A INICIAÇÃO DOS JOGOS DA PRIMAVERA EM SERGIPE (1964-1967)
2.3. Fim dos Jogos! Ou um intervalo para arrumar a casa:
O fim dos Jogos não estabeleceu um debate acerca de sua continuidade ou não, mas deixou evidente que todas as manifestações culturais dependiam dos ventos ou sabores políticos que ocupavam o poder, principalmente seu maior ou menor vínculo com a ditadura. A mudança de governo, perpetrada em janeiro de 1967, significou a ascensão de Lourival Baptista, baiano que fez carreira política em Sergipe, sob as bênçãos do usineiro Augusto do Prado Franco. Neste momento político, o autoritarismo já havia se consolidado com as instituições, sob a mira dos órgãos de informação, a cooptação e o compadrio campeando; a resistência política, porém, enfraquecida.
O governo de Lourival Baptista seguiu à risca as direções autoritárias e punitivas indicadas pelo Ministério da Justiça. Seguindo os rumos nacionais, foi uma administração empreendedora, pautada na ostentação: postos de saúde, colégios, rodovias, conjuntos habitacionais e um, até hoje único, edifício de 28 andares no centro de Aracaju72. Nessa seara de desenvolvimento e modernização, educação e esporte não ficaram sem investimento, ao contrário, sofreram avanços significativos.
Sob os auspícios do Secretário de Educação e Cultura, Carlos Alberto Barros Sampaio, o governo iniciara a construção de um ginásio de esportes no CES em 1969, ampliou a oferta de matrículas escolares com a fundação de 14 escolas73, além da criação da Fundação Universidade Federal de Sergipe em 1968. Tais iniciativas faziam a cidade se expandir para as zonas oeste e sul, possibilitando uma nova circulação social.
71 JOGOS da Primavera. Gazeta de Sergipe, Aracaju, p. 5, 4 jul. 1967.
72 DANTAS, I. História de Sergipe: República (1889-2000). Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2004.; e
FIGUEIREDO, A. História política de Sergipe 5: 1962-1975. Aracaju: [s.n.], [198-].
73 SERGIPE. Decreto-lei n.º 6, de 16 de abril de 1969. Cria na rede escolar oficial do estado 14 (quatorze)
Se a construção das escolas era um avanço, com a realização dos Jogos da Primavera e dos JUS ficou patente a necessidade de novos espaços para a prática esportiva. O SESC inaugurara o Ginásio Charles Moritz em 1966, enquanto a Associação Atlética de Sergipe construíra a primeira piscina, em moldes competitivos do estado, no ano seguinte74. Foi, entretanto, o novo olhar sobre o futebol que solidificou a administração de Lourival Baptista e se enraizou como um lugar de memória do esporte sergipano. Segundo Pesavento, a materialidade de uma cidade se dá a ver, mas também a ler, por enxergar uma mediação entre espaço e tempo75. O acanhado Estádio de Aracaju foi abandonado em detrimento de uma construção de estrutura moderna que avançou sobre um terreno pantanoso, significando a materialização dos anseios da modernidade em sintonia com seu grande signo espetacular, o esporte.
O novo estádio foi batizado, num extremo de oportunismo e casuísmo político, "Estádio Estadual Lourival Baptista", sendo denominado, a partir de então, como "Batistão"76. Foi inaugurado em 8 de julho de 1969 com a presença da Seleção Brasileira que se preparava para disputar a Copa do México no ano seguinte. Jogando contra a seleção sergipana, impingiu a esta uma fragorosa derrota pelo placar de 8 x 277. Neste palco esportivo desfilariam ídolos do esporte mundial; sobretudo seria o espaço onde se desenvolveriam os desfiles de abertura, desta feita com caracteres exclusivamente olímpicos, dos jogos escolares, que substituiriam os Jogos da Primavera.
Se a cidade, todavia, despertava para uma nova conformação estética, social, econômica e esportiva, o grande avanço para os Jogos seria a formação de professores que iriam lhes dar sustentação, bem como seriam seus principais críticos. A UFS foi fundada em 1968, reunindo as Escolas Superiores, então existentes, sob a direção de sua Fundação. A Educação Física não fora contemplada, neste momento, como um de seus novos cursos, continuando Sergipe ainda sem a possibilidade de formação de professores na área com nível superior.
74 LÍRIO, A. P. S. A natação nos clubes esportivos de Aracaju e seus pioneiros: dos rios às piscinas. 2007. 92
f. Monografia (Licenciatura em Educação Física) - Departamento de Educação Física, Universidade Federal de Sergipe, São Cristóvão.
75 PESAVENTO, S. J. Cidades visíveis, cidades sensíveis, cidades imaginárias. op. cit.
76 Este oportunismo político não foi uma exclusividade do governador Lourival Baptista. Fixar seus nomes em
estádios de futebol tornou-se uma ação política corriqueira a partir de então e nenhum governador resistiu a esta tentação, inaugurando os estádios "Paulo Barreto de Menezes" em Lagarto, "Augusto Franco" em Estância, "João Alves Filho" em Propriá e "Antônio Carlos Valadares" em Maruim. Sem contarmos com a profusão de batizados de escolas por todo o estado com o nome dos nossos governadores, algo ilegal, mas substancial e intencionalmente, perpetrador de sua lembrança na memória social sergipana.
A D.E.F. do MEC sabia que esse era um problema nacional já detectado nos resultados do "Diagnóstico de Educação Física/Desportos no Brasil". A saída emergencial foi a constituição de "Cursos de Atualização em Educação Física" para qualificar os professores leigos que já ministravam a prática nos colégios primários e secundários.
Em julho de 1969, sob a coordenação do Diretor da D.E.F./MEC, professor Félix D'Ávila e da Inspetora seccional do ensino secundário, professora Alvina Marques da Silva, foi realizado, na Associação Atlética de Sergipe e no Ginásio Charles Moritz, o "1º Curso de Atualização em Educação Física". O curso, ao longo de todo o mês das férias escolares, tratou de práticas esportivas e ginásticas, a saber: atletismo, voleibol, basquetebol, natação, tênis, ginástica masculina e feminina. Essa experiência pedagógica contou com a orientação dos professores Osvaldo Gonçalves, Lúcio Cunha Figueiredo, Raimundo Nonato de Azevedo, José Maria Teixeira, Sônia Mara Tocken e Lia Ferreira Pinto Milward78. Obedecendo aos
preceitos pedagógicos da ENEFD, tendo um ritmo intenso, o Curso deixou uma forte contribuição e marcas memoráveis em Sergipe, conforme relembra o professor Cândido Pereira:
Se visava dar um cunho científico ao professor para que o aluno não corresse riscos de danos físicos né. Você procurava dar ao professor-leigo a qualidade, o "jogo" inteligente entre qualidade e quantidade de carga nas aulas de educação física e se trabalhava muito em cima do esporte. Os cursos foram feitos aqui, no SENAC, no Charles Moritz ― não sei se SENAC ou SESC ― hoje acho que é SESC, Charles Moritz, as aulas eram feitas ali, na Associação Atlética a parte de atletismo e piscina e no Batistão também. Eram aulas, assim, aulas às vezes muito tensas, que se verificava às vezes um sofrimento muito grande para professores que já tinham uma idade avançada e que eram obrigados a se submeter àquele tipo de carga horária. Mas eram cursos... Se houve na época, algum abuso por parte dos professores de fora, no sentido de marcar o curso, mas o que é verdade é que, naquela época era um remédio, embora amargo, mas era o remédio para melhorar a situação da educação física79.
Pari passu ao investimento na qualificação dos professores em todo o Brasil, o Estado brasileiro garantia, ao menos nos termos da lei, a obrigatoriedade da educação física, trabalhando na direção de massificar o esporte nacional, sobretudo, por meio da escola.
No fortalecimento do Ensino Superior da graduação à pós-graduação, que obteve polpudos investimentos do governo ditatorial, a educação física passa a ser estimulada
78 CURSO de Educação Física continua no Charles Moritz. Gazeta de Sergipe, Aracaju, p. 3, 26 jul. 1969. 79 PEREIRA, Cândido Augusto Sampaio. Entrevista concedida ao autor em 21 de novembro de 2007. op. cit.
exigindo-se, para tanto, orientação e instalação adequadas80. Desse estímulo passou à obrigatoriedade em 1971, pelo Decreto n.º 69.450, que afirmava em seu artigo 2º: "A educação física, desportiva e recreativa, integrará, como atividade escolar regular, o currículo dos cursos de todos os graus de qualquer sistema de ensino"81. Sustentava que as práticas, no ensino superior, teriam natureza predominantemente esportiva com objetivos de manutenção e aprimoramento da aptidão física, conservação da saúde, integração do estudante, consolidação do sentimento comunitário e de nacionalidade.
No caso da massificação esportiva, o governo brasileiro funda, em 1969, os Jogos Estudantis Brasileiros (JEBs), que se tornaria um evento fundamental, no envolvimento dos jovens, com o esporte na escola, bem como no desenvolvimento da área de educação física.
Se em Sergipe, a UFS não estava preparada para garantir a obrigatoriedade da educação física, não havia curso superior de formação de professores na área, e o evento que oportunizava o envolvimento da juventude com o esporte, os Jogos da Primavera, havia sido extinto, como se adequar aos novos rumos históricos? Destacaram-se em cena, figuras luminares nos cursos de capacitação de professores, no Curso de Educação Física da UFS e no desenvolvimento global da área no estado, os professores Félix D'Ávila e Cândido Sampaio Pereira. De igual modo, inspirado nos JEBs, Sergipe assiste à construção da segunda fase dos processos de "escolarização" do esporte e as intempestivas ações de tornar a escola o espaço formativo, para o esporte de rendimento, ou a tentativa de "esportivizar" a escola, a fase de "aperfeiçoamento" ou fase dos Jogos Estudantis Sergipanos (JES).
80 BRASIL. Lei nº 5.540, de 28 de novembro de 1968. Fixa normas de organização e funcionamento do ensino
superior e sua articulação com a escola média, e dá outras providências. Disponível em: <http://www6.senado.gov.br>. Acesso em: 27 mar. 2006.
81 BRASIL. Decreto nº 69.450, de 1 de novembro de 1971. Regulamenta o art. 22 da Lei nº 4.024, de 20 de
dezembro de 1961, e a alínea “c” do art. 40 da Lei nº 5.540, de 28 de novembro de 1968, e dá outras providências. op. cit. p. 5.