco significado social e que não representam grandes alterações na vida individual do cidadão planetário, a não ser nos países onde as bombas continuam a cair impunemente em suas casas.
Em 2001 com o incidente no World Trade Center em Nova Iorque, no dia 11 de setembro, entra em cena uma nova realidade,. A resposta norte-americana a esse fato altera a ordem mundial, tal como era até então estabelecida, principalmente pelo fato de passar por cima da Organização das Nações Unidas (ONU) e organizar de forma independente os ataques militares ao Afeganistão e ao Iraque, empreitadas militares que tiveram apoio direto da Inglaterra. Com esse novo cenário, o mundo passa por um aprofundamento do ponto de vista das políticas econômicas, que, no entanto, gera um retrocesso do ponto de vista da liberdade e da forma como o Estado se torna presente. Se antes o Estado deveria permanecer relegado às atividades da administração pública, agora volta a aparecer aquele modelo de Estado característico do início do século XX, ou seja, militarizado e controlador. É curioso que justamente o Estado norte-americano, um país que até então prezava a liberdade individual, passa a controlar a vida dos cidadãos de forma totalitarista, usando do terror como justificativa e usando de leis semelhantes àquelas presentes nos governos militares da América do Sul nos anos 1960 aos 1980.
No entanto, mesmo com esse quadro em andamento, do ponto de vista da globalização, outro fato dá a partida para uma grande mudança nas relações comerciais no mundo: a Rodada de Doha.
A Rodada de Doha, que se estende há quase 10 anos, iniciou-se no Qatar, em novembro de 2001, durante a IV Conferência Ministerial da OMC.
Inicialmente prevista para serem concluídas em 3 anos, as negociações, supervisionadas pelo Comitê de Negociações Comerciais subordinado ao Conselho Geral da OMC, propôs uma agenda negociadora ambiciosa que superaria a cobertura de temas da Rodada Uruguai, a mais complexa negociação da história do GATT.
A Rodada Doha, também conhecida como Rodada do Desenvolvimento, tem como motivação inicial a abertura de mercados agrícolas e industriais com regras que favoreçam a ampliação dos fluxos de comércio dos países em desenvolvimento. A Rodada Doha surge devido ao desbalanceamento entre os interesses dos países em desenvolvimento e os países desenvolvidos durante a Rodada Uruguai, onde novas disciplinas sobre Propriedade Intelectual e Serviços foram propostas pelos países desenvolvidos. (MDIC, 2011)
Há que se destacar que , embora se esperasse que o trabalho fosse finalizado em 2003 e que um acordo (que beneficiava, como sempre, os países centrais) fosse estabelecido, surge um novo elemento que cria um reequilíbrio nas relações comerciais internacionais.
Bhagwati destaca como o ponto alto da reunião de Cancún a emergência do grupo dos 20 (G-20), cujos principais articuladores foram Brasil, Índia e África do Sul. O grupo de países em desenvolvimento não apenas obteve reconhecimento político, como exerceu uma
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forte pressão sobre o posicionamento da União Européia e dos Estados Unidos em suas ofertas agrícolas. (PIANI; MIRANDA, 2006, p. 94)
Na verdade, o encontro em Cancun foi considerado um fracasso, mas do ponto de vista das relações norte-sul, ou na relação dos países emergentes com os países centrais do primeiro mundo, temos uma nova componente na “queda de braço” que, pela primeira vez na história moderna, houvesse uma possibilidade de contraposição.
Provavelmente, o reconhecimento da necessidade de participação dos países em desenvolvimento em comitês que se reúnem, formal e informalmente, para fazer avançar propostas de consolidação do sistema multilateral de comércio talvez tenha sido um dos maiores progressos na história recente da administração do comércio internacional. Isso representa, de fato, uma recompensa merecida pela atuação consistente de países como o Brasil em prol da construção de um regime menos discriminatório; a experiência de dez anos de funcionamento da OMC, com sua estrutura de resolução de controvérsias, já demonstrou, em várias ocasiões, seu potencial de contestação a práticas comerciais dos países desenvolvidos que são nocivas aos interesses dos menos desenvolvidos. (PIANI; MIRANDA, 2006, p. 96)
O G-20 de 2003 representava à época quase 60% da população mundial, 70% da população rural em todo o mundo e 26% das exportações agrícolas mundiais e era liderado em Cancun por um grupo composto pelo Brasil, China, Índia e África do Sul, que juntos representavam por 65% da população mundial, 72% de suas fazendas e 22% de sua produção agrícola. (WIKIPÉDIA, 2007)
Em 2008 outro fato de significativo impacto ocorre na economia mundial, transformando as relações internacionais e alterando a ordem mundial. Foi o chamado “estouro da bolha”, processo iniciado no acesso fácil ao crédito sem lastro para o setor imobiliário norte-americano, que fez com que o setor econômico tivesse que recompor seus fundos, já que se descobriu haver no país um excesso de “papéis podres”. As dívidas que foram contraídas, com sobrevalorização de até 350%, eram impagáveis e os bens hipotecados não cobriam, na maioria dos casos, nada dos valores dessas dívidas, além da falta de liquidez dos títulos (SERRANO, 2008). O efeito “dominó” foi enorme, havendo quebra de instituições financeiras tradicionais, endividamento de países, paralisação da produção mundial, desemprego em massa, entre outros efeitos de impacto mundial. Os governos dos países centrais, como resposta ao enfrentamento da crise, passam a investir enormes quantias para salvar o sistema bancário e produtivo, medidas que não se mostraram muito eficazes, mas recolocaram o Estado no centro do palco. O que parecia ser um desastre para o mundo — e não restam dúvidas que de certa maneira o foi — faz emergir uma nova conjuntura política, liderada pelo
Brasil que, neste contexto, propõe mudanças na estrutura do G-20 que passa a contar com a presença dos países centrais.
Antes da fase mais aguda da crise, o Ministro Mantega iniciou esforço pessoal para mudar a natureza do G-20. Fracassou de início, mas o "setembro negro de 2008" sensibilizou os países mais ricos, levando-os à compreensão de que seria difícil sair da crise sem coordenação com os emergentes. Mantega, então, presidiu a reunião, que contou com a presença do presidente dos EUA, na qual criticou a falta de flexibilidade do G-20, propondo maior número de encontros ministeriais e, o mais importante, defendeu a realização de reuniões de cúpula, para ter efetividade plena. Aceita sua proposta, no mês seguinte realizou-se no mesmo local, Washington, o primeiro foro de líderes do G-20. Lá foi agendado o encontro de Londres, da semana passada, e assim o G-20 foi incorporado ao calendário das lideranças globais.
[...]
Apesar dos avanços em temas como incentivos econômicos, fluxos financeiros para países em desenvolvimento e emergentes, regulação/supervisão do sistema financeiro e reforma da governança global, houve ceticismo em relação a esse último tema. Consolidou- se abril de 2010 para conclusão da reforma de representação dos países no Banco Mundial [lembrar o declaração conjunta de Brasil e Grã-Bretanha]. Janeiro como prazo para a revisão de cotas, capital e voz no FMI. Ambos objetivos de longa data de nosso Estado. Ampliou- se o Financial Stability Forum, rebatizado para "board", com a inclusão dos membros do G- 20, além da Espanha. Ele irá monitorar a economia mundial. Também foi ampliado o Comitê de Basiléia de Supervisão Bancária, ao qual o Brasil ingressou, e o Comitê Técnico da Losco, que reúne os reguladores dos mercados de ações e títulos. Além do fortalecimento financeiro do FMI, para ajudar na crise de liquidez de vários mercados. Todas essas mudanças tiveram como base a cúpula do G-20. (ROMERO, 2011)
Assim, o G-20 passa a representar
[...] aproximadamente 90% do PIB mundial e 2/3 da população global. Foi estabelecido em 1999 como resposta à necessidade de maior coordenação internacional percebida depois da ocorrência das crises financeiras do final daquela década. Atualmente, é um dos mais influentes fóruns internacionais, onde são discutidas questões fundamentais referentes ao funcionamento da economia global. O peso econômico do G-20 e a sua amplitude geográfica lhe conferem elevado grau de legitimidade e influência sobre a condução do sistema econômico-financeiro mundial. O Brasil é membro ativo do G-20 desde a sua criação, em 1999, e sua liderança no ano de 2008 alinha-se à estratégia de maior participação brasileira nos principais fóruns e organismos financeiros internacionais. (MF, 2011)
Essa crise e a consequente resposta brasileira levaram a um reordenamento dos centros decisórios econômicos. Podemos assim entender que a primeira década do século XXI marcará o fim da ideologia neoliberal.
Para o economista e cientista político alemão Elmar Altvater [...] a crise atual certamente representa o fim do neoliberalismo, mas não necessariamente o fim do capitalismo. Pode até acontecer que, na crise, o capitalismo se renove. Tanto Karl Marx quanto Josef A. Schumpeter mostraram as razões disso. Crises têm efeito destrutivo, ao mesmo tempo em que, ao longo delas, o sistema se renova. Antonio Gramsci chamou isso de capacidade para transformações na sociedade, na tecnologia, na política e nas estruturas econômicas (“transformismo”) e constatou que, nas crises, a hegemonia pode se
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reestabilizar. Acontece, porém, que a crise atual é uma crise sistêmica. Isto implica que as transformações não podem limitar-se à superfície. Mas é difícil dizer em que direção elas apontam. É que a direção é determinada por medidas sociais, parte de muitas partes interessadas e ocorre em muitas regiões. Por isso só se pode dizer de forma muito genérica em que direção irão as transformações sociais. Ou o capitalismo pós-neoliberal se torna uma sociedade muito autoritária, com imposição de poder imperial em âmbito global, ou se cria um capitalismo descentralizado, com redes regionais em forma de cooperativas. Um capitalismo autoritário muito provavelmente também é um capitalismo beligerante. (WOLFART, 2011)
Só o andamento da história nos dirá qual o modelo que emergirá da crise, se o modelo totalitarista e beligerante como apresentado por Wolfart, ou um modelo de Estado como o apresentado por Bresser-Pereira.
O regime fordista e seu último ato, os trinta anos dourados do capitalismo, encerraram-se na de!cada de 1970. Que novo regime de acumulação o sucederá? Em primeiro lugar, não será baseado no capitalismo financeirizado, uma vez que esse último período representou um passo atrás na história do capitalismo. Pelo contrário, o novo capitalismo que irá emergir desta crise provavelmente retomará as tendências presentes no capitalismo tecnoburocrático e, especialmente, nos trinta anos dourados. No ambiente econômico, a globalização continuará a progredir nos setores comercial e produtivo, não no financeiro; no meio social, a classe profissional e o capitalismo baseado no conhecimento continuarão a avançar; em compensação, no meio político o Estado democrático irá se tornar mais voltado para as políticas sociais e a democracia será mais participativa. (2010, p. 68)
Independente de qual modelo prevaleça, uma questão permanece viva e a crise não mascarou os problemas com os quais a civilização tem convivido nas últimas décadas.
Atualmente, marcados pelos desdobramentos da recente crise mundial, observamos que a superação da crise financeira mantém a mesma lógica especulativa. Percebemos que questões cruciais concernentes aos aspectos de inclusão social e sustentabilidade ambiental não foram enfrentadas e que se torna cada vez mais evidente que outras crises se seguirão. (MORAIS; BORGES, 2010, p.14)
Apesar do ingresso de um novo time nas decisões do cenário internacional, conseguindo transferência de capital significativa para esses países candidatos no novo mapa decisório, ainda temos a forte presença da transferência das atividades nas quais o Estado esteve presente para o setor privado. Prevalecem também as políticas focadas em eficiência e eficácia econômica, pouca voltadas ao social; os ricos ainda seguem mais ricos e os pobres mais pobres. Passemos ao próximo tópico, em que situaremos a escola dentro desta realidade apresentada e sob forte influência das novas tecnologias.